Sequestrando Cervantes

Por Antônio Xerxenesky
FSP

Quando tudo começou, isto é, quando o partido ceticista subiu ao poder no Reino Unido em 2105, eu era completamente a favor dele. O plano do grupo -proibir por completo a prática religiosa- me agradava. Fui criado numa família que nunca acreditou em deus algum e que associava sempre a imagem do “religioso” à do fanático homem-bomba. Admito, votei neles assim que surgiram. Mas sou um guardião da cultura -é assim que enxergo os professores- e, se os planos que descobri forem verdadeiros, algo precisa ser feito.

O início da história não está em fatos, mas em piadinhas feitas num jantar em minha casa. Joseph comentou que o partido ceticista (que agora já estava há 15 anos no poder) tinha planos de alterar a obra “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes. Os céticos sabotariam a biblioteca de Alonso Quijano, antes de o velho decidir se tornar o cavaleiro Dom Quixote, e substituiriam os fantasiosos livros sobre aventureiros honrados, donzelas em perigo e feiticeiros malignos por… tratados científicos.

Então, nessa nova versão do romance de Cervantes, as coisas seriam invertidas. Assim, Sancho Pança é quem convenceria Alonso Quijano a partir para aventuras. Na memorável cena dos moinhos de vento, Sancho diria: “Olha lá, Dom Quixote, são gigantes!”, apenas para receber de resposta um muxoxo: “Que nada, Sancho, são apenas moinhos de vento. Se quiser, posso calcular a equação dos movimentos de cada pá. E meu nome não é Quixote, é Alonso Quijano”.

Pobre Sancho, desejoso de aventuras, frustrado como a esposa de um marido impotente. De acordo com o amigo que contou a piada, o governo faria essa substituição com o objetivo de emagrecer o romance de Cervantes em 900 páginas, tornando-o infinitamente mais palatável para aluninhos com deficit de atenção.

Até aí, tudo bem, uma anedota sem graça durante um jantar. Foi o acaso, porém, que me fez entrar em um café e sentar justo na mesa onde pouco antes estivera um agente do governo. O homem esquecera sua pasta digital e eu não resisti a dar uma olhada. Nela, estavam os planos do que chamaram de “alteração literária progressiva”. Para meu choque, havia um subcapítulo intitulado “Dom Quixote”, que poderia muito bem se chamar “Sequestrando Cervantes”. O plano envolvia reescrever o romance (todas as edições eram virtuais) aos poucos, de modo que ninguém notasse e a memória coletiva fosse esquecendo os detalhes.

Na versão 2.0 da obra, não se discutiria mais se Quixote era um louco, um apaixonado, um utópico ou um visionário. O engenhoso fidalgo via gigantes, em vez de moinhos, e soldados no lugar de ovelhas, não por loucura, e sim porque sofria de um problema de visão. Isso mesmo, Quixote era míope. Precisei repetir, de tão difícil de acreditar.

Os argumentos (que seriam inseridos na obra) eram fortes. Pensem na idade dele: já era um ancião para os padrões da época. Além disso, lera demais em vida, fatigando os olhos. Os óculos não eram artefatos banais no início do século 17, e sabemos (até pelas ilustrações) que Quixote não os utilizava. Talvez por isso, ao se aproximar dos supostos gigantes, ele por fim percebia que eram apenas moinhos, já que a miopia afeta somente a visão à distância.

Fechei a pasta e senti um arrepio. Lá fora iniciou uma ventania que parecia trazer o futuro cada vez mais depressa.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 + 8 =

ao topo