O ser autor

“Pensar no contexto de romper com signos já pré-estabelecidos e buscar uma essência da imagem não somente informativa ou contemplativa, mas sim, num âmbito reflexivo, onde aquilo que vemos, nos olha da mesma maneira de modo a perceber gradativamente as entranhas do nosso “eu” que alí se identifica, porque algo nos toca internamente. Esse talvez seja o maior desafio quando o fotógrafo se torna um “autor”.”

“O verdadeiro fotógrafo, deve escolher o caminho com o coração e nele viajar incansavelmente, contemplando como pessoa inteira tudo o que é vivo. Absolutamente íntegro, sem propósito a alcançar, sem submissão a regras e fórmulas, sem necessidade de parecer brilhante ou original. Só assim, autêntico e livre, pode captar o espírito criador em movimento e criar coisas belas”. Pensar em sua própria fotografia como uma projeção do seu próprio “eu”, com o objetivo de ali demonstrar não somente os seus verdadeiros sentimentos, mas algo que naquele instante se tornou único, independente do expectador, é um dos objetivos do “ser fotógrafo”. Buscar a autoria do seu próprio trabalho em um contexto marcado por bombardeios de imagens e consequentes clichês é uma tarefa hercúlea, em um espaço de tempo em que o “curtir” vale mais que o “contemplar”.

FOTO: Numo Rama, da série "Ana Cristina"
FOTO: Numo Rama, da série “Ana Cristina”

Ao adentrar no contexto de romper com signos já pré-estabelecidos, a busca se dá pela essência da imagem não somente informativa ou contemplativa, mas sim, num âmbito reflexivo, onde aquilo que vemos, nos olha da mesma maneira, de modo a perceber gradativamente as entranhas do nosso “eu” que alí se identifica, porque algo nos toca internamente. Esse é o maior desafio quando o fotógrafo se torna um “autor”. Mas sempre estamos como aprendizes em um contexto que ora aprendemos, ora ensinamos, e assim, o compartilhamento acontece. Nossa percepção sempre está aberta, com a busca pela prática de humanizar uma visão que naturalmente encontra a beleza através da revelação de um mundo que mesmo estando perceptível ao olhar, muitas vezes permanece obscuro.

É preciso ver, para reparar, como já dizia Saramago. E nessa relação consigo mesmo, a originalidade e a espontaneidade naturalmente são conquistadas, através da fluência no olhar. Quando começamos a nos confundir com aquilo que fotografamos, nosso diálogo mesmo através do quadro, passa a ser primeiramente com nós mesmos. O que antes era projeção, vira uma realidade, que não está construída por sí só, foi construída com o seu singular olhar. É assim que nos dissolvemos, e nosso processo criativo se forma e se reinventa, na busca não só de imagens, mas de um prazer de alí, se encontrar.

FOTO DE CAPA: Tiago Santana, da série Benditos

Convivo com uma fotógrafa, uma arquiteta e uma gestora de projetos no mesmo corpo físico e mental. Um caleidoscópio seria mais fácil de entender. [ Ver todos os artigos ]

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