Sensibilidades encarceradas

Existe a lucidez e a ilucidez.

A gente aprende alguma coisa de tanto lucidar. (Estamira)

Era das linhas dos lençóis e dos fios azuis dos uniformes dos internados da Colônia Juliano Moreira que vinha a força criante de Artur Bispo do Rosário. Tecendo desenhos oníricos ele driblou a violência do aparato manicomial, identificou espaços, reconstruiu mundos e instaurou um povir na linguagem artística.

Imbuído em um devir-revolucionário ele criou linhas de fugas, passagens que desestabilizaram as fronteiras entre ficção e realidade, lucidez e loucura. Diagnosticado com esquzofrenia paranóide,  Bispo do Rosário subverte as lógicas do sistema manicomial e  tece arte  com as  linhas  desse sistema. Assim, insere  seu nome na  história da arte contemporânea  brasileira.

O primeiro internamento de Bispo do Rosário foi no Hospício D. Pedro II. Alguns anos antes, nesse mesmo hospital tinha sido internado Afonso Henriques de Lima Barreto. Depois de um mês, Bispo do Rosário foi transferido para a Colônia Juliano Moreira.

Posteriormente, neste mesmo hospício foi internada Stella do Patrocínio. Estes artistas abriram lastros para repensarmos os sistemas de valoração da arte, as políticas de autorização da escuta, o modo asilar-manicomial e as sensibilidades encarceradas.

É dito: pelo chão você não pode ficar

Porque lugar de cabeça é na cabeça

Lugar de corpo é no corpo

Pelas paredes você também não pode

Pelas camas também você não vai poder ficar

Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar

Porque lugar de cabeça é na cabeça

Lugar de corpo é no corpo.

Este discurso-poético de Stella do Patrocinio também denominado de  «falatório», foi gravado por Carla Guagliardi e Mônica Ribeiro de Souza, estagiárias da Colônia Juliano Moreira, gravações só possíveis graças ao movimento nacional da luta antimanicomial  iniciado nos finais do anos 1970 e início dos  anos 1980. Criaram-se  espaços  para que os corpos subaltenizados  e psiquiatrizados  pudessem falar  e serem ouvidos. 

O poder em sua forma mais violenta

Stella denuncia as proibições e violências a que  foram/são submetidos os corpos historicamente subalternizados dentro do sistema manicomial. Assim como as prisões, os manicômios são espaços onde o poder se  manifesta nas suas dimensões mais violentas, sendo estas  violências  justificadas no interior do próprio  sistema. O  «falatório» de Stella emerge com um contra-discurso. «É uma primeira ação de voltar do avesso o poder, é o primeiro passo para outras lutas contra o  poder» (Deleuze, 1976)

Eu estava com saúde

Adoeci

Eu não ia adoecer sozinha não

Mas eu estava com saúde

Me adoeceram

Me internaram no hospital

E me deixaram internada

E agora eu vivo no hospital como doente

O hospital parece uma casa

O hospital é um hospital

Segundo Bachelard, «há horas na vida de um poeta em que o devaneio assimila o próprio real». Para ele, a função do devaneio é proteger o psiquismo humano de todas as brutalidades do eu. Stella do Patrocínio nos convida a (re)nomear  o real,  a pensar a realidade em uma perspectiva do devaneio e nos convoca a «re-ligere», isto é, a olhar/escutar atentamente o mundo.

A realidade é esta folha

Este banco esta arvore

Esta terra

É este prédio de dois andares

Estas roupas estendidas na muralha

Lima Barreto escreveu Diário do Hóspicio, conjunto de apontamentos sobre o tempo em que esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. Autor não se considerava louco, dizia que estava ali pelo álcool e as dificuldades da sua vida material.

Mundo adoecido

«Isso aqui é um depósito… dos restos. Ás vezes… é só resto… e às vezes… vem também… descuido. Resto e descuido… Quem revelou o homem como único  condicional… ensinou ele a conservar as coisas». Papelmeladodefezes. Caixameladadeterra. Restosdecomidas. Pedaçodesabonete. Caixas. Garrafas. Maucheiro. Urubusvoando. Homemcatandolixo. Comendolixo. Virandolixo. Vivendodolixo.

Para Glauber Rocha: «somente uma cultura da fome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência». Através de um discurso flamejante, Estamira Gomes de Souza, trabalhadora do maior lixão da América Latina – o Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, nos convoca a reelaborar o nosso estar no mundo.

O consumo excessivo de mercadorias e a produção em grande escala de lixo são sintoma de um mundo doente. Para Deleuze, «o mundo é um conjunto de sintomas que se confundem com o homem» (Deleuze, 1997). Estamira não é  o sintoma, mas o caminho, o entre. Estamira é a beira do mundo e de lá, que ela mostra-nos o lado  escatológico da vida, pois  «onde cheira a merda/ cheira a ser». (Antonin Artaud)

Os  catadores de lixo são seres invisibilizados socialmente. Estamira nos convoca a re-ver. Seu discurso mistura revolta e delírio:  «Eu transbordei de raiva… transbordei de ficar invisível… com tanta hipocrisia, com tanta mentira, com tanta perversidade, com tanto trocadilo (sic)».

Internado por duas vezes em instituições psiquiátricas, Lima Barreto documentou sua passagem pelo Hospício Nacional dos Alienados (RJ)

Além de ser Estamira, a sua missão era «revelar a verdade, somente a verdade. Seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário».

Artur Bispo do Rosário, Estamira Gomes de Souza, Stela do Patrocínio e Lima Barreto «sacudiram o sentido do mundo», atacaram as instituições, subverteram lógicas e formularam “verdades insuportáveis”. Eles fizeram-nos interrogar o delírio, a realidade e arte.

“Estou no hospício ou, melhor, em várias dependências dêle, desde o dia 25 do mês passado. Estive no Pavilhão de observações, que é a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas mãos da polícia. Tiram-nos a roupa que trazemos e dão-nos uma outra, só capaz de cobrir a  nudez, e nem chinelos ou tamancos nos dão”.

Diário do Hóspicio é um conjunto de apontamentos sobre o tempo em que Lima Barreto esteve internado no Hospital Nacional dos Alienados, no Rio de Janeiro. O autor não se considera louco e diz que ali está  por causa  do álcool e  de todas as dificuldades da sua vida material. No início do século XX, o alcoolismo era considerada um loucura moral pelo saber médico-psiquiátrico.

 “Voltei para o Pátio. Que cousa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Êle já me conhecia da outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e elê me fêz baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deveriam ter sofrido em Argel e na Sibéria. Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que eu preciso dela. (Barreto, 1961, p.34-35)

Em Diário do Hospício (apontamento). Lima Barreto utiliza a escrita para descrever e denunciar as formas de controle dos sujeitos “loucos”, aponta as dinâmicas do hospício, descreve os pacientes, tece criticas ao saber médico e denúncia as violências permitidas com a institucionalização da loucura, sobretudo a violência policial. A escrita é saúde.

Homo sapiens sapiens demens

“Somos seres infantis, neuróticos, delirantes e também racionais”

A loucura é tão humana quanto o que se diz ser o equilíbrio. Para Antonin Artaud era um estado do ser. «O ser tem estados inumeráveis e cada vez mais perigosos». Talvez por isso como um gesto de louca lucidez escreveu  Lima Barreto: «Um maluco vendo-me passar com um livro debaixo do braço, quando ia para o refeitório , disse: – Isto aqui está virando colégio.»

O  homem é Sapiens e é também Demens, é  Faber e também Ludus. “Somos seres infantis, neuróticos, delirantes e também racionais. Tudo isso constitui o estofo propriamente humano. O ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida; sujeito de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer a objetividade; é sério e calculista, mas também ansioso, angustiado, gozador, ébrio, extático; é um ser de violência e de ternura, de amor e de ódio. (Morin, 2002). E é assim que entendo a loucura, uma possibilidade humana.

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