Sérgio

Por Fernanda Torres
FSP

2011 levou Sérgio Britto e Ítalo Rossi; os dois, minha mãe e meu pai foram parceiros inseparáveis

Minha mãe me deu a notícia: “O Sérgio, Nanda. Faleceu. Hoje”.

Ficamos mudas ao telefone.

2011 levou Sérgio Britto e Ítalo Rossi. Os dois, junto com ela e meu pai, foram parceiros inseparáveis durante os 20 primeiros anos mortais de profissão e jamais se perderam de vista.

John Gielgud viveu quase cem anos e viu toda a sua geração ir embora. Na compilação de cartas do ator britânico, o vazio provocado pela morte de companheiros mostra a melancolia de se ter a sorte de viver muito.

Sérgio dizia que se descobriu ator após uma real tentativa de suicídio, fingindo para os parentes a dor que deveras sentia.

Do quarteto, Ítalo e minha mãe possuíam o talento nato para o palco; meu pai se dividiu entre a ribalta e a coxia, foi ator, diretor e produtor, e Sérgio se revelou o mosqueteiro mais inquieto do grupo.

Principal idealizador do Grande Teatro Tupi, convenceu o bando a se engajar na teledramaturgia.

Fizeram 450 especiais de TV: tragédias gregas e dramas burgueses, O’Neill e Martins Penna, Sheridan e Noel Coward.

“Se surgia um nome quente, Sérgio logo se dispunha a trabalhar com ele”, diz Fernanda.

Foi dirigido por Gianni Ratto, no Teatro dos Sete; pelo argentino Lavelli, em “A Gaivota”; por Ademar Guerra, em “Missa Leiga”; importou Gerald Thomas de Nova York e participou da inacreditável turnê de “Autos Sacramentais”, de Pedro Calderón de la Barca, comandada por Vitor Garcia.

A experiência diz muito a respeito do espírito desbravador de Britto. Garcia concebeu o olho de Deus: um gigantesco diafragma de câmera fotográfica que se movia graças a pás gigantescas que abriam e fechavam o orifício.

Os atores, correndo risco de perder um pé, representariam saltando de pá em pá, obedecendo o ritmo de funcionamento da engrenagem. Inclinada no início, a criação terminaria aberta e na vertical. Através dela, se veria o homem avançar em sua busca por Deus.

Quanta audácia já teve o teatro!

A estreia aconteceria em um festival em Persepólis, no Irã, junto às ruínas dos palácios de Xerxes, Dario e Artaxerxes.

As toneladas de cenário se extraviaram em Roma. Quando finalmente pousaram na Mesopotâmia, o olho de Deus travou. Garcia, em protesto, decidiu que os atores fariam o espetáculo nus sobre um palco pelado. Fiasco total.

Ao ver o elenco adentrar o tablado como veio ao mundo, duas senhorinhas teriam comentado em tom audível: “Le sauvage brésilien! Le sauvage brésilien!”

Sérgio era um deles.

Eu fui a Cordélia de seu “Rei Lear”. Era uma montagem confusa, apertada em um teatro de shopping.

Eu ria sem parar em cena; ria morta, ria em pé. Sérgio foi de uma paciência infinita. Nos gostávamos por osmose, antes mesmo de eu vir ao mundo.

Quando os primeiros aparelhos de vídeo cassete chegaram ao Brasil, Britto organizou um videoclube com raridades do teatro, da música e do cinema. Muita gente se educou ali. Mauro Rasi escreveu “O Baile de Máscaras” inspirado neste acervo e nos sócios do Teatro dos Quatro: Sérgio Britto, Mimina Roveda e Paulo Mamede.

Alérgicos a carnaval, o trio se fecha em um apartamento para assistir às quinhentas horas de “Berlin Alexanderplatz”, de Fassbinder, durante os três dias de folia. É uma obra preciosa de Rasi.

Proponho uma leitura pública em nome dos ausentes.

Sérgio chamou por minha mãe dois dias antes de sua partida. No hospital, ela reconheceu os sinais do fim, tão semelhantes aos do Fernando, e se despediu do amigo.

Não pude, ou não consegui, ir ao velório e nem ao enterro. E só chorei quando entrou o e-mail do Domingos de Oliveira confessando que também não tinha ido “por razões que espero poder explicar depois”. Domingos é outro homem de teatro a quem amo como família.

Explicar a importância de um ator é um ato inútil. Destaca-se os êxitos, minimiza-se os fracassos, mas o resultado é sempre datado, enfadonho e impessoal.

Sérgio, Ítalo e meu pai são a juventude da minha mãe, a minha infância e a história do teatro brasileiro nos últimos cinquenta anos. Só Shakespeare dá conta de uma imensidão dessas.

O resto é silêncio.

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