Sétimo capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

SETE

NO DIA EM QUE JOSÉ APOLINÁRIO FOI PRESO, ERA o cabo puxando Zé e uma tia de Zé puxando o cabo.

– Se o pai dele fosse vivo, eu queria ver isso acontecer!

Pela primeira vez o rapaz botava os pés numa delegacia.

José Apolinário só tinha um defeito, aliás, dois: ser pobre e feio. Mais feio do que pobre. A bem da verdade, pobre mesmo nunca o foi José Apolinário, porque sempre teve de graça e abundante o ar para chupar, o tempo para enfiar a cabeça e muito chão pela frente para andar, andar até onde o juízo lhe tangesse. No tratante da feiúra, o que mais acabava com ele era a língua, pois quando falava, saía um engrolado, a língua ia para fora da boca contra a sua vontade, atrapalhando o palavrear. E ainda tinha os chuviscos de cuspe e o mau hálito, um bafo desgraçado que ele jogava na cara da pessoa. Mas o que mais lhe entediava era aquela eterna falta de dinheiro, pois tudo o que conseguia tinha um destino só: as raparigas do Princeza Café. Era pegar em dinheiro e desembestar cego e doido praquelas bandas.

Naquele dia, José Apolinário tinha sido preso sob a acusação de furtar umas criações.

Foi.

Quando seu pai sumiu do mapa e deixou os filhos ao léu, o menino ficou zanzando pelos chiqueiros, enjeitado, mas logo arrumou uma mamãe-cabra que o adotou, já que ficara órfão de mãe quando tinha apenas um ano de idade. José foi o seu nome de pia, mas nome de pia era o modo de dizer, pois a rigor, pelas leis da Igreja, o menino nunca foi batizado. O seu pai é que fizera, na beira do rio, um arremedo de batismo.

Passava o dia todo pelos chiqueiros mamando na mãe de criação e às vezes dormia por lá, no meio dos animais. Não só o rabinho de bode fazia de José Apolinário uma pessoa diferente. Ele também tinha cheiro de bode. Por essa razão os bichos não resistiam e pulavam as cercas, arrebentavam as cordas e corriam para junto dele. Só as fêmeas o acompanhavam, as fêmeas solteiras ou com filhos. Corria atrás dele a mulherada toda. Os machos – que eram os carneiros reprodutores e os bodes pais-de-chiqueiro – não, estes não davam a mínima para Apolinário. E não adiantava tangê-los de volta aos seus lugares, aos seus donos. Pedra, vara, grito, susto, nada os fazia voltar.

No dia de sua prisão, José Apolinário Neto entrou em Princeza com uma espingarda nas costas, um bornal com oito codornizes, quatro rolinhas, um mocó, dezessete preás, e umas mil e tantas criações caminhando atrás dele. Apolinário não deu a menor importância aos animais, cansado que estava, entrou em casa, trancou-se e caiu na cama, de roupa e tudo, suado e sujo. Os bichos ficaram do lado de fora no maior berreiro, com as ruas empatadas e o povo reclamando providências. Duas horas depois, o cabo chegou com um soldado e um monte de gente se dizendo dona dos animais, bateram na porta e José Apolinário, de sono ferrado, só acordou quando a porta e as duas autoridades já estavam dentro de casa. Tinha ido a uma caçada no Gogó-da-Ema e ao passar pela Várzea da Cruz – obra de mais ou menos umas três léguas – a bicharia toda o acompanhou.

– Eu não tenho culpa dos bichinhos gostarem de mim – disse ele ao delegado.

Menino ainda, uma cigana leu a mão de José Apolinário e disse que ele nascera para sofrer, pagar as peripécias do avô que bateu as botas aos cento e quarenta anos de idade, sem nunca ter conseguido apagar do quengo da humanidade o pecado que carregava nas costas. O dito parecia um couro velho dobrado, as ventas quase arrastando no chão por conta da escoliose, mas todo mundo dizia que aquilo era por conta do peso dos pecados, especialmente de um, que foi ter dado causa à morte da própria mãe, e ainda tido a coragem de arrancá-la da cova por diversas vezes e colocá-la na porta do irmão avarento, só para extorquir dinheiro dele.

Quando o delegado viu o rapaz nu, ajeitou os óculos para examinar melhor o que jamais enxergara num ser humano: um rabo. Além do mais, José Apolinário era muito branco, magro e não tinha um só pêlo no corpo, com exceção dos cabelos ruivos e da barba rala – também ruiva – uma pequena touceira que ia descendo pelo queixo até terminar em ponta, além de uma maçaroca de pentelhos ruivos lhe cobrindo os ovos e a estrovenga. Foi então que o delegado lembrou-se do dia em que o padre estivera na delegacia e manifestara o desejo de pôr as mãos no sacrílego que achou de cagar dentro dos cálices da eucaristia. O delegado mandou o cabo ir depressa chamar o padre que veio com os paramentos, os santos óleos e todos os apetrechos do ritual de exorcismo.

Depois de tentar, sem sucesso, uma conversa reservada com o preso, o padre percebeu, enfim, o quanto era fraco de confessionário, chegando inclusive a questionar as virtudes de seu sacerdócio. Teria Deus lhe negado o dom de persuadir as criaturas à confissão e ao arrependimento? Saiu arrasado daquela cafua apertada e quente que tinha uma placa na porta onde se lia: “Sala de Investigação”. Lá dentro havia apenas um birô e uma cadeira e ao lado do birô um tonel de água faltando três dedos para esborrar. O padre percebera tudo nos mínimos detalhes: o infeliz de cu pra cima, com um pau enfiado nas dobradiças das pernas e as mãos amarradas, sem falar nas paredes de onde pendiam uma infinidade de chicotes, cacetes e palmatórias, porretes de todos os tamanhos e formatos, tudo sarrafo de dar em doido, pau para todo tipo de espinhaço.

– É o filho caçula de João Sem-Medo – disse o padre, assim que entrou na sala do delegado, lembrando-se do dia em que se recusara a batizá-lo. Diante da pia batismal, no instante em que ensaiara aspergir água na fronte do pequeno, o pequeno se obrou de medo da água. A madrinha foi trocar a fralda e deu conta do rabinho de bode do menino e pulou para trás.

– Fiquem sabendo que meu filho é gente – disse João, arrebatando o menino.

– Espere, eu posso pedir uma autorização ao bispo.

– Pode deixar, padre, sei onde encontrar Deus! – disse João, indignado, indo embora com o menino.

Seu filho era obra fina e acabada de Deus para fazer prova de que somos irmãos de todos os animais, como dizia São Francisco: irmão bode, irmã cobra, irmão jumento. E pensando no santo que cochichava no ouvido dos passarinhos, João chegou à beira do Riacho-da-Velha e deitou a criança numa pedra, à sombra de uma árvore. Então arrastou a faca para cortar uns galhos de mato e lhe veio na cabeça a estampa da Sagrada Escritura, representando a figura de Abraão quase enfiando a faca no pescoço do filho para oferecê-lo a Deus em sacrifício.

Mas João Sem-Medo acionou seus caiporas interiores, seus anjos guardadores e espantou a figura — borboleta marrom-sépia sobrevoando o rosto do neném adormecido. O movimento brusco do pai despertou o inocente que precisava de fato estar acordado para vê-lo apanhar água do riacho, com a copa do chapéu, e derramar todinha sobre sua cabeça. Não precisou dizer: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, porque o riacho falou por ele, uma fala que contou com o adjutório das caiporas que vieram brincar com os avozinhos e o vento. Nesse dia tinha para mais de seiscentos mil caiporas fazendo pagode de remanso e tromba d’água junto com as Iaras nas correntezas. Então o Riacho-da-Velha gemeu em suas nascentes, trovões secos explodiram os serrotes pelas encostas da Serra do Livramento. E João deu seu filho por batizado.

O padre, que já tinha visto o rabo, agora queria ver o cocô do rapaz. Precisava de fato ver o produto para providenciar uma comparação, ver se era parecido ou não com aquela bosta preta, o maldito cagalhão enroscado e grosso que encontrara naquele dia no fundo do vaso sagrado. Não tivera o menor pudor o infeliz, fazer a seboseira logo ali, exatamente diante da luzinha da candeia de óleo que alumiava o Santíssimo, palavra que o herege, achando pouco, ainda acendeu o cigarro no rosto da chama sagrada e depois deu um peteleco, que as correntinhas se desprenderam e os cacos da lâmpada se espatifaram pela sacristia.

O delegado cascavilhou um velho armário, esmagou uma ruma de baratas, correu atrás de uns dez ratos, mas não encontrou vasilhame algum que se prestasse ao fim específico que era aparar a bosta ou qualquer coisa sólida ou líquida que saísse do cu de uma criatura.

– Traga no seu capacete! – ordenou ao cabo.

Excitado ante a possibilidade de poder exibir sua autoridade, o cabo correu para onde estava o preso, deu-lhe uns quatro gritos e brandiu nos ares um cacete grande e grosso e duro, e o pobre Zé naquelas condições: a calça nos calcanhares, os olhos querendo voar fora, da caixa, e a veia, do pescoço. Nesse momento foi que o cabo deu por si da humilhação que era alguém fazer cocô no seu capacete de autoridade.

De longe dava pra se ouvir os gritos de José Apolinário. O rapaz pinotava e berrava. Afinal, tinha seus direitos de cidadão.

– Peça a ele para maneirar! – intercedeu por fim o padre, moído de remorso.

O delegado deu um assobio. O cabo virou-se e o delegado fez assim com as duas mãos espalmadas, dando a entender que era para o cabo moderar. Só então foi que ele moderou.

Meia hora depois, o cabo entrou na sala do delegado, pediu licença ao padre e foi direto ao assunto:

– Doutor, o homem não quer cagar.

– Esprema esse filho da puta! – gritou o delegado, dando um murro no birô, esquecendo-se do padre ali ao lado, para quem logo dirigiu um sorriso amarelo.

Minutos depois, arfando – e com duas placas de suor no entorno das axilas –, lá vinha o cabo trazendo no fundo do capacete cinco inodoras bolinhas verdes de cocô. O delegado abaixou a cabeça e o padre fechou a cara, não disse mais uma palavra, apenas apanhou o chapéu e saiu.

Comentários

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  1. Alessandra Régia 21 de setembro de 2011 20:31

    Aldo Lopes exala talento.
    Escreve com propriedade, o seu texto encanta,
    excita o intelecto.
    Aldo Lopes um homem fascinante com o dom de escrever.

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