Segredo

Por José Miguel Winnik
O GLOBO

Nazareth teve formação liminar, sintomática da indefinição brasileira

Crises em penca. Gemendo, rindo e pulando. Tenebroso. Podia ser pior. Quebra-cabeças. If I am not mistaken. Está chumbado. O que há? Fora dos eixos. Por que sofre?… Cruz, perigo!! Não caio noutra!!! Turbilhão de beijos. Folheio maravilhado os seis volumes da obra completa de Ernesto Nazareth, primorosamente editada sob o nome de “Todo Nazareth” por Thiago Cury e Cacá Machado. Os títulos desse turbilhão de polcas amaxixadas, tangos brasileiros, valsas, peças de salão e de concerto, escrito entre o final dos anos 1870 e começo da década de 1930, são quase tão deliciosos quanto as próprias composições de Nazareth. Soberano. Suculento. Ranzinza. Você bem sabe. Desengonçado. Retumbante. Dengoso. Cutuba. Sagaz.

Catrapus! Mário de Andrade chamou a atenção para esses nomes saborosos de música popular instrumental, “empapuados de melosidade e besteira”, e só encontráveis no Brasil. Mas chamou a atenção também para um fato intrigante: como pode o autor de “Brejeiro”, “Odeon” e “Apanhei-te, cavaquinho!”, que é de longe o mais refinado e complexo compositor popular de seu tempo, ser ao mesmo tempo o mais célebre e o mais reconhecido? O enigma é comparável àquele observado por Charles Rosen e Otto Maria Carpeaux falando sobre Chopin, cuja obra, sendo de uma sofisticação musical quase “esotérica”, atravessa todas as barreiras e se torna a mais conhecida e popular de todos os compositores da “geração romântica”, e talvez de todos os compositores de música de concerto.

O próprio Cacá Machado tratou desse assunto em “O enigma do homem célebre — ambição e vocação de Ernesto Nazareth”. A mesma questão se aplica ainda a Tom Jobim. Para todos os efeitos, no entanto, enigmas não estão aí para se desvendar, mas para manter vivas as perguntas. Ernesto Nazareth está naquela confluência originária do erudito com o popular no Brasil, do oral com o escrito, das formas musicais europeias com as africanas, num momento em que as feridas de um escravismo recente nada cicatrizado faziam com que ele dissimulasse seus maxixes requintadamente escritos sob a rubrica do “tango” brasileiro.

As grandes tradições da música popular do mundo foram geradas no encontro das formas europeias com as africanas no território das três Américas. Os centros de irradiação do blues e do jazz, da música caribenha e do samba foram as grandes entradas urbanas do escravismo: Nova Orleans, Havana, Salvador e Rio de Janeiro. O piano foi o médium principal das polcas suingadas que se multiplicaram em ragtimes, habaneras e maxixes. O artífice brasileiro dessa alquimia foi dado pela figura do “pianeiro” carioca. E, se há um alquimista consumado dessa tradição, ele é Ernesto Nazareth.

Tocador de piano na sala de espera do cinema Odeon na altura de 1910, e demonstrador da mercadoria em lojas de partituras, o músico tornou-se tão famoso no Rio de Janeiro quanto o compositor de polcas do conto de Machado, “Um homem célebre”, que sonha fazer-se reconhecido como autor de peças de concerto. Assim como este, Nazareth teve essa formação liminar, sintomática da indefinição brasileira, incluindo aquilo que ela tem de inesperadamente rico, ao escrever maxixes com a sabedoria e a lábia implícitas de quem toca um prelúdio de Bach ou um estudo de Chopin. Fora dos hábitos e da trivialidade do gênero, a melodia principal pode despontar na mão esquerda e não na direita, o piano pode imitar o violão de sete cordas, a flauta e o cavaquinho, e as camadas sonoras, fundindo a polca e o maxixe como num palimpsesto, acabarem por anunciar o que seria o pandeiro do samba.

Alberto Nepomuceno, Luciano Gallet e Mário de Andrade entenderam isso no seu tempo, e, por várias vezes, entre 1908 e 1926, convidaram o singularíssimo pianeiro compositor para tocar em espaços consagrados à música de concerto, como o Instituto Nacional de Música e o Teatro Municipal. Sempre de maneira litigiosa, despertando reações e tumulto. Arthur Moreira Lima fez um trabalho importante no sentido de desautorizar essa resistência, já nos anos 1970, se não me engano, ao gravar vários discos dedicados a Nazareth.

Hoje me parece nítido, por exemplo, que o “Batuque” de Nazareth é superior ao “Batuque” escrito por um músico da importância e da envergadura de Alberto Nepomuceno. Não quero generalizar essa avaliação, mas extrair dela o que tem de sintomático. É que enquanto Nepomuceno estava, naquele caso, tentando incorporar o elemento popular à música de concerto, Nazareth circula com uma verve inigualável pelos pianismos chopinianos, pela estilização dos ritmos africanos, pela polca de salão e pelo maxixe, “falando” de um lugar que, dada a sua genialidade e a sua congenialidade, resulta na melhor tradução da condição compósita da vida brasileira. Que nele se junta de maneira luminosa — já que falamos em alquimia — em mais de duzentas joias.

Há muito tempo eu sonhava com a existência do “Nazareth todo”. É extremamente importante que se possa dispor da obra completa de compositores da música escrita brasileira (realizada, aqui, graças ao Programa Petrobras Cultural). E a música de Nazareth, que sabemos adorável, suspeito que tenha também aquele algo de inesgotável (a conferir em mergulho nos seis volumes), aquela qualidade das obras que nunca descem abaixo do seu próprio nível. Escorregando. Encantada. Cutuba. Carioca. Fantástica. Celestial. Atrevidinha.

Comentários

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  1. Marcos Silva 6 de agosto de 2011 10:19

    Ernesto Nazareth é bom demais! Há poucas semanas, participei de um espetáculo musical dedicado a História, Cinema e Literatura. A abertura foi, como não podia deixar de ser, “Odeon”, melodia primorosa que uma letra muito posterior de Vinicius de Morais desdobrou em palavras saltitantes.

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