O senhor 120 recebe tchau da simpática funcionária pública

Foi assim.

No ITEP da Ribeira informaram-me que a segunda via da Identidade poderia ser feita na Central do Cidadão do Alecrim, que fica perto de onde moro, na Cidade Alta. Fui à tarde lá, mas o expediente acaba quando são atendidas 300 pessoas. O funcionário recomendou-me que fosse no outro dia às 7 horas para pegar uma ficha e ser atendido. Obedeci. Cheguei no dia seguinte às 7h30. Fiquei numa fila do lado de fora do prédio por uns 10 a 15 minutos. O tempo estava nublado, mas felizmente não choveu. Quando entro, o velho prédio, adaptado para uma repartição pública, cheio de gambiarras e ar condicionados do tempo do ronca e que não passa numa inspeção de rotina dos Bombeiros, já está lotado.

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Além do RG vou renovar a Habilitação. Dirijo-me ao local onde isso é feito, mas sou informado que os serviços estão suspensos porque a impressora quebrou. “Mas a qualquer momento chega o rapaz para consertar”. Fico de olho. O que realmente acontece. Uma meia hora depois chega o técnico e dou andamento à habilitação. John me atende. Puxo assunto. Ele diz que estuda engenharia. Pergunto se o seu nome é uma homenagem ao ator John Waine, dos famosos filmes de faroeste. Ele não faz a menor idéia de quem seja John Waine. Por volta das 10h30 já resolvi essa parte.

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Parto em busca do ITEP para fazer a segunda via da Identidade. Naquele tumulto organizado pergunto ao senhor se é ali mesmo no térreo. Ele responde que naquele local somente primeira via, segunda via é no primeiro andar, onde para se chegar tem de se vencer vinte degraus de escadas. Uma senhora, bem no meio da escada, controla o acesso. Vai liberando a subida de dez em dez. Idosos e deficientes esperam embaixo enquanto os familiares resolvem tudo lá em cima.

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Estou tranquilo. De férias parciais. Saí de casa preparado. Tomei um café reforçado. Já sei o ritmo de certos serviços públicos brasileiros. Penso: – com sorte estarei em casa para o almoço. Pra passar o tempo ouço música no celular, uso o WhatsApp e me distraio com o Facebook. O ambiente é muito barulhento. Não consigo me concentrar na leitura do livro. Começo a pensar em fazer um texto retratando aquela situação tão pouco cidadã. Faço fotos com o celular. Um funcionário pergunta por que estou fazendo fotos. “Como recordação desse lugar”, respondo.

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Não sabia que os documentos teriam de ser pagos em espécie, pensei que débito em conta resolvesse. Eu só estou com uns 20 Reais no bolso e terei de desembolsar R$ 125,00. A moça do Detran me orienta a ir no supermercado em frente que tem um caixa 24 horas. Vou, aproveito e tomo água. O Alecrim está em ebulição por volta das 11 horas.

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Estranhamente os funcionários são polidos e simpáticos. Será que estão dopados? Por que num chafurdo daqueles o cara manter a calma e a fé todos os dias durante seis horas de expediente não é normal. Além da ficha para o atendimento inicial, você tem de pegar outra para o pagamento. No meu caso, tive de pegar uma ficha por volta das 10 horas para pagar a habilitação e outra por volta das 12h30 horas para pagar a identidade. Ficha é sinônimo de fila. No mundo perfeito do burocrata fila é organização e ordem. Ficha é também poder.

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Lá em cima a situação é um pouco pior. Numa sala pequena trabalham uns dez funcionários do ITEP e o local está cheio. Muitas mães com crianças de colo, tanto em cima quanto embaixo. Só chegando lá na sala compreendo porque o processo demora tanto. É tudo manual e no grito. Os dois funcionários do ITEP pegam sua foto e com uma tesoura cortam as bordas, passam cola, sujam seu polegar com tinta preta, pra colher a digital, depois plastificam e cortam as bordas. E à medida que os atendimentos vão ocorrendo elas gritam o nome de outra pessoa, seja para pegar a foto ou a certidão ou resolver alguma pendência. Lembrei-me – é do meu tempo – da produção industrial dos jornais de antigamente.

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Um senhor ao meu lado comenta: “Desde ontem que rodo atrás da identidade, hoje tá uma beleza aqui, ontem não cabia mais ninguém”. Sinto-me com sorte, talvez perca mesmo só uma manhã pra retirar os dois documentos.

“Bacana esse sistema de fichas, as coisas fluem, né?”, falo pra senhora das fichas, puxando assunto. Ela fica lisonjeada e responde: “Funciona muito bem”.

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Apesar do barulho, não presencio nenhuma alteração. As pessoas comportam-se com civilidade e resignação. É aquela “Gente Humilde”, cantada por Vinícius. Por via das dúvidas tem um cartaz colado na parede lembrando o artigo 331 do Código Penal, que prevê cadeia e multa para quem desacatar servidor público em seu local de trabalho.

 

Resolvo ir ao banheiro. A porta não tem fechadura. Um paralelepípedo serve de ferrolho. Está faltando água. Não tem papel. O fedor se espalha. Desisto. O bebedouro fica ao lado do banheiro. Uma senhora reclama do absurdo.

Fico no pé da escada e pergunto umas três vezes à funcionária se já está perto da ficha 120. “Está na 80”. “Subiu o da ficha 100”.

Por volta das 13 horas, 5 horas e 30 minutos depois, estou liberado. Apesar da maçada, com a sensação estúpida de que tive sorte, consegui resolver tudo em uma manhã.

Dou tchau à simpática senhora da escada. Sorrindo, ela responde: “Tchau 120”.

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