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Sete cânticos da aldeia no Dia Mundial da Poesia

 

*Por José de Castro

Cântico I

 Hoje, eu canto uma canção de amor a todos os poetas, homens e mulheres, daqui ou de além-mar, porque são eles os loucos a virar o mundo pelo avesso, no inverso a transversar sua arte. Arteiros e travessos têm a ousadia de reinventar o omni_verso. Veem a multiplicidade que muitos não conseguem enxergar. Quando algo inexiste, imaginam.  Do nada criam maravilhas, ilusões, fantasiam.  São os que inauguram pontes para o impossível. E nos levam a crer no incrível. E os sonhos, feito pássaros, vêm se alimentar em suas mãos. E conseguem fazer o igual virar diferente. O sol nascer no poente. Deles medra a flor na pedra. E inauguram novos caminhos. E resplandecem como a prata da noite enfeitada de estrelas. E são feito o rio de três margens. E barco, remo e barqueiro. E são peixe e pássaro, e tem asas na voz, e voam o silêncio pelos campos de queirós.

 

Cântico II

Poetas são esses magos da palavra que se douram na sabedoria amarela do olhar dos  girassóis. Têm a pureza do lírio do campo. E se enfeitam de rosa e se banham no perfume das açucenas, as mesmas que se ouve nascer na paz dos bois, de Zila, a  dormir.  São eles que ninam o sonho de pedra das montanhas. Águas que desembocam no oceano largo a banhar as cidades invisíveis de Calvino.  E, feito águias,  viajam leves na asa do vento pelos mundos do sem fim. E habitam Pasárgada, Lilliput, Ítaca, Macondo, Comala, Shambala e Shangri-La.  E outros mundos oníricos e fantásticos, feito imaginação de criança. A Terra do Nunca os faz sempre inocentes, puros, translúcidos e reluzentes como o cristal. Poetas são como os pastores de Davi, a cuidar dos rebanhos da palavra, nos verdejantes pastos, a celebrar cânticos, os cantares de sabedoria. Cada poesia tem o seu próprio tempo. E há um tempo de prosa-poesia.

 

Cântico III

E canto aos escritores bons de prosa. Poetas como os guimarães rosa. Pois de boa prosa vive a poesia que tem pedra a drummondiar no meio do caminho. Alguns passarão, outros, passarinhos serão a quintanear pelos ninhos, pousados nas árvores, a chocar a boa poesia dos manoéis de barro. São estes que terão a cor azul de coralina, a vicejar adélias pelos prados e pelas campinas. A poesia terá esse canto torto feito a faca de belchior caetaneando a carne de todos nós. Por isso mesmo sei que alegria de poeta é triste.  E sua tristeza, às vezes, alegre . Pois o verso do poeta, com seu brilho de mil sóis, tem o dom de adoçar a lágrima e revirar a melancolia pelo avesso. E os poetas, feito cecílias, nem alegres e nem tristes, são a florbela a morrer de poesia. E renascem a cada soneto que criam. São a última flor do Lácio, a rosa de Hiroshima, a lira dos versos, a pedra do reino, o arco de Ulisses, e a Irene preta que chega ao céu. Zombam do inferno de Dante, em brechtiana comédia, numa mistura shakespeareana do ser ou não ser poeta a lutar contra os moinhos de Cervantes.  E segue o fluxo da consciência joyceana, feito o jogo de dados de Mallarmé… E seguem adiante os escritos em prosa e verso, essa poesia homérica a viajar uma odisséia em direção ao horizonte infinito que a palavra promete. Ílion ainda está distante. Cada um de nós é um pouco Odisseu, Dom Quixote, Sancho Pança, Teseu, minotauro e Orfeu.  Cada poeta é o seu próprio labirinto, o fio de Ariadne e a barca de Caronte.  Somos arco e flecha atirada ao Olimpo, a caçar estrelas e alumbramentos. Amo toda essa poesia que existe nas lendas, nos mitos, em cada grito, em cada espanto. E amo esses poetas e essas poetas com esse amor camoniano que arde sem se ver. O mesmo amor que vale a pena, quando a alma não é pequena. Ave, pessoa, voa…

 

Cântico IV

Quero prosseguir vida afora entoando hinos e louvores a todos esses filhos de Gilgamesh e Homero que respiram poesia, suspiram versos e choram rimas. Aqueles que se enamoram de lua e sol e se perdem nas veredas e nos descaminhos da longa jornada. Eis que se reencontram nas trilhas dos verbos e exalam metáforas substantivas. Multiplicam-se nas metonímias e brincam de roda nas parlendas da inocência. Metáfrases e paráfrases os alucinam e eles se alumbram na emoção de reescrever o mundo na plenitude de sua inspiração. E têm repentes, improvisos, misturam rondéis, indrisos, sonetos e cantorias de cordel. Alguns são dramáticos, outros, líricos e trágicos. Tem os que são ácidos e críticos, herdeiros dos anjos augustos e cáusticos.  Tem os que rimam, e outros nem tanto. Alguns preferem o verso livre, outros a poesia matemática, metrificada nas redondilhas, nas sextilhas, nos alexandrinos, nos sonetos e em outros que tais. Tem aqueles dos poemas longos, a escrever epopéias. Outros, apenas minimalistas do haicai, do poetrix e da aldravia. E tem os que preferem a trova. Isso prova que múltiplos são os gêneros, o jeito singular e o estilo de ser poeta. Amo todos esses que se aventuram por esses inúmeros caminhos. Deles é a sina de serem argonautas da palavra. Navegantes das águas e dos sete mares dos quatro cantos do mundo. Poemar é preciso.

 

Cântico V

E canto aos poetas um dedinho de prosa, pois na mão desses loucos e visionários, um minuto de poesia tem o dom de inaugurar o eterno em cada um de nós. No timbre das palavras, os poetas afinam o ponteiro do tempo e infinitam o minuto a cada segundo.  Eternizam de beleza a fugacidade do momento. E tem poesia em seus cantos, em seus contos feito os grimms, andersens, stevensons, swifts, carrols, fontaines, esopos, rodáris, cascudos, orthofs, lagos, belinkys, paes, bartolomeus e elias; caparellis, salizetes, clotildes, e ruths e rochas, e pedro bandeiras, afonsos, colasantis, romanos, neves e sistos, e roger e mellos,  machados e bojungas,  e tantos outros bons de prosa, traço e poesia. São a centelha,  o raio, o corisco, a fagulha, o elétrico risco de fogo, de luz e de grito que abre no coração do mundo os portais do infinito.

 

Cântico VI

Canto à loucura de todos esses poetas da palavra, pois sua insanidade é feita de paixão.  E a sua paixão é beleza. E beleza é essa qualidade que permanece. É o rio perene de águas claras, iguais e sempre diferentes a cada corredeira, nos remansos, na cachoeira coruscante, abrindo espumas flutuantes, cantantes como vozes d’África a ecoar, ancestrais, em cada um de nós. E somos palmeira e carnaúba, a jandaia e o sabiá, cante aqui, que eu canto lá, patativas, alencares, nossos dias a gonçalvear.

 

Cântico VII

Entoo uma canção de alegria a todos esses loucos poetas e à sua insana poesia. São vinícius, guilherminos de almeida, melo netos, e castros e alves, bandeiras, bilacs, alphonsus, leminskis, cabrais, del picchias, augustos e haroldos, dos anjos, dos campos, poetas gullares, casemiros e outros tantos, da poesia luminares. E canto aos poetas da aldeia, os gomes, fernandes, itajubás, othoniéis, guimarães, autas e souzas, zilas e coelis, berilos, navarros, negreiros e grays, gurgéis e antonios, franciscos, joões e andrades, e neys e leandros de cristo, radyres, gonzagas, leonans, adrianos, ayltons, rolins, capistranos, varelas e livios martins, da cunha e limas de tarsos, e carmens, e drikas, anchellas, elietes, nassarys, diulindas, evas, rizoletes, reginas, leocys, iracemas, lisbeths, iaras, marias marizes e tantas outras divas da poesia. E a palavra de cada um se harmoniza com os mia coutos, verlaines, whitmans, eminescus, rimbauds, gibras, blakes, bashôs e kayans, szymborskas, pessoas, préverts, camões, baudelaire, breyner andresens, bukowskis, nerudas, sá-carneiros e lorcas milhares, de todas as aldeias, e de todos os lugares, com suas melopéias que inauguram e celebram universais epopéias. A todos eles eu canto essa canção, aos que já chegaram e a todos os que ainda virão. Deles sempre foi e sempre será a lucidez e a loucura que em leveza inaugura novos reinos e o paraíso. Aqui lanço o meu grito, na língua dos anjos, no código do eterno, rimando o infinito. Entoo a melodia universal que louva a todos esses poetas e à sua insana alegria. Pois como o sol se levanta, assim também todo o dia a minha alma canta, se espanta, renasce e se faz poesia.

A bênção, todos os poetas do mundo.

Viva a poeisis nossa de cada dia! Hoje, eu canto ao Dia Mundial da Poesia!

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*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros para crianças e para adultos. Publicou Apenas Palavras, Quando chover estrelas, A marreca de Rebeca, Vaca amarela pulou a janela, dentre outras obras. Membro da SPVA/RN e da UBE/RN. Contato: josedecastro9@gmail.com

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