O que será da mente se máquinas pensarem?

Por Marcelo Gleiser
FOLHA DE SÃO PAULO

RESUMO A busca do ser humano por ampliar sua capacidade física e intelectual deu origem a tecnologias transhumanas. Apesar disso, as máquinas não devem ser capazes de destruir a humanidade, já que só conseguirão evoluir junto ao cérebro que conhecemos hoje, sem uma inteligência superior independente.

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Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta. E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas com celular em punho conversando, mandando torpedos, navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você não é mais você.

A junção do humano com a máquina é conhecida como “transhumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o futuro da nossa espécie.

Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim? Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie além do humano?

É bom começar distinguindo tecnologias transhumanas daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos de surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência existente.

A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho. No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam com humanos sem próteses?

Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a espécie humana através da interação -na maior parte ainda externa- com tecnologias que ampliam nossa capacidade.

Sem nossos aparelhos digitais -celulares, tabletes, laptops- já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais com selfies arranjados para impressionar; criações remotas, onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos contemplar. O ritmo do progresso científico está diretamente relacionado a nossa aliança à máquinas digitais.

Somos já transhumanos.

Aonde isso nos levará? Em livro recente, o filósofo sueco Nick Boström, professor na Universidade de Oxford, no Reino Unido, soa o alarme: se criarmos inteligências superiores à nossa, poderemos nos tornar obsoletos.

Em “Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies” [Oxford University Press, 352 págs., R$ 110; e-book R$ 44,45] (Superinteligência: caminhos, perigos, estratégias), Boström faz uma analogia entre nós e gorilas e entre nós e as inteligências artificiais sobre-humanas: do mesmo modo que a sobrevivência dos gorilas depende de nossa benevolência, se máquinas mais inteligentes e poderosas do que nós existirem, nossa sobrevivência dependerá delas. O que garante que elas nos preservarão? É o mito do Frankenstein revisitado, cientistas criando nosso fim. Considerando, claro, a premissa de que seja possível criar tais máquinas superinteligentes.

Nisso, a comunidade científica e filosófica está dividida. De um lado, temos os que acreditam que é apenas questão de tempo: assim como a natureza “criou” ao menos uma espécie inteligente (sim, golfinhos, baleias, cachorros e gatos são inteligentes, mas não desenharam computadores ou sondas espaciais, ou escreveram sinfonias e poesia), não há qualquer empecilho fundamental para que possamos repetir a façanha, criando outras entidades inteligentes. As leis da natureza não proíbem a construção de inteligências artificiais.

Críticos rebatem dizendo que a questão não é assim tão simples. Primeiro, não sabemos exatamente o que é a inteligência. E, se não temos uma definição, fica bem difícil recriá-la artificialmente. Por exemplo, o supercomputador da IBM Deep Blue, que ganhou do campeão mundial de xadrez Garry Kasparov em 1997, não era inteligente. Ao menos não no sentido de ser uma entidade autônoma, capaz de tomar suas próprias decisões. O Deep Blue reunia uma velocidade incrível de processamento de informação com um programa altamente sofisticado de seleção de estratégias, escolhendo seus movimentos com base num processo refinado de otimização. A inteligência era de seus programadores, e não da máquina em si.

Na Europa e nos EUA, duas grandes iniciativas tentam criar uma máquina inteligente baseada na desconstrução do cérebro humano. Em essência, trata-se de mapear o cérebro minuciosamente, detalhando cada neurônio, suas ligações sinápticas com outros neurônios (sua “cognitividade”), o fluxo de substâncias neurotransmissoras de neurônio a neurônio, recriando toda essa informação num gigantesco programa de computador, uma simulação do cérebro humano em uma entidade de silício.

Uma pesquisa fascinante, que leva a uma pergunta essencial: como saber que temos toda a informação requerida para recriar um cérebro humano, o objeto mais complexo do universo conhecido?

MAPA

No famoso conto “Sobre o Rigor na Ciência”, de Jorge Luis Borges, observa-se que um mapa perfeito, contendo todos os detalhes do original, teria que ser do tamanho do que se propõe a mapear, sendo, portanto, inútil. No caso do mapeamento do cérebro, esse tipo de iniciativa é extremamente importante e válida, e nos trará muita informação valiosa sobre seu funcionamento e estrutura. Mas seu objetivo final, a compreensão completa do cérebro humano, me parece um mito.

Afinal, sabemos que nossa aferição do que existe é sempre limitada: o que vemos do mundo, mesmo com nossos instrumentos, jamais é tudo o que poderia ser visto. Portanto qualquer simulação de uma entidade real será necessariamente incompleta. No máximo, podemos tentar captar o essencial, recriando um modelo parcial do que existe -e talvez não seja possível concluir que esse modelo parcial teria funções cognitivas idênticas ao cérebro real; nem mesmo sabemos se podemos entender o cérebro destituído do corpo que comanda.

Ainda que programas de computador cheguem a ser inteligentes, sua inteligência não será como a nossa. Será uma outra coisa, desprovida de um corpo. E o que é um humano sem um corpo? Impossível contemplar. O que é uma inteligência que não sofre ou sente dor? Até que ponto essas emoções podem ser capturadas num programa, numa sequência de instruções? Esse objetivo -a construção de máquinas autônomas inteligentes- parece bem mais distante do que o fato já em curso da nossa hibridização com tecnologias que expandem nossas habilidades cognitivas.

No filme “Ela” [dir. Spike Jonze, EUA, 2013, Sony, 125 min., 14 anos, DVD R$ 39,90, Blu-ray R$ 69,90], um homem se apaixona por uma máquina, um sistema operacional inteligente capaz de aprender com a informação que recebe. A história é trágica, explorando a solidão humana e como a tecnologia do futuro -à medida em que nos definimos pelas nossas interações com os outros- irá redefinir quem somos. Ao menos no filme, os “outros” poderão não ser mais humanos.

Apesar da beleza do filme, é bom não confundi-lo com a realidade. Como argumentei acima, é muito possível que a premissa das máquinas inteligentes, ou mais inteligentes do que nós, seja falsa. Bem mais provável que o futuro da inteligência esteja dentro do cérebro humano, e não fora. Seremos nós, ou nossos híbridos, a nos tornarmos superinteligentes, estendendo nossa capacidade mental através da união do biológico com o cibernético.

O futuro não está nas máquinas, mas na inteligência humana artificialmente ampliada. Não estamos desenhando nosso fim, mas uma nova espécie, capaz de transcender os limites evolucionários que determinam o funcionamento do cérebro e do corpo. Com isso, não devemos temer o futuro da pesquisa em inteligência artificial, mas vê-la como uma oportunidade de emancipação, de crescimento da espécie. Certamente, nossos descendentes serão mais inteligentes e, esperemos, mais sábios.

MARCELO GLEISER, 55, é professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, nos EUA. Seu livro mais recente é “A Ilha do Conhecimento” (Record).

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