SEC – A lenda do cacau

Por Carlos Henrique Machado Freitas
NO TREZENTOS

Um novo frisson logo no inicio do ano, conquistou a esplanada dos ministérios, o acontecimento foi de tal monta que provocou inúmeros artigos na mídia. A ideia central unifica todas as nossas personalidades da gestão corporativa, sobretudo as correntes mais conservadoras contrárias á reforma da Lei Rouanet.

Os canzarrões que mordem o filé de milhões, agora nos bastidores da política do MinC suspiram dóceis de felicidade porque ninguém vai mexer em suas milionárias mesadas públicas e ainda podem arrumar mais água para a sua bacia. E não por ironia, são eles que tentam ao menos rabiscar uma caricatura da SEC – Secretaria da Economia Criativa, para terem o prefácio da primeira edição do balão inglês.

O objetivo é ver se alguém embarca apressadamente e, juntos, os bois façam volume para a foto oficial e deem algum sinal de vida. Acontece que o comboio é pequeno para o carroção voador e aos poucos a secretaria que prometia aos artistas de etiqueta, o beijo no cacau, ainda nem nasceu e já está com beiço caído.

Nossa ministra, que agora defende a soberania das letras brasileiras, patrocinando com recursos públicos editores internacionais, resolveu buscar os holofotes das feiras de negócios para mostrar suas peças de vulto. “A Ministra Ana de Hollanda anuncia na Flip que o MinC vai investir 12 Milhões em editoras estrangeiras interessadas em traduzir ou reeditar autores brasileiros”. (O Globo).

Essa politicagem estética é um composto de interesses para que não haja pendengas entre o comando do MinC e as grandes corporações. Enquanto isso, a livraria oficial da Funarte – Rio, que se chama Livraria Mário de Andrade, instalada no térreo do Capanema, ou seja, debaixo do nariz da presidência da Funarte, não dispõe de uma única obra do autor. E a Ministra anuncia essa lambança na Flip em caráter oficial, com pose e close.

Acontece que essa picada, a SEC, recém-aberta pelos caciques do MinC não leva artista nenhum ao reino do diamante negro, ao contrário, cresce a penúria dentro desse vestígio tosco da cultura de categoria. Imagino que quando terminar essa gestão ninguém saberá o nome do povo para o qual o Ministério da Cultura define suas políticas. Toda uma legião de criadores brasileiros está numa galeria escura tal o desprezo e atrofia que essa ciência mercadológica do MinC está proporcinando.

O que vemos é o MinC engordar o caruncho e não o fruto nas tropeçadas cotidianas do palácio do comércio e da indústria cultural. Para o artista sobrará apenas o pó escrementício dos roedores.

A cultura institucional no Brasil cada vez mais beira a uma guerra aonde os grandes gestores fincam os dentes numa veia do pescoço do Estado e chupam gostosamente o sangue da sociedade. E esses atravessadores que hoje fazem a ponte entre o MinC e as grandes corporações que se beneficiam da garupa da Lei Rouanet e outras políticas de improviso estão adorando o varejão do MinC que transforma em tragédia o resto do universo cultural brasileiro.

Para as Raízes do Brasil apenas o carvão e as cinzas do fogão que assa o leitão do banquete com o objetivo de se produzir ventos contrários ao conjunto que define a cultura do Brasil. O MinC, já há oito meses, está nesse roda-moínho oferecendo um rosário de capins como nuinho, às manifestações espontâneas do povo brasileiro. E não há quem nos liberte desse suplício. Já perdemos as linhas, os novelos, os crochês. A única coisa inteira que conseguimos encontrar nessa palha seca e revirada foram os roletes de fumo.

A ciência de mercado em questão, a SEC, exige do MinC a pior das aventuras. Por isso é infalível que eles sobrevivam de um processo de peneira para que algum grão graudo caia no assoalho da velha casa grande. Ali na terra batida, fruto das mãos do povo brasileiro, a história não se realiza nas performances do novo MinC. Essa secretaria que ficou guardada nas botas da Vossa Excia. está ciceroneando apenas um chulé intitulado de indústria criativa.

Bastaria que olhássemos as duas décadas de asneiras promovidas pela cultura subordinada às grandes corporações via Lei Rouanet, para vermos que nem de gorjeta o artista brasileiro conseguiu sobreviver. Esse naipe que comanda o MinC criou um espirro letal para o universo da nossa cultura condenado a assistir ao jogo de cartas marcadas e apenas sobreviver de uma consoladora possibilidade de se nutrir de seu próprio coração.

Conclusão: está na hora de lançar o grito guardado que dê conta, em alto relevo, de um depoimento que reproduza a realidade não muito bonita que essa alegórica gestão do MinC está promovendo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três + 4 =

ao topo