Com sensibilidade e humor Boi Neon foca no Nordeste em mutação

As pessoas que moram no litoral nordestino, sobretudo nas capitais, não tem muita noção de quanto o interior do Nordeste mudou nos últimos anos. Muitas ainda se valem de arquétipos culturais que a remontam na literatura ao Regionalismo ou ao Cinema Novo (Glauber, sobretudo), por exemplo, quando tentam explicar ou se referem à região. Quem é do interior, como eu, e que retorna umas duas vezes por ano à cidade de origem se dá conta dessas alterações significativas nas paisagens humana e geográfica.

Praticamente não existe mais diferença entre o que a gente costuma ver em Natal e em uma cidade do interior. Todo mundo está conectado nas redes sociais, os smartphones são de última geração, os trajes, incluindo possantes tênis, e perfumes são de marcas conhecidas e da moda, claro, os donos de fazendas circulam nessas camionetes grandonas e quase todo mundo tem sua moto, os trailers de fast food e pontos que vendem açaí estão por toda parte. As academias de ginástica e as tatuagens também chegaram. As padarias viraram conveniências e as antigas pracinhas foram substituídas por modernas “praças de alimentação”. Os blogueiros substituíram as esquinas e dão conta, em tempo real, do que acontece e não acontece na cidade.

boi neon 2Por isso, não se constituiu uma surpresa propriamente dita ir ao cinema e deparar com um significativo recorte dessas mudanças. O filme Boi Neon, de Gabriel Mascaro, se vale do microcosmo de um dos mais importantes eventos culturais do Nordeste, a vaquejada, para nos apresentar essas mudanças no cenário da região. Parece-me que o cinema se antecipa à literatura ao abordar esse novo ciclo histórico.

O filme nos leva aos bastidores das vaquejadas, onde Iremar (Juliano Cazarré) prepara os bois antes de soltá-los na arena. Levando a vida na estrada, o caminhão que transporta os bois para o evento é também a casa improvisada de Iremar e seus colegas de trabalho: Zé (Carlos Pessoa), seu parceiro de curral, e Galega (Maeve Jinkings ) – dançarina, motorista do caminhão e mãe de Cacá (Alyne Santana).

Mas se as mudanças em si porque a região vem passando não me surpreenderam, não posso dizer o mesmo da forma como o diretor nos apresenta isso. Primeiro, focando na história de pessoas comuns. Segundo, a forma como inverte a lógica de gênero, evitando a armadilha dos estereótipos. Iremar é um peão sensível, que sonha em se tornar estilista (a região onde se passa o enredo é um polo de confecções ); a motorista do caminhão é a Galega; outro vaqueiro, Júnior (Vinicius de Oliveira) faz “chapinha” no cabelo grande, à la Wesley Safadão. Terceiro, com sensibilidade e humor, com destaque para o personagem Zé, impagável em algumas cenas, como a do frustrado roubo do sêmen de um cavalo de raça.

Gostei demais de Boi Neon, que tem algumas cenas de sexo forte, podendo impressionar os pudicos ou moralistas de plantão. Esses já estão avisados. O filme também nos leva a refletir sobre a forma como os animais são tratados, principalmente após uma cena mais chocante, que acontece numa das vaquejadas.

O filme, uma produção Brasil/Uruguai/Holanda, já arrebatou mais de 15 prêmios, em Festivais como o de Veneza, Rio, Toronto e Hamburg.

O Diário de Pernambuco enumerou dez razões porque você deve assistir Boi Neon, que está em cartaz no Moviecom: AQUI

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Wecsley Mariano 16 de Fevereiro de 2016 9:45

    Típico filme brasileiro que gosto de ver no cinema, e a indicação sendo sua. Vou ver essa semana mesmo!!! Depois conto as minhas impressões!!!! Valeu!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 16 de Fevereiro de 2016 9:49

    Amigo, só fica em cartaz até esta quarta-feira, 17.

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