Ser um bom homem de negócios não o torna um homem bom

Por Alexandre Matias
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Aspectos questionáveis do fundador da Apple foram esquecidos nos últimos dias

Protesto na Foxconn, que fabrica aparelhos da Apple. FOTO: REUTERS

Muitos ficaram revoltados com a forma como Richard Stallman, pai do movimento software livre, se referiu à morte de Jobs. “Como o prefeito de Chicago Harold Washington disse uma vez sobre o ex-prefeito corrupto Daley, ‘eu não estou feliz que ele está morto, mas estou feliz que tenha ido embora’”, escreveu em seu site, “Ninguém merece morrer – nem Jobs, nem o senhor Bill, nem pessoas culpadas de coisas piores que eles. Mas todos nós merecemos o fim da influência maligna de Jobs na computação das pessoas.”

“Visionário”, “revolucionário”, “gênio”, “imortal”, “Deus”. O show de adjetivos que já havia começado depois que Jobs deixou o cargo de CEO da empresa que fundou, há dois meses, intensificou-se após o site da Apple ter confirmado a morte dele, no início da noite da última quarta. A cobertura – tanto na imprensa tradicional quanto na 2.0, chorada por milhares de fãs do ícone e da empresa pelas redes sociais – assumiu o tom hiperbólico dos anúncios de produtos feitos por Jobs. Quem se dispusesse a ir contra a corrente de benevolências e celebração, como Stallman fez, estaria pedindo para ser apedrejado.

Mas, mesmo sendo radical e desagradável (características típicas de seu próprio personagem), Stallman não falou nenhuma bobagem. Afinal, é bom separar o homem do personagem, uma fusão que o próprio Jobs gostava de alimentar. Pois ele senta-se no extremo oposto de Stallman no espectro da cultura open source. Enquanto o pai da Free Software Foundation advoga por uma internet livre e por uma cultura aberta tanto na parte de hardware quanto de software, Jobs conseguia ser mais radical do que Bill Gates, historicamente o grande antagonista da cultura open source, quando o assunto era a lógica proprietária. Os aparelhos de sua empresa nem funcionavam com peças que fossem fabricadas para outros aparelhos e o condicionamento fechado da App Store, a loja de aplicativos da Apple, foi o que permitiu a ascensão do Google e de seu sistema operacional Android – favorável à mentalidade aberta – no setor de telefonia celular.

Enquanto a natureza aberta da web foi o que permitiu sua popularização, a Apple funcionava como um condado medieval, erguendo muros altos e fortes para controlar seu próprio reino.

E isso é só um aspecto do “mau Jobs” convenientemente esquecido nesses dias de luto.

Pessoalmente, ele era tido como um chefe cruel, intolerante, desumano. Em uma reportagem do jornal inglês Guardian, um ex-funcionário da Apple comparava a convivência com Steve Jobs a trabalhar sob a mira de um lança-chamas. Orgulhava-se de não fazer caridade e estacionava na vaga de deficientes, só porque podia.

Isso sem contar a censura no ambiente digital que criava. Nudez, nem em quadrinhos. Só para ficar num caso mais clássico, quando, em 2010, a empresa censurou uma versão em quadrinhos do Ulysses, de James Joyce – ironicamente o maior romance do século 20 já havia ido a julgamento, em 1933.

E nem é preciso entrar em detalhes sobre a taxa de suicídios na Foxconn, empresa que fabrica os aparelhos da Apple na China, e nas condições sub-humanas em que os produtos de sua empresa eram fabricados.

Isso não tira a genialidade do morto. Mas é bom separar uma coisa da outra. Um bom homem de negócios não é, necessariamente, um homem bom.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 10 de outubro de 2011 21:24

    Prezado Lívio Oliveira, obrigado pelos elogios aos meus comentários aqui no site “SubstantivoPlural”. Também sou admirador, de longas datas, dos seus poemas e textos. Considero que devo dividir esses elogios com o talentoso e competente jornalista Tácito Costa, editor do “SubstantivoPlural”, porque, regra geral, é muito bom e igualmente elogiável o nível dos textos e das argumentações dos colaboradores e dos internautas/leitores deste site. Quanto ao assunto objeto dos meus comentários, houve uma época em que eu era grande devorador de textos de revistas, jornais e livros sobre essa revolução na informática, telecomunicações, etc. Nos anos 90, por volta de 1993 e 1994, escrevi, no “Diário de Natal”, aquela que é possivelmente a primeira matéria local sobre o advento da internet, publicada na imprensa natalense e/ou potiguar. Para realizar essa matéria, contei com algumas dicas do analista de sistemas Salustiano Fagundes, a quem havia convidado pra escrever coluna no DN, à época, após autorização do editor geral, salvo engano Paulo Tarcísio Cavalcanti, e do então diretor Albimar Furtado. Depois Salustiano, então um dos dirigentes da SUCESU/RN – Sociedade dos Usuários de Informática e Telecomunicações do RN realizou as primeiras grandes feiras de informática e telecomunicações de Natal, e eu pude acompanhar esses eventos como repórter e aluno de alguns mini-cursos, palestras, etc… Alguns anos depois, quando computador tornou-se um bem de consumo de larga escala, encontrado com facilidade em qualquer grande loja, essas feiras tornaram-se menores e menos frequentes. Eu já estava interessado, então, em outros assuntos, mas logo em seguida voltei a este, por volta de 2002/2003, quando fui assessor de comunicação social no Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações, antigo sindicato dos telefônicos. Privatizações, neoliberalismo, elitismos, deslumbramentos, ti-ti-ti, esnobismo, fetiches da mercadoria em torno de muitos objetos dessas indústrias – à época o fetiche era com o notebook, hoje é com o iPad, me desistimularam dos antigos interesses e me afastaram dessa euforia consumista. De tal modo, que meu celular é um modelo muito simples , que ganhei da operadora, na troca de modelo de celular que tornara-se obsoleto. Hoje, possuo um notebook, após ter tido outros tipos de computadores. E de 2004 para cá, voltei a estudar na UFRN, onde primeiro cursei uma Especialização em Filosofia, área metafísica, em que pude estudar não apenas clássicos como Aristóteles, Epicuro, Spinoza, mas também a lógica, algumas teorias de matemática moderna e dos novos tipos de lógica, como a lógica paraconsistente, e boas noções de cálculo proposicional, por isso no meu texto, publicado aqui, ao citar a álgebra de Boole e as teorias de Gödel, tenho pelo menos as noções básicas acerca do que estou escrevendo. Depois, cursei a licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas, quando me aprofundei nos estudos de linguística. E daí? Daí que planejo, para os próximos quatro anos, após concluir, no início de 2012, o mestrado em Ciências Sociais, que estou fazendo desde 2010, na UFRN, planejo tentar o vestibular para o curso de Ciências e Tecnologia, na UFRN, não pela vaidade de ostentar conhecimentos, mas pelo prazer de estudar. Lá, no curso de C&T, espero ter oportunidade de realizar estudos transdisciplinares sobre todas essas questões teóricas e práticas. Porque existem duas coisas, que nós poetas gostamos de fazer: ler livros e namorar o mulherio, concorda? (risos!). Um abraço, poeta!

  2. Lívio Oliveira 10 de outubro de 2011 17:09

    Caro Jóis, eu já era um admirador seu de longas datas. Agora, venho renovar essa minha admiração pela forma inteligente com que tem posto aqui suas opiniões. Inteligente e fundamentada. Fundamentada e sensível. Sensível e desassombrada. Sem excessos e nem má-fé, fazendo-nos pensar melhor a partir de um olhar circular e sem radicalismos. Parabéns por nos trazer esse caminho correto do bom debate. Mando o meu abraço amistoso, também.

  3. Rilke Vieira 10 de outubro de 2011 14:00

    pessoas, esse Jobs é um grande tirador de onda, saquem só como ele encerra o tal discurso na universidade de stanford, mistura de sermão com auto-ajuda, bastante replicado pela mídia nos últimos dias: “continuem sedentos. continuem ingênuos”. hahaha… de ingênuo, ele, pelo menos, não tinha nada.

  4. Jóis Alberto 10 de outubro de 2011 12:56

    Bastante polêmica a opinião de um dos criadores do movimento software livre, Richard Stallman, acerca da morte de Steve Jobs. Acho interessante o movimento software livre, e, pelo que conheço, é democrático, sintonizado com uma boa tradição contracultural norte-americana… Por outro lado, sem dúvidas não só Steve Jobs, mas também Steve Wozniak, Bill Gates, Paul Allen são os grandes empreendedores da área de informática contemporânea, criadores do computador pessoal, que está na base da revolução atual nesse setor da ciência e tecnologia. Mas se é pra reverenciar esses grandes criadores que prestaram relevantes serviços à humanidade, dos anos 70 do século 20 até à atualidade, é indispensável também se reportar a alguns dos principais fatos da história da informática: por exemplo, as grandes contribuições de matemáticos, como a criação de logaritmos; o surgimento das primeiras máquinas de calcular, como a conhecida calculadora criada pelo filósofo, físico e matemático Blaise Pascal… E, do século 19 para cá, as experiências de Charles Babbage e Ada Augusta, esta, filha do poeta Lord Byron; a importância da álgebra booleana, criada pelo matemático George Boole, fundamental para a lógica binária dos computadores contemporâneos; Shannon e a Teoria da Informação; Hollerith, e o processamento de dados que possibilitou, posteriormente, o surgimento das primeiras grandes empresas do setor, como a IBM; o aparecimento dos primeiros grandes computadores, durante a Segunda Guerra Mundial, em experiências pioneiras da Marinha e do Exército dos EUA; as teorias de Alan Turing, considerado o ‘Pai da Ciência da Computação’, que se baseou muito nas teorias de um dos maiores matemáticos de todos os tempos, Kurt Gödel; o aprimoramento da lógica computacional com o matemático John Von Newman. Na área de programas, o principal fato foi o surgimento do windows e suas várias versões, além do mencionado movimento pela disseminação de softwares livres, etc; o advento da internet e da www – world wide web, esta criada por Tim Berners-Lee; o aprimoramento atual dos vários tipos de conexão, dos moders pioneiros à banda larga, fibra ótica; wi-fi, 3G… Dentre as novidades que, há muito se anunciam pra essa revolução, destacam-se: convergência tecnológica cada vez mais surpreendente entre informática, telecomunicações, entretenimento, as indústrias culturais – ou as chamadas indústrias criativas; a entrada dos BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China nesse mercado global, nessas indústrias, que tradicionalmente foram criadas e desenvolvidas por países da Europa, EUA e Japão; as relações transdisciplinares com as novidades das pesquisas da cibernética e da robótica; da realidade virtual; da física quântica; da física computacional; da neurociência; da linguística computacional, etc, etc… Então, considero que todas as homenagens a Steve Jobs, pelo menos como criativo e revolucionário empreendedor capitalista são merecidas – evidentemente não ao mau patrão, ao chefe intolerante denunciado no texto acima, ao empresário de visão elitista, num setor em que é difícil se manter elitismos por muito tempo.,, É preciso se enfatizar também que não se pode cair nesse deslumbramento pró norte-americano – embora, é bem verdade, os EUA mereçam tais tributos, pelo menos nessa e outras áreas científicas e tecnológicas – porque toda essa atual revolução tecnológica e científica da informática e das telecomunicações, é fruto de uma longa história que envolve gênios e criadores de várias nacionalidades, a começar por antigos matemáticos da Índia, país que ainda hoje é altamente respeitado em matemática e é um dos grandes da indústria de informática – em especial de softwares, na atualidade.

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