Seu Elias, um brasileiro

Numa manhã de domingo,  Seu Elias passou aqui em casa. Costuma vir a cada mês, sempre a perguntar se tem algum serviço para fazer. Então, eu pedi que ele limpasse o mato da frente da casa. Disse-me que faria em troca de um lanche e água. Eu disse, tudo bem, mas que seria um almoço e que lhe daria alguns trocados. 

Aproveitei para conversar um pouco com ele. Revelou-me que tem 68 anos e sua família é do interior, Poço Branco, aqui no Rio Grande do Norte. Seus pais já faleceram há tempos. Perguntei se tem irmãos. Tem um irmão para os lados de Pernambuco e outro para as bandas de Manaus. Lembrou-se também de uma irmã, a mais nova, que vivia pelo interior. Faz tempo que não tem notícias deles, acredita que todos já faleceram e que ele, agora, está só no mundo. Perguntei se ele nunca quis se casar. Disse-me que teve uma mulher, mas ela o deixou. Não quis me dizer o porquê e nem eu lhe perguntei.

Atualmente, ele mora só, num quartinho de fundos, alugado a uma senhora, na Av. Deodoro,  Cidade Alta. Reclamou que o quarto é “fraquinho” e que tem vontade de voltar para o interior, onde ele tem um terreno bom, que dá para construir umas 60 casas. Então eu indaguei a razão de ele não voltar para lá. Respondeu-me dizendo que um senhor apossou-se do terreno e que ele entrou na justiça, reclamando as terras. Eu perguntei como foi isso. Explicou-me que o rapaz vem cuidando desse terreno por mais de 20 anos. Nesse momento, Seu Elias balançou a cabeça bem desanimado, dizendo que o rapaz quer é briga e que a situação é complicada. Ele acha que é mesmo um caso perdido. O rapaz não vai entregar as terras.

Concordei com ele, pois acima de dez anos já é usucapião. Ainda mais se ele, Elias, descuidou-se de estar por lá. Confesso que não entendi bem o porquê de ele ter deixado o terreno sob a responsabilidade de alguém, sem acompanhar de perto. Coisas da vida, problemas de cada um.

Aí ele me disse que tem um amigo que tem um bar no Pium, perto da praia do Cotovelo. Que ele talvez vá morar por lá, pois tem um rio bem pertinho e dá para se tomar banho todos os dias.  Ao mesmo tempo, ele me revelou que gostaria de morar em Parnamirim, numa ruazinha que ele viu, com mercadinho e farmácia por perto.

Confessou-me que é muito doente e que quase perdeu uma das pernas. Eu perguntei o porquê. Ele me disse que foi uma “ursa” que deu nela. Mas ele pediu muito a Deus e fez tratamentos por quatro meses e ficou bom. Disse que tinha muito medo de ir para uma cadeira de rodas. “Aí, o que seria de mim, sem ninguém no mundo? Mas Deus é bom e me curou.”

Perguntei a ele sobre os estudos. Ele me disse que nunca foi à escola, e tanto a mãe quanto o pai eram também analfabetos. “Meu pai só servia mesmo para ‘pegar cobra pelos pés’,  nos serviços do campo”. Contou-me que o pai dele subia nas carnaúbas para tirar a palha para a esposa fazer vassoura e espanador. Tinha dias que o pai chegava a casa, coberto de sangue, de tanto se arranhar nas carnaubeiras. “Uma vida difícil, seu moço”. E completou dizendo que está muito complicado de conseguir trabalho nesses tempos de pandemia. Lamentou-se de não ter tido oportunidade de estudar. Disse que uma pessoa com segundo grau pode até ter um emprego bom. Mas se tiver sorte, observou. Que ele devia ter feito, ao menos, o ginásio.  Depois, balançou a cabeça e reconheceu que hoje a coisa está feia até para quem tem curso superior. “Quanto mais para um analfabeto como eu”, completou.

Seu Elias não fala errado, afora o “ursa”, no lugar de úlcera. Tem boa conversa e até parece que tem estudos. Mas percebo que ele aprendeu mesmo foi na escola da vida, pegando serviços aqui e ali, a maioria de cortar mato. Seu Elias é um brasileiro como tantos outros que a gente vê por aí, um tanto quanto sofridos e desesperançados. Mas que, apesar de tudo, conseguem sobreviver.

Ao final do trabalho, depois de almoçar e receber alguns mantimentos que lhe dei, além de um pagamento pelo serviço, ele me perguntou se eu tinha alguma roupa para ele. Fui ao guarda-roupas e peguei algumas camisas e camisetas. Com essa pandemia eu não preciso mesmo de tantas camisas, pois lá se vai mais de ano que não visito uma escola. As roupas serão mais úteis para ele que continua precisando correr vida afora atrás do seu sustento. Aproveitei a ocasião para lhe dar uma máscara para ele seguir se protegendo do vírus.

Seu Elias juntou as coisas, colocou sua mochila às costas e despediu-se de mim com um “até o próximo mês”. Espero que ele consiga realizar o seu sonho de morar em Parnamirim ou no Pium. Aqui entre nós, eu escolheria o Pium. Afinal, assim como o Ziraldo, sou um menino de rio de água doce.

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Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Rosa Regis 25 de maio de 2021 22:32

    Amei! Lembrou-me os meus queridos conterrâneos la do Sítio Jerimum.

  2. Tereza Custódio 25 de maio de 2021 6:53

    Gostei da crônica e do Sr. Elias.

  3. GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS 24 de maio de 2021 20:24

    Excelente crônica.

  4. José de Castro 24 de maio de 2021 20:21

    Neste momento, nao estou conseguindo visualizar o meu comentário e nem um que o amigo Gilberto Cardoso dos Santos postou aqui… Ele me mostrou, mas aqui NÃO ESTÁ APARECENDO…. O que é isso, Conrado Carlos? Pode me explicar?

  5. GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS 24 de maio de 2021 20:01

    Poeta José de Castro, adorei a sua crônica bem escrita, comovente e bastante objetiva. À medida que expõe o drama de Seu Elias, você revela um olhar bondoso e perscrutador, próprio de gente altruísta, que exercita a a empatia e pratica a alteridade. Nota dez.

  6. José de Castro 24 de maio de 2021 19:46

    Gostaria que o Seu Elias soubesse ler. Eu passaria para ele o link do SUBSTANTIVO PLURAL. Só que não. Mas contarei a ele que lhe dediquei uma crônica na próxima visita. Dependendo da reação dele, escreverei a continuação… Gosto demais dele, que é alguém especial, pois está sempre disposto a servir, na sua dura batalha pela vida.

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