Sebastião Nery lança A Nuvem


Todo grande personagem é inspirado por uma entidade que o orienta, auxilia ou abandona. Napoleão por sua estrela (da qual Josefina seria a personificação), Sócrates por seu demônio, Joana d’Arc por suas “vozes”, Sebastião Nery por sua nuvem. Uma nuvem que, por sinal, fez chover na sua horta, tornando-o um dos mais respeitados e polêmicos jornalistas brasileiros e cronista-mor da nossa época, além de professor, advogado, político, e, sobretudo, homem de letras, na acepção mais ampla do termo.

A Nuvem inicia-se em 1944, quando o precoce menino Sebastião é levado de sua Jaguaquara natal para o seminário, e encerra-se quando do seu retorno da adorada Paris para o Brasil, em 1994. Proporcionando-lhe uma formação acadêmica invejável, após dotá-lo do intenso amor ao saber que resultou em erudição caudalosa, a nuvem de Nery conduziu-o pelo mundo inteiro como jornalista e adido cultural, e por todo o Brasil nas campanhas políticas mais efervescentes da nossa volátil democracia, como as de Juscelino em 1955 e das Diretas em 1984.

A seguir, trechos da entrevista de Sebastião Nery:

Teve algum momento da obra em que sentiu alguma “nuvem” pesada e difícil de transcrever?
Sim. Perder o primeiro amor e o primeiro filho aos 18 anos é muita dor. Quando acabei de escrever o capitulo, bem de madrugada, chorei como um tolo. E não estava chorando de tolice. É que viver é duro.

Alguns capítulos estão dedicados à sua trajetória jornalística. Pode nos dizer o que o trabalho como repórter, colunista, editor representa para você? Acha que os novos profissionais perderam a essência da profissão?
O jornalismo não mudou a essência da profissão. A sociedade é que mudou a essência do jornalismo. Saímos de um jornalismo só político, desde a Independência, durante muito tempo tivemos um jornalismo só partidário, cada jornal representando os interesses de um grupo político e chegamos ao jornalismo empresarial, que é a grande contradição do jornalismo atual: ele diz que defende ideias, mas defende sobretudo os interesses empresariais do grupo que é dono da TV ou do jornal ou da revista a cujo serviço põe as ideias. Como passamos do capitalismo antes comercial, depois industrial, e estamos no financeiro, a imprensa é hoje sobretudo a expressão dos interesses do sistema financeiro que está por trás de todos os grandes jornais e TVs (excetuados naturalmente os pequenos, alternativos).

Para você, a cidade ideal seria uma junção de Jaguaquara e Paris? Que cor ela teria?
O homem não conseguiu fazer uma grande cidade mais completa e mais “vivível” do que Paris, exatamente porque Paris tem aquele ar fingidamente interiorano e no entanto sendo a maior metrópole cultural do mundo. Paris é a soma da paróquia com o Império. Cada um de nós carrega a infancia onde nasceu e os sonhos de um mundo que quer conquistar todo. Paris mistura os dois milagrosamente. Paris tem a cor da alma de cada um.

Do que sente saudade? Para onde ainda quer ser levado?
Ficou tudo o que pude segurar. Nunca joguei minha alma fora. Tive a ventura de guardar escondido, durante meio século, sem contar absolutamente a ninguém e permanentemente alimentado por encontros no mínimo anuais, um imenso amor que que só com a morte se perdeu. E não apenas ele. Em diversas ocasiões, também outros, também imensos. Meu coração não tem do que se queixar. Durante muito tempo imaginei um dia parar tudo e só fazer literatura, romances. Mas os livros (já são 16) iam surgindo das lutas políticas, das viagens, da vida em outros países, daquela “missão” que o Seminário me ensinou e da qual nunca fugi. Estou muito bem aqui. Mas se minha Nuvem de repente ainda quiser fazer uma estripulia e me levar para mais além, ela é quem manda. Este livro é um Muito Obrigado à vida.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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