Sem pressa, desfazendo equívocos

Por Antonio Risério
NO TERRA MAGAZINE

Gravei, no início de 2010, uma entrevista para a TV Metrópole, da Bahia. O vídeo, circulando no You Tube, gerou dois grandes equívocos – embora sem me criar, objetivamente, nenhum problema. O primeiro, em consequência de uma edição sacana, que selecionou e descontextualizou um trecho da gravação, fazendo com que eu aparecesse chamando Gilberto Gil de “preto, veado e baiano”. O segundo, em consequência de nossas diferenças regionais de linguagem, com sudestinos (sim: assim como existem nordestinos, existem também sudestinos) lendo literalmente uma expressão (um sintagma) do falar baiano – não deu nada pra ninguém -, cujo sentido é bem diverso do literal. E assim eu aparecia dizendo: “Dilma roubou o cofre do Adhemar de Barros – e não deu nada pra ninguém”. Segmento da entrevista que foi usado como peça anti-Dilma (ganhando destaque em blogs como o de Reinaldo Azevedo, por exemplo), na campanha presidencial.

Nunca me preocupei em desfazer esses dois equívocos. Nem estava com tempo, naquela época, para isso. Se a nossa atual presidente Dilma Rousseff viu a peça “contra ela”, ao longo da campanha eleitoral, não sei. Acho que não. Nos encontramos algumas vezes nos dois casarões do Lago Sul, em Brasília, onde nos instalamos. Um, na pré-campanha; outro, na campanha propriamente dita. E ela nunca tocou no assunto. Nem mesmo em momentos descontraídos. Também não sei se Gilberto Gil viu, pelo simples motivo de que não nos falamos há muitos anos, desde que rompi com ele em 2003. Mas não deve ter se incomodado, porque a história do “preto, baiano e veado” aconteceu no início de sua gestão no MinC e provocou não poucas gargalhadas, fazendo parte, durante algum tempo, do anedotário ministerial.

Mas, se antes não tive tempo (nem saco) para esclarecer as coisas, hoje acordei com tempo para tudo. É comecinho de tarde de um domingo preguiçoso e ensolarado. Os cachorros comeram cedo e correm soltos pelo quintal – inclusive minha mais nova aquisição, Feuer, lindo pastor alemão de seis meses. O caseiro está de folga. O adolescente Lucca foi passar o fim de semana na praia de Itacimirim. E minha mulher, Sara Victoria, saiu para almoçar com uma dupla de amigos, em algum lugar aí do litoral, ficando de me trazer um peixe assado, que devo degustar ao entardecer. E o que é mais importante: me recuperei da gripe que peguei em São Paulo, mas ainda não estou 100%, com maior disposição para ler ou escrever. Logo, resolvi gastar algum tempo dissolvendo aqueles equívocos.

O caso do “preto, veado e baiano” (que a edição do vídeo distorceu, extraindo do contexto) é o seguinte. Quando Lula foi eleito, em 2002, entramos em campo – eu, João Santana e Roberto Pinho – para tentar emplacar Gilberto Gil no Ministério da Cultura (a primeira coisa que fizemos, aliás, foi convencê-lo a aceitar o cargo). Lula nomeou o crioulo e eu e Roberto fomos com ele para Brasília. Hora de montar a equipe. Chamamos logo Waly Salomão. Não foi fácil. Gil não queria de jeito nenhum (Waly o chamava de Tia Anastácia, apelido que logo adotamos). Mas acabou cedendo. E Waly assumiu a direção do Instituto Nacional do Livro. Numa reunião no apartamento do futuro ministro, no Rio, surgiu a conversa de eu assumir o posto de secretário executivo do MinC. Mas chegamos a outra conclusão: nem eu nem Roberto deveria ocupar tal cargo, mas jogar solto, na formulação de linhas e projetos, livres da labuta diária com a burocracia e pelo controle da máquina. Convidei, então, um político baiano, Juca Ferreira, para o posto. Ele recusou. Disse que não era “da área da cultura, mas do meio ambiente” – e que estava na batalha para ser o secretário executivo do Ministério que seria comandado por Marina Silva. Mas acabou convencido e aceitou. Daí, acertamos o restante do elenco com Márcio Meira, Sergio Mamberti, Grassi, etc – enfim, a turma do PT.

Faço aqui uma pequena pausa. Waly foi chama, brilho, inteligência e gargalhada naqueles dias. E aconteciam com ele coisas ótimas. Logo que ele chegou em Brasília, fomos almoçar no Carpe Diem. Mal sentamos na mesa, entra o ex-governador baiano (e, então, senador) César Borges. Waly se levanta sorrindo e eles se abraçam calorosamente, para a nossa surpresa. Mas é que não sabíamos que eles eram amigos de infância e adolescência, ambos naturais de Jequié, cidade do interior da Bahia. César perguntou: “E então, Waly, qual é a sua função no Ministério?”. Waly se atrapalhou totalmente, sem conseguir se lembrar. “Não é diretor de sindicato, não… é… é…” – virou-se, então, para nós e perguntou, meio aflito: “Eu sou o que mesmo?”. Informamos. E ele para César: “Isso. Eu sou presidente do Instituto Nacional do Livro!”.

Assumimos, então, o MinC. E aqui entra a história que contei na gravação e foi mutilada na edição do vídeo. Eu não tinha a menor paciência para aquela postura grave, estudada, dos funcionários do MinC. Era tudo muito solene e formal. E eu queria quebrar com aquilo. Passei a trabalhar de camiseta. Mas não adiantou nada. A pomposidade continuava me cercando. Resolvi, então, dar um tratamento de choque. Waly se divertia. Mas o resultado era mínimo. Então, um dia, uma secretária meio coroa, maquiada, de tailleur e salto alto, entrou na minha sala e se dirigiu a mim, como se estivesse dizendo a coisa mais importante do mundo: “O ministro deseja saber quantos convites o senhor quer para o show?”. Que show? “O show do ministro”. Daí, não resisti. Olhei bem sério para ela e disse algo mais ou menos assim: “Nenhum. Não vou nesse show, não. Preto, baiano e veado? Não vou não”… É totalmente diferente o que o vídeo passa. Aliás, contei a história logo depois, numa reunião na sala do ministro e foi uma gargalhada geral.

Já o outro equívoco, como disse, foi linguístico. Eu fiz uma comparação sacana, debochada, para dizer que, enquanto José Dirceu metia os pés pelas mãos, Dilma sabia fazer as coisas. Disse algo mais ou menos assim (não vou me dar ao trabalho de rever o vídeo, para citar palavra por palavra): “O Dirceu organizou o congresso da Une em Ibiúna e foi todo mundo preso. A Dilma roubou o cofre do Adhemar e não deu nada pra ninguém. Ela sabe fazer”. Os sudestinos leram o “não deu nada pra ninguém” em seu sentido literal. O que faz a frase ficar assim: “Dilma roubou o cofre do Adhemar e ficou com a grana toda pra ela”. Acontece que não é este o sentido da expressão baiana não deu nada pra ninguém (podem perguntar aí ao Bob Fernandes ou ao colunista Jorge Portugal, que é professor de português – e que, aliás, poderia ficar milionário dando curso de redação para políticos e boa parte dos professores de nosso sistema público de ensino). Na Bahia, quando dizemos “fizemos isso e aquilo e não deu nada pra ninguém”, estamos dizendo o seguinte: ninguém se deu mal, ninguém quebrou a cara, ninguém se fodeu. Então, o sentido do que eu disse é: Dilma roubou o cofre do Adhemar (o que, aliás, nem sei se é verdade) e ninguém foi preso. Quer dizer, ao contrário do Dirceu em Ibiúna, ela soube fazer…

Foi o desconhecimento sudestino dessa nota do linguajar baiano que permitiu que o trecho do vídeo virasse peça de campanha contra a presidente Dilma. Mas já nem ligo. Afinal, já fui chamado de “mentor da axé music”, já me viram vaiado em bar de roqueiro (coisa que nunca freqüentei em minha vida), já conheci colegas de sala de colégios onde nunca estudei e até – pasmem – cheguei a receber, eu mesmo, telefonema de pêsames, porque um jornaleco tinha noticiado meu falecimento (história que contei aqui mesmo nesta revista, tempos atrás). Ou seja: tudo é possível. Mas chega de papo. Vou voltar à minha tarde de domingo, a fim de comer o peixe que me foi prometido.

Antonio Risério é poeta e antropólogo.

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