Sertão eu, sertão meu, sertão seu

Por Carlos Gurgel

Tenho pelo sertão uma paixão incontida. O seu sol como luz que não se esgota, ilumina trincheiras e descobertas. Triunfos e comboio. Nessa esteira onde nascem ícones, mitos e personagens, a trilha que se escolhe é feita de suor e tesão. Tensão e romances. Sim, a terra seca destampa a coragem que guardamos quando precisamos demonstrar o amor que sentimos pela terra onde nascemos. Assim, ao redor de fogueiras e folias, foles e cachaças, se faz o imaginário de uma região única, rodeada de tulipas e túnicas.

A pele de quem nasce no sertão é protegida por camadas de heroísmos. Com a seca, parece que ficamos mais parecidos com os filhos de uma hospitalidade atávica, semelhante ao prazer que abre porteiras, constrói ilhas e que germina o aparecimento de uma lua que provoca pedaços de pecados. A poesia nessa terra é como se fosse uma flor. Uma flora também. Uma rosa que nasce por entre rios secos, pontos de líquida paz e muito burburinho. Isso tudo faz parte do que se poderia dizer da grandeza que existe no livro de Oswaldo Lamartine, “Uns Fesceninos”. O livro, assim como seu autor, requer estudo e debruçamento. Debulhar o seu conteúdo é como um mistério que não se esgota. O chulo vem da imaginação, como também a elegância de um escárnio. O que se estabelece como verdade no “Uns Fesceninos”, é justo o que se presta ao burlesco, ao escárnio. Oswaldo, como garimpador do universo sertanejo, nesse seu livro, cultua o fascínio como verdade, como identidade de um povo que pisa ouro e ferro. Pepitas tão ricas, como rios de risos. Um platô de sacanagens, versos epidérmicos, loas aos seios. Sim, o deboche do verso livre e rompedor, provocador, viés do limite entre moral e pilhéria, princípio e sismo. Sem arrodeios e labirintos, o universo fescenino no olhar de Oswaldo, proclama aos quatro cantos os encantos de uma poesia viva e verdadeira. Percebe-se que desde o primeiro instante, o livro é uma fábula, uma tabuleta de preciosidades, que alimenta o riso, o escárnio e suas inúmeras faces. E a comprovação que se tem é como uma descoberta que arregaça o pudico, como o mínimo, uma obrigação que se deve ter para quem procura a leitura que instiga instintos e maledicências.

Prova-se aqui, a importância que o verso burlesco exerce sobre a maturidade de quem lida com a vida como uma expressão renovadora e enriquecedora da alma humana. Oswaldo com a sua lupa, declara a sua simpatia pelo charme do chiste, pelo humor sem pudor, como mercadoria do pecado, ávida por uma azáfama epidérmica, nesse universo que multiplica e espalha inúmeras versões e inúmeros versos. Essa poesia que se presta ao que se pensa que não presta, como o promíscuo do verbo que se lambuza com romances e transas verbais. Folhetins de bocas de bares e das marés que inundam leitos e reinos. Como sobejo de um beijo requentado na ponta de uma vela acesa e rodeada de cúmplices. Destampando riquezas e paraísos, descobertas e jardins; a poesia que Oswaldo escolheu como norte do seu suor, glorifica quem da vida se fez mote, pote de uma promessa que declara a existência de um sertão sacro e profano. A riqueza das suas falas, nesse sertão que se espalha por entre rochas, bois, caçuás e bigornas, resguarda no seu interior a fornalha de fodas e fadas. Além de uma lista interminável de histórias que curam dores e cotovelos. Sim, o sexo, assim como o chiste, como peças de um vendaval que descobre com o seu ímpeto, ensaios e partituras, é luz que alimenta incrédulos e tão pálidos. Oswaldo, nesse seu trabalho de ossos e gozos, garimpa brilhos e relíquias. Liberta e revela segredos de uma obscenidade que beira o cais dos nossos mais recônditos desejos. Nesse universo boêmio e noturno, vadio e pornográfico, parece que quem é pobre de grana é rico de espírito. Como a certeza que se tem, que a desgraça de uma vida sofrida, é a exata dimensão de um vulcão que se abre irradiando bocejos obscenos e a licenciosidade de copos e corpos suados, extenuados por uma estação onde se reconhece a mão que suporta vinhos e vilões. Risos e lágrimas. Sim, pilhéria e riso, deboche e erotismo andam juntos, justos como uma manivela afiada e venal. Como uma pólvora que contagia a enorme fogueira das nossas pelejas corporais . Essa correspondência tão transparente do bocagiano pileque de uma noite que não tem fim, recorta as rédeas onde nascem cópulas e fórmulas que transpõem monastérios, clausuras e dogmas. Desabrocha nos seus autores a irreverência, abundância de tipos, sarcasmos e escarros. E a espontaneidade da maledicência como profusão de caras e cartas marcadas. Essa radiografia que agora Oswaldo nos mostra, desse enorme mar que revela o escroto, o esgoto onde guardamos nossas imagens, nossas sacanagens, é a referência de um roteiro onde se consagra a genialidade de um amor proibido recheado de pactos e cactos. Risos e porres.

Geralmente o que se verifica na criação do verso fescenino, é o interimável uso que se faz do próprio cotidiano desses poetas, como matéria prima das suas mais imprevisíveis rimas. Irmã de escândalos e pântanos. Chutes no chulo do achincalhe que não prospera e na obscena cena que todos observam como reino do respeito e admiração. Admiração por se mirarem em penumbras e sombras de si mesmos. Eles relacionam tudo a uma fermentação epidérmica. Sempre, ou quase sempre, qualquer fato, qualquer boato, é fermento e bússola, algibeira que se utiliza do vocabulário que eleva e derruba eus e egos. Ferramenta que produz, que imagina, a sua própria criação. Essas manufaturas são feitas na hora. Como encomendas de minutos. Esse senso, rapidez de coletar rimas e misturas finas, transborda-se em relíquias. Verdadeiros achados que sobrevivem como a mais pura e genuína interpretação de uma peleja psicodélica e surreal. Também os achados, transitam entre o que é substância, alimento da alma, e a realidade, e praticamente se credenciam como principais tesouros de quem acredita na poesia que conspira curvas e curas. Oswaldo, nesse seu trabalho, como guardião de sermões sertanejos e dionisíacos, certamente lança créditos sobre a importância de se perceber que o universo sertanejo, como uma planície, acolhe anjos e demônios. Secas e abundâncias. Trovões e a cantilena de pássaros e serpentes. Assim, certamente, todos os poetas que redimensionam as suas vidas, utilizam versos e imagens como profecias, faróis das suas enormes aventuras. Esse universo sertanejo de Oswaldo, está rodeado de atalhos, retalhos, borralhos. Rico, exuberante e de uma luminosidade ímpar. Pois, se caminhar por entre quadras, versos, poemas desse imenso mundo, é como dar de cara com bandeiras e brasões, estandartes e dragões. Uma coletânea que agasalha espantos e o tesouro de lendas, encantos e penitências. Riachos e aguapés. Sabores e amores. Extremamente surreal. Como lugar onde se ressuscitam reinações e a encarnação de uma sombra que protege e afaga a solidão de um candeeiro. Assistir ao parto de um poema é tão indescritível como a floração de um parto humano. Manifestam-se dores e êxtases. Forno e criação, suor e sexo. Essa multiplicação do que há, do nascimento, do engatinhamento, de asas que voam como procurando chão e casa, personaliza a própria revelação da existência. Pouso e alimento. Como um caminho que se faz por cima do capim da roça. E que depois de seguidas vezes, as marcas das palmas dos pés, fervilham no chão, como o chão aceitando o peso dos nossos corpos. E no sertão, de nuvem tão densa, de lua tão bela, de feira tão livre, isso tudo passa pela mente como uma hospedaria de cores. Como desfile que estampa a dor de quem perdeu um grande amor. Como brasa que acalma o sofrimento de quem se largou no meio da escuridão da noite que cega e abana o sussurro dos grilos.

Assim é o sertão, como uma cancela que vai e vem, que escala montanhas e olhares, amores e colchões. Desafiando esses caminhos escorregadios e misteriosos. Como fantasias e riquezas de pensamentos. Romarias fugazes e a presença das lembranças como borrifando vontades e calafrios. Esse sertão, que é o sertão de Oswaldo, sobrevive , porque a fé do seu povo transporta o tempo da terra para a porta do céu. Como a boca do fescenino verso que declara o seu amor pela paixão desassossegada e anacrônica. Assim, rimar é tão difícil quanto amar. E amar, como procura, é como gostar de um poema. E se casar com alguém é como viver com um poema. Como um poema onde possamos amar, viajar, sonhar e se multiplicar. Na companhia das palavras de um matrimônio tão intenso e tão íntimo. Como o beijo que se dilacera no dorso de uma montanha de ancas e seios sagrados. Assim profano e sagrado se entreolham. Como instrumentos de um pacto de fenômenos e espantos. Como uma ponte que liga o tempo da ilusão e o tempo dos nossos olhos. Farinha e cuia. Matulão e traição. Imaginação do olhar daquele vislumbre de curvas e calmas. Idílio de índole e dom. Chocalho que atanaza a cor do couro de quem luta e conquista. Vaqueiro e promiscuidade. Beijus. Sobejo da sobra de pinga como fécula da fé sertaneja. Ronda que roda preces e fuzarcas. Como uma esquina de pé de rua, que se dobra e onde se encontram ciúme e perdão, súplica e pecado. Sim, precisamos do sertão. Com a sua vastidão de fantasmas. Com os seus amanheceres. Costumes e descobertas. Precisamos que o sertão nos ensine o que Oswaldo nos deixou. Precisamos que Oswaldo nos confesse o que o sertão lhe amou. Como árvore frondosa e soberana. Como semente que nasce e reparte colheitas e procissões. Como a fruta que floresce ao redor da lua das nossas lembranças tão nuas e arruaceiras. De tudo que podemos lembrar. De tudo que podemos ousar. De tudo que podemos amar. Como uma igreja que guarda socorros e nascimentos. Terços e ninhos de sofrimento. Como uma fagulha de uma fogueira que ilumina cegos e pecadores. Bêbados e couraças. Somos sumos do sertão. Salmos do sertão. Palmos do sertão. Tão vasto. Tão parto. Tão cúmplice de leitos secos e peitos sem leite. Andorinha que sobrevoa léguas e grotões. Mentiras e os nossos pulmões. Humanidade que habita sonhos e a despedida da melancolia do dia e da noite. Sejamos fortes, iguais as grutas que circundam bois e boiadas. Como o verde da árvore que recebe chuva e goza. Como nessa interioridade toda, parede e meia de molduras das nossas vidas, bandeiras e âncoras, holofotes e estações.

Como protagonistas de triunfos e quintais. Sombras, frestas, estopins e celebrações. Cheiro de atalho repleto de sorrisos e raízes. Filme que passa inteirinho, como uma epopéia épica e gloriosa. Vestimenta que une lábios e corpos. Espíritos e vazantes de uma raça cheia da graça de um espírito santo bem-vindo. Sorriso de uma criança. Futuro de um coração que pulsa, aterrissando jardins e luares. Cantigas e pilhérias. História de portas de bares. E o corpo de uma mulher nua. Mãos e bocas. Espinha e pescoço. Assim, o sertão de Oswaldo e o sertão de todos nós se manifestam. Nesses fesceninos uns. Nús, maltrapilhos. Humanos e pecadores. Pescadores de uma noite de sonhos e iguarias. Como as bifurcações de uma estrada. Onde enchemos de esperança o porto de onde se chega. Partos. Assim, esse tapete que levita chuvas e canhões, timbres e bordeis, enobrece povoados, alpercatas, guinés e canções. Desnudos fornos saciam seios e aquarelas. Esse tapete é o sertão de Oswaldo. Com cruz e cajado. Licenciosidades e o poder que a língua tem. Néctar que transforma e transborda milharais. Sertão eu. Sertão meu. Sertão seu.

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