O que será, já é

Biblioteca pública Câmara Cascudo

Se 2016 começar amanhã ou em algum dia dos próximos 365, sabemos desde sempre o que será que o ano será: será 2015, mas com eleições. Portanto, tudo que já está ruim tende a piorar. Crise econômica, impeachment e escândalos. Saturados de lama até o âmago da alma lavada e enxaguada nos prantos cívicos, provaremos de mais flores de lama, até aprendermos a esquecer quem somos.

Os confrontos locais vão replicar e potenciar o pastoril ideológico que se arrasta desde 2014, no eterno terceiro turno que o fiasco do governo Dilma e o Petrolão tornam mais eletrizante. Azuis ou vermelhos, em vez de estúpidos federais, seremos estúpidos municipais. É o que dizem os profetas, sem risco de erro, porque, no Brasil, o futuro está sempre no passado. E a obrigação dos profetas, disse o mais doidinho deles, não é acertar: é profetizar.

A presidente Dilma será condenada a ficar no cargo até 2018. Nós seremos condenados a tolerá-la e a aturar o mimimi golpista de PSDB, DEM, SDD e demais criaturas do pântano. Michel Temer publicará novo livro, com um poema épico intitulado “O vice decorativo”, que o levará à presidência da Academia Brasileira de Letras. Veja publicará matéria de capa afirmando que, dessa vez, o bichão Lava Jato pega o Lula. Merval Pereira publicará análises e previsões que os fatos desmoralizarão no minuto seguinte. Eduardo Cunha e Renan Calheiros enfim revelarão, em delação premiada, o que todos já desconfiamos: óleo de peroba é um santo colágeno para a pele de políticos encalacrados.

A eleição de prefeito em Natal terá cinco novidades: Carlos Eduardo, Fernando Mineiro, Rogério Marinho, Hermano Morais e Robério Paulino. A Câmara Municipal concederá dúzias de títulos de cidadania natalense a desconhecidos ilustres e amigos de vereadores inexpressivos. A Assembleia Legislativa promoverá reuniões, rodas de conversa, audiências públicas, debates, mesas redondas, oficinas, sessões itinerantes e seminários sobre a falta de água no interior do estado. A bancada federal potiguar manterá o laurel de a mais apagada da nossa história recente.

Mais um jornal do estado extinguirá sua edição de papel, tornando-se mais um veículo digital desimportante. A Biblioteca Câmara Cascudo e os teatros de Cultura Popular, Alberto Maranhão e Sandoval Wanderley continuarão fechados. A Capitania das Artes e a Fundação José Augusto lançarão editais que não serão pagos. Margareth Menezes, Fagner, Fafá de Belém e Elba Ramalho cantarão no Natal em Natal. Eucanaã Ferraz, Antonio Cícero, Affonso Romano de Sant’anna e Zuenir Ventura participarão de mesas nos festivais literários de Pipa e de Natal.

O estadual será um peladão no campo e uma Champions League nas resenhas do Jabaculê Futebol Clube. Um clube do interior desistirá da competição antes do término. Cascata será eleito o craque do campeonato. O ABC e o América seguirão na Série C do campeonato nacional, com viés D+.
As obras da Copa 2014 em Natal serão adiadas por mais um ano. A educação, a saúde e a segurança pública serão adiadas por mais um ano. O início do governo Robinson Faria será adiado por mais um ano. O Rio Grande do Norte será adiado por mais um ano. O futuro será adiado por mais um ano.

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