Será que as mulheres serão beneficiadas com a revolução no Oriente Médio?

Por Stanilaw Calandreli

Quando a poeira da Revolução do Egito começou a abaixar e o país a esforçar-se em direção a um governo democrático, uma boa parte das mulheres que participaram lado a lado com os homens na Praça de Tahrir no Cairo estranharam o fato de que nenhuma mulher foi nomeada para a Comissão de Reforma da Constituição.

A proeminente autora e ativista egípcia Nawaal el-Saadawi diz que isto irritou as mulheres que marcharam na passeata em igualdade com os homens para depor o antigo presidente Hosni Mubarak – justamente por se sentirem lançadas de volta aos velhos costumes e de se sentirem alienadas na nova ordem. Disse também que as mulheres sentem que seus direitos estão sendo tomados.

“Direitos das mulheres não podem ser doados…” “Temos que tomá-los [deles] pelo poder político das mulheres,” disse ela. “E é por isso que nós estamos restabelecendo a nossa União das Mulheres Egípcias.”

Al-Saadawi diz que as mulheres foram espalhadas, enfraquecidas e divididas sob o antigo regime e que esforços estão em curso para uni-las.

“Por isso estamos tentando trazer as mulheres juntas para angariar-mos poder político, tal que possamos lutar por nossos direitos de forma coletiva,” explicou al-Saadawi.

Temores de exclusão também ecoaram na vizinha Tunísia, entre as mulheres que participaram da revolução para derrubar o regime de Ben Ali. Isobel Coleman, membro da Política Externa dos EUA e diretora do programa ‘Mulheres e Política Externa’ no Conselho de Relações Externas, disse que as mulheres tunisianas se preocupam com o retorno ao poder de alguns dos elementos mais conservadores, que poderiam tentar revogar as leis familiares mais progressivas da Tunísia.

Coleman observa que o Iraque viu uma situação semelhante há alguns anos atrás, quando o novo governo do país tentou anular a lei familiar que vogava há bom tempo, desde o regime de Baathist e substituí-lo por lei religiosa. Muitas mulheres iraquianas favoreceram a aplicação da lei Islâmica, diz Coleman, enquanto outras temiam que isto significasse uma regressão dos seus direitos.

Mas ainda não está claro como as mulheres se beneficiarão da mudança revolucionária no Médio Oriente. Coleman diz que a primeira conseqüência foi a “queda dos governos de orientação mais seculares, que usaram seus poderes autoritários para passarem, muitas vezes contra a vontade de vozes poderosas do interior do país, leis de direitos mais progressistas para as mulheres”.

Ela diz que os governos terão que passar por uma luta corpo a corpo com o possível ressurgimento dos islamitas. “E o Direito da Mulher será, claramente, o teste decisivo para sabermos se eles estão encontrando compatibilidade entre o Islã e a democracia ou não,” observou Coleman.

Crucial para encontrar essa compatibilidade, é ter uma definição clara dos papéis das mulheres na sociedade. O problema, diz Shadi Hamid, um membro do Instituto Brookings e Diretora de Pesquisa no Centro Brookings Doha, é que não há consenso claro em torno do papel que as mulheres devem desempenhar, particularmente na sociedade Árabe. Isso é parcialmente devido à percepção de que os direitos das mulheres são quase que exclusivamente um conceito Ocidental.

“E é por isso que temos o estranho fenômeno em alguns países árabes, as mulheres trabalhando contra seus próprios supostos ‘direitos'”, explicou Hamid. “Assim aconteceu, por exemplo, em alguns dos países do Golfo, onde as mulheres realmente advogaram contra seu direito de votar ou postaram-se contra uma reforma, supostamente, pró-ocidental.”

Cheryl Benard, uma Analista Sênior da RAND Corporation (Pesquisa e Análise Política), diz haverem mulheres que aceitaram fazer uma barganha com a sociedade existente, com duração de uma geração, onde elas concordam permanecerem em uma posição inferior, e acreditam obterem algo em troca.

“Elas ganharam segurança. Tem o abrigo de seus parentes cuidando delas,” disse Benard. “Assim aquelas mulheres, eu acho, estão, em parte, com medo da mudança, sentindo insegurança na queda da tradicional e conservadora proteção que recebem e terem, no futuro, de cuidarem de si próprias.

Benard diz que este medo é menos efetivo entre as populações urbanas jovens e educadas, deixando uma lacuna entre as populações rurais e urbanas, segundo dados reportados sobre a participação política, trabalho e educação no Fórum de Desenvolvimento Mundial em 2010.

O relatório também revela alguns extremos interessantes. As mulheres nos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, superam os homens na escolaridade por dois pontos, mas, são superadas pelos homens no Iêmen por 36 pontos percentuais.

Mas Benard adverte que as estatísticas não contam a história toda. Ela diz que a visão geral e a longo prazo é promissora. Por exemplo, países como Jordânia e Arábia Saudita não publicam mais as graduações nas universidades, onde as mulheres estão até agora à frente dos homens, não querem assim, constranger o gênero masculino.

“Sim existem países onde as mulheres ficaram para trás, sendo o número de analfabetos maior em relação aos homens. Mas, geralmente isto não é mais verdade, se você olhar em grupos específicos das mulheres jovens,” disse Benard. “E se você olhar regionalmente – zonas urbanas vs. zonas rurais – também não é bem verdade. Houve muitas mudanças e as mulheres realmente pularam à frente dos homens no campo da educação em algumas áreas. O mesmo é verdadeiro economicamente.”

Mas o progresso na educação não foi acompanhado na política. Parlamentares femininas continuam ausentes em países como a Arábia Saudita e Qatar e sua participação nos Congressos dos outros países é condicionado a um sistema baseado em quotas.

“Há alguns modelos diferentes aqui,” diz Hamid da Brookings. “Um modelo… que você vê no Marrocos e Jordânia é onde o regime, ou neste caso as monarquias, ignoram as opiniões públicas e efetivamente impõe alterações na esfera de participação das mulheres.”

Hamid diz que a opinião da maioria não é favorável a um papel muito visível para as mulheres. “E é por isso que quando não há cotas no sistema político, as mulheres têm imensas dificuldades, ganhando assim um número ínfimo de assentos nas eleições parlamentares.”

Os esforços específicos, diz Hamid, não tem o apoio da maioria da população. Muitas pessoas não se sentem confortáveis votando em mulheres para cargos importantes, e nem todas as mulheres são a favor de aumentar o poderio feminino. Ela diz que grande esforço a favor deste poderio vem do lado secular da elite, que é uma minoria na sociedade árabe.

“A população marchará ao lado disto, mas na verdade, não é baseado em uma mudança cultural,” ela disse. “Não é baseado em uma mudança de atitudes. E sem mudança nas atitudes a nível básico, a mudança não será profunda ou sustentável… A questão é como você inicia um processo radical em favor do fortalecimento do poder das mulheres?”

Pelo fato de que a democracia começa a surgir no Oriente Médio, Hamid diz que mulheres e grupos liberais, defendendo seus direitos terão maior espaço político e espaço para fazerem ouvir suas vozes.

“Temos que questionar a premissa, que a equalização dos direitos, no sentido Ocidental, é algo que todas as sociedades gostariam de defender,” advertiu. “E parece que neste caso, as sociedades árabes não estão dispostas a irem diretamente até onde o Ocidente está… Acho que todo povo apóia o crescimento do poderio das mulheres. Mas penso que isto significa coisas diferentes para povos diferentes”.

Enquanto Benard da RAND Corporation concorda que a região tem de encontrar sua própria fórmula para o fortalecimento do poderio das mulheres, ela diz que as mulheres e suas famílias, que participaram das revoluções, encarnem a mudança das mulheres do Oriente Médio que tenham dissipados alguns dos equívocos do Ocidente.

“Este é um retrato diferente do papel das mulheres no Oriente Médio, de onde se pensavam que, as famílias todas fossem ultraconservadoras, e não querem que as mulheres estejam fora, mesmo nas proximidades, e não pensam que o espaço público é algo apropriado para mulheres,” Benard disse. “Isto não é o que temos visto. Vimos sim, mulheres… on-line, muitas vezes assumindo e organizando um papel de liderança e clamando para que as coisas aconteçam.

Então, como as mulheres do Oriente Médio irão moldar seu próprio futuro na nova ordem?

As populações da região são capazes de determinar seu próprio destino, diz Benard, e que são mais capazes do que acreditamos que sejam. “Às vezes,” diz ela “a melhor coisa que você pode fazer para alguém é sair do seu caminho.”

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