Sertão, Sertões, por Moacy Cirne


Pesquei este peixe saboroso do mar sertanejo de Moacy Cirne e seu Balaio Porreta. Me parece texto dedicado ao seu pai, um ano após o falecimento. No site há também o texto lido no dia da morte. Apenas achei esse mais sensível, tocante. São frases construídas sob tijolos sentimentais e grudados pelo cimento seridoense: forte e poético.

SERTÃO, SERTÕES
Para Luiz da Costa Cirne,
in memoriam

O sertão não é para qualquer vivente. Com pedra e fogo, natureza febril que se faz aurora grávida de mistérios e silêncios, o sertão, faca e bala, existe dentro do sertanejo através de alfenins, alpendres e lonjuras. O sertão somos nós: seus bichos, suas oiticicas, seus rios, seus açudes, suas mulheres, seus homens. E suas promessas de relâmpagos e trovoadas. E suas promessas de horizontes e arco-íris. No inverno, o cheiro da terra molhada alimenta aqui-acolá a alegria que substancializa a nossa nordestinidade.

O sertão somos nós: suas veredas, suas travessias, seus descampados, seus riachos, seus rios magros, seus dias, suas dores. Enfim, o sertão somos nós: o gado que nos contempla com seu olhar sonolento, o galo que nos desafia com sua altivez exemplar. O sertão somos nós: o xique-xique que se faz vida, o algodão que se fazia norte. O sertão-sertão: o vento da tarde que se faz viração, o frio da madrugada que se fazia cruviana. Na seca, a manhã cinzenta é um prolongamento de nossas tristezas mais profundas.

E um ano depois de seu encantamento – um ano depois da crepuscular viagem que nos despedaçou –, eis que sentimos o nosso Pai como um sertão dentro do sertão de nossas lembranças, de nossas azulências, de nossas esperanças, de nossas seridolências. Houve um tempo para a alegria. Há um tempo para a tristeza. Aqui estamos, com a mesma dor de um ano atrás. Decerto, construímos a sua memória como quem constrói uma catedral de silêncios íntimos, como quem constrói um curral de sonhos barrocos.

E a construímos sabendo que outro é o seu sertão, neste momento. E a construímos sabendo que outros são os seus caminhos, desde outubro do ano passado. A morte tem seus desdobramentos próprios, decerto misteriosos para aqueles que ainda não se encantaram. A dor tem seus desdobramentos específicos, nem sempre compreensíveis, nem sempre mensuráveis. Mas existe a saudade, que é comum a todos nós. Mas existe o sertão, que é comum para nós e para muitos de seus amigos.

Só que o sertão não é para qualquer vivente, repetimos. Não é para qualquer sobrevivente, não é para qualquer pescador de ilusões. Mas a seu modo seco e sisudo o nosso Pai soube vivê-lo, soube senti-lo, soube compreendê-lo. Através de pequenos gestos. E de grandes afetos. Através de poucas palavras. E de grandes generosidades. Que o seu sertão, agora e sempre, do outro lado da sétima margem do rio, seja um sertão feito de águas e auroras, luzes e licores, sonhos e seridós. Ao lado daqueles que sempre o amaram.

BALAIO produzido ao som da Missa de Nossa Senhora [c1364], de Guillaume de Machaut, por Andrew Parrot / Taverner Consort & Taverner Choir [Virgin Classics, grav. 1983]

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