Sermão ao cadáver de Amy

Por João Pereira Coutinho
FSP

Morreu Amy Winehouse e os moralistas de serviço já começaram a aparecer. Como abutres que são.

Não há artigo, reportagem ou mero obituário que não fale de Winehouse com condescendência e piedade. Alguns, com tom professoral, falam dos riscos do álcool e da droga e dão o salto lógico, ou ilógico, para certas políticas públicas.

Amy Winehouse é, consoante o gosto, um argumento a favor da criminalização das drogas; ou, então, um argumento a favor de uma legalização controlada, com o drogado a ser visto como doente e encaminhado para a clínica respetiva.

O sermão é hipócrita e, além disso, abusivo.

Começa por ser hipócrita porque este tom de lamentação e responsabilidade não existia quando Amy Winehouse estava viva e, digamos, ativa.

Pelo contrário: quanto mais decadente, melhor; quanto mais drogada, melhor; quanto mais alcoolizada, melhor. Não havia jornal ou televisão que, confrontado com as imagens conhecidas de Winehouse em versão zoombie, não derramasse admiração pela “rebeldia” de Amy, disposta a viver até o limite.

Amy não era, como se lê agora, uma pobre alma afogada em drogas e bebida. Era alguém que criava as suas próprias regras, mostrando o dedo, ou coisa pior, para as decadentes instituições burguesas que a tentavam “civilizar”.

E quando o pai da cantora veio a público implorar para que parassem de comprar os seus discos ― raciocínio do homem: era o excesso de dinheiro que alimentava o excesso de vícios ― toda a gente riu e o circo seguiu em frente. Os moralistas de hoje são os mesmos que riram do moralista de ontem.

Mas o tom é abusivo porque questiono, sinceramente, se deve a sociedade impor limites à autodestruição de um ser humano. A pergunta é velha e John Stuart Mill, um dos grandes filósofos liberais do século XIX, respondeu a ela de forma inultrapassável: se não há dano para terceiros, o indivíduo deve ser soberano nas suas ações e na consequência das suas ações.

Bem dito. Mas não é preciso perder tempo com filosofias. Melhor ler as letras das canções de Amy Winehouse, onde está todo um programa: uma autodestruição consciente, que não tolera paternalismos de qualquer espécie.

O tema “Rehab”, aliás, pode ser musicalmente nulo (opinião pessoal) mas é de uma honestidade libertária que chega a ser tocante: reabilitação para o vício? Não, não e não, diz ela. Três vezes não.

Respeito a atitude. E, relembrando um velho livro de Theodore Dalrymple sobre a natureza da adição (“Junk Medicine: Doctors, Lies and the Addiction Bureaucracy”), começa a ser hora de olhar para o consumidor de drogas como um agente autônomo, que optou autonomamente pelo seu vício particular ― e, em muitos casos, pela sua destruição particular.

As drogas não se “apanham”, como se apanha uma gripe; não se “pegam”, como se pega um doença venérea; e não são o resultado de uma mutação maligna das células, como uma doença oncológica. As drogas não “acontecem”; escolhem-se.

O drogado pode ficar doente; mas ele não é um doente ― é um agente moral.

Mais: como explica Dalrymple, que durante décadas foi psiquiatra do sistema prisional britânico, o uso de drogas implica um voluntarismo e uma disciplina que são a própria definição de autonomia pessoal. E, muitas vezes, o uso de drogas é o pretexto para que vidas sem rumo possam encontrar um. Por mais autodestrutivo que ele seja.

Moralizar o cadáver de Amy Winehouse? Não contem comigo, abutres.

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 29 de agosto de 2011 9:15

    J. Mombaça, acabei de assistir o vídeo é muito bom e com certeza purifica ainda mais o ar de minha caverna.
    .
    Um abraço!

  2. Anchieta Rolim 28 de agosto de 2011 16:47

    Massa J. Mombaça, você tem Elis? Essa até que eu conheço, agora Beatles eu nunca ouvi falar mas já que você citou eu vou procurar no google, desculpe o nacionalismo ignorante e antiquado grande intelectual, mas minha opinião continua a mesma. Tenho coisas mais importantes pra discutir e comentar.

  3. Marcos Silva 27 de agosto de 2011 13:04

    Entendo sua crítica como mais dirigida a vícios da mídia. Falei antes que considero Amy Winehouse talentosa e irregular. Não é Sarah Vaughan nem Janis Joplin, claro. Não é Ângela Maria nem Cássia Eller. Mas a maioria das cantoras brasileiras e estrangeiras não chega a tanto. As medianas (e as excelentes também) merecem atenção em termos de obra, não de escândalos pessoais – que me provocam tédio.
    A mídia explora mesmo cadáveres, quanto mais drama melhor para ela. Eu já era adulto quando Elis Regina morreu, deram mais importância à morta que à recém-viva. O mesmo pude observar em relação a Raul Seixas, Cazuza…

  4. Anchieta Rolim 27 de agosto de 2011 12:19

    Nina li seu texto sim, caso contrário não poderia comentar. E li como leio seus poemas que por sinal são muito bons, questiono o posicionamento da mídia, isso fica claro no meu comentário. Quanto a Amy e Calypso quero deixar claro que critico como ouvinte todo tipo de música que na minha humilde opinião não me dizem nada e não fiz uma simples comparação de estilo ou gosto musical; cada um ouve o que quer e isso é obvio…( não posso julgar mas posso criticar). Já ouvi Amy e Calypso, caso contrário também não poderia fazer nenhum comentário e sinceramennte não me dizem nada. Continuo achando que temos coisa muito melhor pra escutar e discutir.

    … te segura Amy pra fazer a cabeça tem hora…

    Um forte abraço!

  5. Jota Mombaça 27 de agosto de 2011 12:05

    … e a morte de Amy tem um componente sociológico interessante: a imprensa urubu e a diluição cada vez mais visceral dos limites entre público e privado. O comentário de Anchieta Rolim me pareceu tão rancoroso e por isso mesmo ignorante não só da obra de Amy como também dos desdobramentos de sua morte, além de estar repleto de um nacionalismo antiquado. Eu estou ouvindo Elis agora, e ela está cantando (como ninguém) uma música dos Beatles, essa bandinha que fez sucesso.

  6. Nina Rizzi 27 de agosto de 2011 11:06

    Anchieta,

    vc leu o texto? porque o mote nem é ela ou sua música, mas justamente a relação que se estabelece com as drogas, nesse caso, que qualquer pessoa estabelece…

    No mais, comparar Amy com Calypso… arra égua. Vc já a ouviu?

    No mais, mais… sou conhecida como uma jovenzinha com gosto de velhos: vc cita muitos dos meus papas e papisas musicais. A minha caixinha tá vibrando, agora, com Bezerra da Silva…

  7. Anchieta Rolim 26 de agosto de 2011 21:28

    Eu não consigo entender porque o brasileiro valoriza tanto essa tal de Amy sei lá o que, se ela tem a voz bonita, que tenha e daí? Quantas artistas e mesmo anônimas tem a voz melhor que a dela e nem por isso aparece. O nosso problema é ficar dando trela a todo artistinha que faz sucesso, ou seja que a midia nos empurra de goela abaixo. Poxa parece brincadeira, é Amy de lá Calypso de cá e etc…vejam bem: morreu Ray Charles uma nota num rodapé de jornal, morre Tom Jobim dois dias depois ninguém noticia mais nada, agora qdo morre um porra louca qualquer fica-se martelando um ano inteiro. Parece piada, nós temos drogados aqui em todos os cantos e ninguém faz nada e agora vamos nos preocupar com as drogas do primeiro mundo tambem é? Vamos ouvir Elza Soares e Elis, Monica Salmaso e Elizete Cardoso com Zimbo Trio, ou seja, temos coisa muito melhor para ouvir e discutir.

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