Será que ouvi direito?

Por Cláudio Moreno
ZERO HORA – VIA CONTEÚDO LIVRE

1) Nascidas na década de 1930, no Canadá, as irmãs Dionne foram as primeiras quíntuplas a ganhar notoriedade na era pré-televisão. Por “motivos numéricos e biológicos”, explica nosso Jorge Luis Borges, a imagem das cinco graciosas figurinhas, levada nas asas ligeiras da publicidade e do cinema, conquistou o mundo inteiro com sua simpatia.

A extraordinária semelhança física entre elas, reforçada pelo fato de sempre usarem roupas e penteados iguais, tornava quase impossível identificá-las – exceto para um tal doutor Blatz, que dedicou a elas um vasto volume ilustrado por fotografias encantadoras, onde oferece a seus leitores a solução óbvia do problema: “Yvonne é facilmente reconhecida por ser a maior, Marie por ser a menor, Annette porque todos a confundem com Yvonne, e Cécile porque é praticamente idêntica a Émilie”.

2) No final do séc. 18 já se desenhava a estreita relação entre o saber e o poder. Não foi por acaso que a expedição militar ao Egito, comandada por Bonaparte, incluía uma verdadeira plêiade de cientistas, cujas observações e experimentos certamente foram muito mais gloriosas e duráveis que as batalhas vencidas pelos legionários.

Conta-se que, sempre que os mamelucos atacavam, as forças francesas formavam um quadrado de ferro e fogo para proteger os membros mais preciosos da expedição, a toques de corneta e gritos de “Jumentos e sábios, no meio!”.

3) Baudelaire, em uma de suas máximas sobre o amor, escreve este desabafo – e não parece estar brincando: “E não é que existem por aí os que se envergonham por ter um dia amado uma mulher burra? Pois não passam de pedantes vaidosos, nascidos para pastar os cardos mais impuros da criação.

A burrice é muitas vezes o ornamento natural da beleza; é ela que dá aos olhos aquela limpidez quase morna das lagoas escuras, aquela calma espessa dos mares tropicais. A burrice sempre contribuiu para a conservação da beleza; ela retarda as rugas e é o cosmético divino que poupa nossas deusas das cicatrizes que o pensamento nos inflige, a nós, que nos julgamos sabichões”.

4) O Barão Grimm, que tinha a má fama de maltratar seus criados e arremessar-lhes – com força – punhados de moedas na cabeça, sentenciava, gravemente, que o homem comum “não foi feito para a verdade, nem para a liberdade, embora sempre traga na boca estas duas palavras. Esses dois bens pertencem à elite do gênero humano, sob a condição expressa de aproveitá-los sem fazer muito alarde, nem se gabar demais. Os outros nasceram para a servidão e para o erro; é o seu destino”.

5) E houve aquela dama, evocada por Paul Valéry, que exclamou, diante de um quadro que representava Jesus Cristo: “Mas como está parecido!”.

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