“Sem título” ou “Do pesadelo de dar nome às histórias”

Por Raphael Montes
BLOG DA COMPANHIA

Escolher o título de uma história (seja um conto, um romance ou um longa) sempre foi, para mim, um pesadelo. Como este pesadelo me atingiu em cheio nos últimos dias, resolvi escrever um texto sobre o assunto. Ao final, quem sabe eu consiga dormir em paz.

Pessoalmente, tenho predileção por títulos curtos, fáceis de memorizar, genéricos, que tragam o espírito da história sem entregar muita coisa. Sempre que possível, acho interessante que o título contenha alguma ironia ou mensagem subliminar. Aos doze, quando comecei a escrever, tinha a regra de só desenvolver uma história quando já tivesse um título para ela. Levava isso muito a sério e cheguei a desistir de algumas narrativas apenas porque não tinha um título.

Após Suicidas, meu romance de estreia, comecei a escrever um chamado Rua dos Crimes, um policial-enigma clássico, bem ao estilo Agatha Christie. Havia chegado à metade do livro quando comentei a história com uma amiga e ela retrucou: “Legal, mas é juvenil, né? Rua dos Crimes é nome de livro juvenil”. Pronto, não consegui mais mexer no arquivo. O título não me convencia e eu não conseguia avançar sem saber que nome dar para aquela história.

Felizmente, essa mania doida é passado. Hoje consigo escrever sem ter um título. Mas sempre que me pego deitado na cama, distraído, estou pensando: “caramba, que título vou dar para essa história?”. Um bom título é importantíssimo. Além de cumprir a difícil missão de apresentar o livro, deixar entrever seu conteúdo, o título é responsável por cativar, atrair alguém que nunca tenha ouvido falar dele, o livro, ou de você, o escritor. Numa consideração comercial, o título — junto com a capa — convence o potencial leitor a comprar o livro: é a primeira impressão que ele tem do seu trabalho.

Com o tempo, a gente aprende algumas coisas. Se escrevesse Suicidas hoje, acho que eu mudaria o título. Optaria, talvez, por algo mais abstrato: “A reunião”, “O porão” ou ainda “Roleta russa”. Gosto do nome que escolhi, sei que resume bem o livro e chama atenção de alguns, mas também sei que muita gente torceu o nariz e deixou de ler o livro apenas porque se chama Suicidas.

Em Dias perfeitos foi diferente. Enquanto escrevia, todos meus leitores-beta reclamavam do título: era muito vago, muito simples, parecia história de amor. Eu bem sabia que era um título arriscado — dependia de uma boa capa para passar sua ironia. Ainda assim, fui em frente. Agora, publicado, quase todos os dias recebo e-mails ou inboxs de pessoas que compraram o livro iludidas pelo título (“achava que era um livro fofo”) e se surpreenderam positivamente com o conteúdo. Pessoas que nunca leram um livro de suspense acabaram lendo o livro por causa do título “romântico” e descobriram os prazeres da literatura policial e de mistério. Quer coisa mais legal? Além disso, em todas as traduções, o título original tem sido mantido. Sinal de que funcionou, a meu ver.

Agora escrevo meu terceiro romance adulto. Quando tive a ideia, o título era Cortes exóticos. No Programa do Jô, incentivado a antecipar a notícia, disse que o título provisório era Jantar no matadouro. Já passei por diversas opções: “Carne de caça”, “Mesa para dez”, “A delicadeza do corte” e “Anatomia de um jantar”. Atualmente, encolhi: o livro se chama apenas Jantar. Até a publicação, só Deus sabe.

Nesses momentos de conflito interno, sempre me lembro de uma história que o Marçal Aquino costuma contar. Na época, ele escrevia Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios e todo mundo dizia que era um título ruim, longo demais. Em uma Flip, o mediador soube do título do original nos bastidores e, durante a mesa, insistiu que Marçal revelasse ao público. Ele disse: “Olha, é provisório… Nenhum editor vai querer publicar um livro com esse nome”. Quando Marçal revelou o título, Luiz Schwarcz chamou da primeira fileira: “eu publico!”. Hoje, Eu receberia… é um dos títulos que mais elogiam na literatura brasileira contemporânea, além de ser um livraço.

Ainda atormentado por pesadelos com títulos, lanço a pergunta a vocês: escritores, como escolhem os títulos de seus trabalhos? Leitores, quais seus títulos favoritos? Além disso, claro, se alguma alma caridosa quiser palpitar nos títulos possíveis do meu terceiro romance, aceito de bom grado. Daqui, continuo pensando e escrevendo. Enquanto isso, não durmo.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery Magazine. Suicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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