Semana da mulher: Carmen solta o verso

A arte acontece, não?

Creio que ela dorme ou fermenta em cada um de nós à espera do transbordamento gerado por labor e domínio técnico.

Explosões revolucionárias, como nos faz acreditar Igor Stravinsky em sua Poética Musical em 6 Lições, não são totalmente espontâneas.

Elas surgem como algo forçado, meio kamikaze, porém, organizadas, para emergir o fluxo latente.

Assim funciona a poesia.

Assim é travada a luta feminista.

Nesta semana em que paixões políticas extrapolam a razão, em que uma hecatombe civil é prenunciada em cada fala, cada post, cada informação publicada, amplificar o grito da banda mais numerosa da humanidade passa longe do ‘politicamente correto’.

É caso de sobrevivência geral, amigo velho.

“Quer fazer média com a mulherada, né, major?”, diria aquele ogro que ontem abusou da paciência de todos ao soltar mêmes com piadas de gênero nos grupos do WhatsApp – dos quais participamos por questão profissional ou cuidado com os filhos.

“Pense assim, que vamos longe”, eu diria, para fingir polidez.

Pois, bem.

Na manhã de ontem (08), em uma sala de reunião do Tribunal Regional do Trabalho, em Lagoa Nova, conversei com a poeta Carmen Vasconcelos, uma mulher que em 1980 saiu de Angicos, região central do Rio Grande do Norte, para continuar sua história aqui em Natal.

Sua compleição é delgada. Seus cabelos, encarnados. Tanto a voz é sutil, quanto o sorriso é gratuito. Poeta decantada por muita gente boa como artista de primeira grandeza nesta esquina da América do Sul – a lista inclui Luís Carlos Guimarães (1934-2001), Nei Leandro de Castro e o próprio Tácito Costa.

Autora de três livros de poesias – Chuva Ácida (2000), Destempo (2002) e O Caos no Corpo (2010), lança amanhã (10), a partir das 18h, no Clube dos Radioamadores, uma compilação de artigos publicados no jornal Tribuna do Norte sob o título Uma Noite Entre Mil (Ideia Editora, de João Pessoa/PB).

A transformação daquela angicana de 14 anos, que chegou à capital para morar com uma tia (ainda viva aos 105 anos) e estudar, em poeta e analista judiciária passou por três décadas com a mesma intensidade que a bandeira feminista foi hasteada, sobretudo nos últimos anos.

“Não defendo a arte engajada, mas acho que a gente escreve nossa vivência. É inevitável que muita coisa [pessoal] apareça. E aí eu acho que tinha uma visão muito mais de mulher branca de classe média e que hoje tomei muito mais consciência. Eu aprendi com a roqueira Pitty. Foi com ela que ouvi pela primeira vez a palavra sororidade. Antes disso eu tinha pensado que não sofro tantas privações de direitos, digamos assim. Por quê? Porque sou uma mulher branca, de classe média, independente. Mas e as outras mulheres?”.

CHUVA_CIDA_1346557422BAngicos, poeminhas e subjetividade

Ainda garota, Carmen começou a montar sua reserva intelectual com leituras de mitologia grega e romana, livros didáticos, romances banais, revistas em quadrinhos, a Bíblia Sagrada, a poesia do baiano Castro Alves e dos cariocas Olavo Bilac e Vinícius de Moraes – já mulher feita, vieram o mexicano Octavio Paz e as potiguares Diva Cunha, Marize Castro e Iracema Macedo.

Os poeminhas sem valor literário da infância amadureceram aos 30 anos. Estudante do curso de direito da UFRN, uma Carmen receosa mostrou um caderno repleto de poemas para o professor Marcelo Navarro. A empolgação foi tamanha que logo Luís Carlos Guimarães foi acionado como avalista dos versos. O poeta currais-novense sugeriu dois livros, em vez de um – resultou em Chuva Ácida.

Carmen desgosta de uma parte dessa estreia.

“Eu sou muito exigente, embora muitas vezes erre. Porque é um julgamento muito subjetivo [boa ou má poesia]. É muito difícil falar de si mesma. Eu até sou uma leitora atenta, mas para falar de mim mesma, não sei. Ali tem coisas que não publicaria hoje em dia”.

Do tempo em Angicos, seu poder inventivo flutua sobre os 170 km que separaram o pequeno município da capital e aterriza em belas frases – para muitos, com passagens eróticas, sensuais. Como boa interiorana, a vida livre, talvez ingênua, de outrora faz parte da progressão de valores, amores e, quem sabe, horrores.

“Morávamos na casa de meu avô [Carmen tem dois irmãos] e ainda tinham os agregados. Então, minha casa era sempre muito cheia. Tenho lembranças muito boas da minha infância. Era muito livre, andava a cidade inteira e nunca me aconteceu nada de mal, nada de ruim. Meus amiguinhos, nós brincávamos na rua tranquilamente. Eu trabalho muito com memória nos meus escritos e Angicos aparece muito, embora nem sempre explícita. Mas eu diria que aparece em uma quantidade enorme do que eu escrevo. Uma memória ficcionada desse período”.

Leila Diniz_1967

Descoberta do feminismo

Autor citado por Carmen em entrevistas, Jorge Luis Borges gostava de dizer que tinha apenas perplexidades a oferecer. Que a história da filosofia (e, porque não, da literatura?) era a reunião do que espantou hindus, chineses, gregos, escolásticos, Hume, Schopenhauer – tiro esta frase readaptada de uma das palestras proferidas pelo argentino em Harvard, agrupadas no sensacional Esse Ofício do Verso.

Perplexidade é o que sobra nas mulheres.

Cantadas chulas, olhares invasivos e insistentes, violência física em estado bruto. A lista de tormentos é infindável. Basta uma breve circulada pelas redes sociais para vermos as angustias diárias – como se o assédio virulento fosse pouco, existe a parcela que recorre a soluções do Brasil Colônia para ciúmes, traições ou meras discordâncias.

“Acho que o feminismo foi um dos movimentos sociais que ganhou impulso, nos últimos tempos, até porque houve um recrudescimento da repressão. Pelo menos nos últimos dois anos, quando esse novo Congresso assumiu, com pautas muito conservadoras. Isso atinge muito os direitos que até então havíamos conquistados. Acordamos para tentar não perder os direitos que tínhamos e conseguir nada mais do que a justiça, porque igualdade de direitos é uma questão de justiça”.

Carmen confessa que o feminismo afeta sua poesia. Termos como cis, sororidade, empoderamento, desconhecidos para a imensa maioria dos homens, incidem em seu pensamento a ponto de fazê-la relembrar um ícone nacional.

“Quase sempre os movimentos sociais precisam ter essa vanguarda, que abre o caminho para os outros. Eu lembro agora de Leila Diniz. Sempre gostei muito dela, porque acho que ela foi de vanguarda nos anos 1960, 1970. Ela abriu muitos caminhos, naquela época, que estavam totalmente fechados. E ela foi de peito aberto e levou muita porrada. É um símbolo do feminismo ainda hoje. Todo dia a gente vê muita violência, muita crueldade, violência doméstica contra a mulher, e a gente não pode se fechar no mundo A gente precisa de mulheres de linha de frente, embora, às vezes, elas carreguem um sofrimento pessoal muito grande.  Isso tudo me afeta, sem dúvida. Sinto que houve uma evolução no meu pensamento, uma tomada de consciência. E nesse novo livro eu senti isso”.

Mãe da também escritora Carol Vasconcelos (A Filha de Gaia), Carmen escuta reggae e rock dos 80s – Década do fim do Regime Militar, das Diretas Já, da Tragédia no Sarriá e da aparição de Fernando Collor de Melo. Carmen é tão intensa quanto os episódios-chave da época da hiperinflação.

“Eu sempre paguei meus preços, mas, de um modo geral, sempre fiz o que quis, por causa da minha independência. Porém nem todas as mulheres podem fazer o que querem. Ainda há um jugo, principalmente nos rincões, porque a mulher pobre sofre mais, ainda mais se ela for dependente do marido”.

9 (3)Quase sempre nossa imaginação preenche espaços em branco com teorias preconcebidas. Na arte, quanto mais restrições, mais liberamos nossa personalidade, mais buscamos subterfúgios para suplantar desequilíbrios. Ou pelo menos é assim que deve ser.

E para uma mulher como Carmen, que sofre em seu fazer poético e aponta o dedo para o lado obscuro da vida em versos, crônicas e depoimentos, a igualdade é incolor.

“A poesia é trabalhosa. Às vezes dói, quando você não consegue aquilo que pensava que ia conseguir. Tem hora que você para, a palavra não deixa. A palavra é voluntariosa mesmo”.

Fotografias de Carmen Vasconcelos: John Nascimento

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