Secretário de Cultura fala sobre o Festival Literário de Natal

Foto: Alex Régis

Matéria publicada na Tribuna do Norte. Título original: A literatura não está sozinha

É fato, o Festival Literário de Natal (Flin 2014) está consolidado. A exemplo do que ocorre em outros eventos semelhantes, tendo como principal referência o Festival Literário de Paraty (Flip), o pano de fundo pode até ser a literatura, mas a convergência com outras linguagens artísticas é um caminho sem volta. O secretário de Cultura de Natal, Dácio Galvão, coloca essa tendência como algo natural e que não é de hoje. “A gente sabe que a música, apresentada nos pocket shows tem um fator mobilizador. E essa é uma estratégica. Por exemplo, Jorge Mautner está vindo para o Flin, com Ben Gil que, por sua vez, fez a Flip ano retrasado com Gilberto Gil, que estava lá para discutir cultura e globalização; Maria Bethania estava lá para recitar Fernando Pessoa; Edu Lobo e Cacá Diegues, participaram da Flip esse ano para falar de cinema”, exemplifica o secretário. Seguindo, portanto, essa tendência, o Flin desse ano entrelaça literatura e música, literatura e arquitetura, literatura e fotografia, dentre outras possibilidades, através de seus convidados e parcerias.

Dentre as diferenças de outros anos, destacam-se as parcerias e ampliação dos seus espaços. Além da tenda dos escritores, onde ocorrem as mesas literárias e os pocket shows, foi criado o Espaço do Professor, sob a coordenação da educadora Cláudia Santa Rosa, que ocorrerá paralelamente no auditório do Salesiano São José, na Ribeira, colégio que fica ao lado da tenda armada na Praça Augusto Severo; o Instituto Moreira Sales (IMS) também fechou parceria com o Flin desse ano, com mediação do próprio prefeito Carlos Eduardo., e trará uma exposição fotográfica de escritores brasileiros, além de fazer o lançamento da revista cultural Serrote. Além disso, foi criado também o Espaço Moacy Cirne, sob a coordenação do editor Carlos Fialho, onde ocorrerão palestras com autores e editores potiguares, além da Feira de Editores.

Chancela
“Quando o prefeito teve a reunião com o superintendente do IMS, Flávio Pinheiro, foi uma conversa muito boa, inclusive com a participação de Eucanaã Ferraz, que se tornou parceiro da gente e é consultor do IMS. Eles aceitarem participar do Flin me encheu de orgulho, porque é um instituto muito sério, são pessoas muito independentes, que têm compromisso com o processo literário. A gente ter essa adesão mostra que não é um projeto qualquer. Isso significa que a gente tem conteúdo. Quem passa por aqui está passando pelos grandes fóruns do mundo; os caras que vêm debater são todos tampa, então não é gratuito, é uma grande oportunidade para alunos, leitores, para a cidade;”, comemora Galvão. Esclarecendo que não é o IMS quem está tomando conta do Flin esse ano. A execução é da Secretaria de Cultura através da Capitania das Artes. “O IMS é um parceiro como o Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) e os Jovens Escribas”.

O Espaço do Professor Leitor, segundo Dácio Galvão, já era uma busca antiga, no sentido de caminhar em três vértices, um deles, que contemplasse o professor e suas possibilidades de levar conteúdo de formação e transformação pra seu alunado, a partir da literatura. “Já tínhamos consolidado o debate na tenda dos escritores, onde há o compromisso com o historicismo literário e o aspecto criativo da literatura, etc. Agora, eu acho que a gente dá um passo maior, quando traz para o Espaço do Professor Leitor, por exemplo, gente do naipe de Ronaldo Correia de Brito e Cid Campos, com o Crianças, Crionças, que tem um conteúdo infanto-juvenil, com uma metodologia que vai exercitar a apreensão de um público mais jovem, mas que com todas as referências que esse trabalho traz de Edward Lear, Lewis Carroll, Augusto de Campos e Paulo Leminski, dentre outros; o que não quer dizer que um intelectual que esteja lá não vá sentir que tem um bom conteúdo”, acredita, continuando: “Era um desafio nosso levar linguagens possíveis de atingir a um público jovem e ao mesmo tempo, que tivesse um conteúdo literário que fosse universal, fosse local e que dialogasse com o melhor da literatura ocidental, inclusive e a literatura chamada de vanguarda”.

Recalque histórico
A divisão do Flin 2014 este ano está mais evidente. Questionado sobre essa separação entre as discussões que envolvem autores e editores locais, que ocorrem no Espaço Moacy Cirne e as apresentações das mesas literárias e pocket-shows, na tenda principal, que contam com poucos mediadores locais este ano, tem uma explicação que passeia do conceitual ao prático para o gestor cultural da Secult: “A gente tem evitado essa divisão estanque de local e nacional, porque é reducionista; que autores locais têm uma capacidade e uma literatura nacionalizada, isso é apenas um problema de nicho ou nichos de mercado. E os autores que estão vindo para os debates da noite, são autores que estão centrados nos grandes fóruns internacionais. Então como é que esse cara é nacional? Se ele está em Frankfurt, Irã ou Paris, ele é internacional. Acho que a gente tem de sair dessa síndrome recalcada. E que é preciso pensar para além dessas amarras que fazem parte de um certo recalque histórico, embora compreensível”, opinou. Dácio Galvão também lembra que é um gestor e como tal, precisa pensar na formação de uma política pública: “Você tem uma responsabilidade de custo benefício. Não pode aplicar grana num cantor e autor que não mobilizem público. Se você tem numa mesa o Francisco Bosco, Arnaldo Antunes, junto com Antônio Cícero, não é porque é de fora ou de dentro, e sim porque são pessoas que atuam dentro de uma cena da cultura brasileira, há 20, 30 anos, que têm uma inserção reconhecida na formulação nas suas bases teórico/estéticas/escriturais não só no Brasil, mas também com uma contribuição da literatura ocidental, na área da filosofia, estética e da poesia. Então, se não está um outro escritor nessa mesa, porque ele não está nisso que eu estou lhe falando”.

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