“Seu Gomes” e sua obra Os Brutos

jose bezerra gomes

Por Maria Adamires da Silva*

Considerado um dos escritores mais relevantes da produção literária em prosa no Rio Grande do Norte, José Bezerra Gomes, ou “Seu Gomes” como era chamado pelos seus amigos, é um escritor pouco conhecido pelo público. Nasceu em Currais Novos, onde fez o primário no grupo escolar Capitão-mor Galvão. Em Natal, cursou o ginásio no Ateneu Norte-rio-grandense. Bacharelou-se, em 1963, em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais.

Em Currais, em 1941, candidatou-se e foi eleito vereador da câmara municipal, instituindo a Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura de Currais Novos. Foi o primeiro diretor e organizador do referido órgão. Participou, ainda, da elaboração do Estatuto do Centro Esportivo Currais-novense, e foi seu diretor durante dez anos. Essas foram algumas informações biográficas sobre o autor para auxiliar a compreensão da criação literária deste.

José Bezerra Gomes foi um escritor talentoso, mas sua obra foi comprometida pelo avanço da doença mental que o acometeu desde ainda jovem. Mesmo assim, publicou três grandes romances: Os brutos (1938); Por que não se casa doutor? (1944); e A porta e o vento (1974). Seguidor assumido do romance regionalista, José Bezerra retrata em suas obras a seca, o retirante, a memória da sociedade hierarquizada e da injustiça social. No país, o ciclo de romances regionalistas revelou autores como José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos.

Em seu livro de estreia Os brutos, José Bezerra Gomes retrata a região do Seridó, a sua cidade natal Currais Novos, que era um polo de riquezas de algodão, o chamado ouro branco do sertão. O romance Os brutos tem 24 capítulos que, embora sejam fragmentados e descontínuos, possibilitam o estabelecimento de uma sequência narrativa para a história, não inviabilizando a compreensão do leitor.

Sigismundo, narrador-personagem, inicia o enredo em Currais Novos, logo depois descreve a chegada de Seu Tota a essa cidade, um senhor rico que comprava o algodão por um preço baixo, era o único homem que tinha um carro na cidade com motorista, o mulherengo Jesus. Depois introduz a história de personagens como o seu tio Lívio, que vivia com a prostituta Rica. Após isso, Sigismundo mostra a residência dos seus tios Abdias e Maria e do primo Aldair, que era criado com muita rigidez diferente do personagem protagonista. A narrativa deixa perceptível o tempo todo a insatisfação dos tios com a estada de Sigismundo em sua casa.

Em um determinado momento, o narrador traz de volta à história o tio Lívio. Desta vez, o personagem vem para se instalar na casa de Abdias para tratar-se de doença. A partir daí começa a história de amizade entre o tio Lívio e o sobrinho Sigismundo, que acaba quando o garoto se assusta com a doença do tio. Tempos depois, Lívio, com ciúmes de Rica, assassina-a com suspeita de traição, é preso e enlouquece na prisão.

Uma nova fase do romance é iniciada quando Sigismundo volta para junto dos pais no Alívio, sítio dos seus pais, onde por influência do morador Cicero Cacheado tem sua primeira experiência sexual. No final do livro, o autor não dá por acabado o enredo e a narrativa “termina” de modo aberto, sem o ponto final dos textos mais lineares e tradicionais.

Em Os brutos, podemos ressaltar a diferença entre o tratamento de Sigismundo e seu primo Aldair. Ao chegar à casa de seus tios Abdias e Maria, vemos o modo como ele é tratado, bem diferente da maneira como os tios tratam o seu primo Aldair, o único filho da sua tia Maria, que o criava diferente de todos os meninos da cidade, sentado em uma cadeira na sala passava o dia inteiro lendo em voz alta. Apanhava por qualquer coisa, bastava não fazer a lição de casa ou chamarem e ele não responder, vivia prisioneiro de sua mãe. Já Sigismundo podia sair e chegar a hora em que quisesse que iria encontrar a porta da casa aberta, podia sair para brincar com os garotos na rua, mas na narrativa podemos ver o porquê que Aldair era tratado diferente de Sigismundo, porque sua tia não queria criar o filho de outra pessoa, para ela seu sobrinho era um intruso que morava na sua casa.

Apesar de pouco citado na narrativa, Seu Tota Alves é uma personagem interessante, um senhor ambicioso que, segundo os relatos dos moradores da cidade, ficou rico após uma viagem que fez e um comerciante que viajava junto a ele morreu, e ele trocou a sua mala pela a do comerciante que estava cheia de dinheiro. De Natal foi para Currais Novos e lá começou a comprar algodão às pessoas e a vender pelo preço muito alto, na cidade mal tinha contato com as pessoas, só saía de casa para ir ao Banco em Natal e quando chegava se enfiava dentro do sobrado onde morava, não era casado, só morava com ele uma mulata chamada Ana Felísmina, que era como se fosse a dona da casa, não gastava com nada, só existia para comprar algodão e guardar o dinheiro.

Sobre o foco narrativo do romance, devemos destacar um aspecto interessantíssimo: apesar de ser escrito predominantemente na primeira pessoa, com a voz de Sigismundo contando a história, alguns capítulos são narrados em terceira pessoa. Isso faz com que o romance possua dois focos narrativos, uma inovação um tanto quanto ousada. Ainda hoje é comum que uma narrativa possua um único foco narrativo. Mas, ao escolher esta maneira para contar sua história, José Bezerra Gomes, conseguiu dinamizar o seu texto, pois, se o narrador em primeira pessoa transmite subjetividade e proximidade com o leitor, o narrador em terceira pessoa possibilita distanciamento e análise dos fatos que acontecem no romance. Assim, o leitor tem sua visão ampliada, pois possui esses dois ângulos, um mais parcial e outro mais imparcial e impessoal, para compreender o texto e chegar a sua conclusão.

José Bezerra Gomes, ao colocar o título de sua obra Os brutos, ressalta a “brutalidade” dos seus personagens, podemos citar como exemplo dessa brutalidade a parte em que Lívio mata Rica por ciúmes; também podemos citar seu Tota, um senhor ambicioso, tia Maria com seu egoísmo, a prostituição das mulheres da casa de baixo, a iniciação precoce da vida sexual do garoto Sigismundo. Quanto ao nome Sigismundo (Segue mundo) retrata bem a realidade de um retirante que nunca se fixa em um lugar só e está sempre procurando melhoria de vida em outra cidade. Portanto, ao analisar o título do livro Os brutos, foi possível perceber que o autor não só se refere à brutalidade dos personagens da narrativa, mas a nós mesmos que somos preconceituosos, egoístas, que só pensamos de modo individual e esquecemos de observar a condição do outro.

*Aluna graduanda do Curso de Tecnologia em Produção Cultural do IFRN – Campus Natal Cidade Alta.

Comments

There are 10 comments for this article
  1. François Silvestre 27 de Março de 2014 10:08

    Num Estado ou Cidade de poesia e poetas, é bom ler no SP um texto denso e bom sobre um excelente prosador. A prosa, cá no RN, é tratada com certo desprezo. No meio das luzes poéticas, os prosadores aproveitam pequenas frestas que se escapam na penumbra. Zé Bezerra Gomes é um exemplo desse silêncio.

  2. Francisco Sobreira 27 de Março de 2014 17:37

    Gostaria de ver uma análise de Maria Adamaris sobre o “Por que não se casa, doutor”? Acho-o superior a “Os Brutos”. Não sei se foi em Manoel Onofre que li que o próprio autor o considerava o seu melhor romance. Não entendo o silêncio dos literatos potiguares sobre esse livro, enquanto se fala tanto de Os Brutos, que tem as suas qualidades, mas me parece superestimado,

  3. Lívio Oliveira 28 de Março de 2014 5:32

    Discordo, caro François. E tenho razões argumentativas para isso. Ademais, o que é tratado com certo desprezo aqui no RN é a literatura, em geral.

  4. Marcos Silva
    Marcos Silva 28 de Março de 2014 10:21

    Conheci José Bezerra Gomes em 1969, já idoso. Era um homem muito atencioso e atento ao que se passava naquele momento. Emprestou-me os exemplares (edição original) que possuía de “A morta” e “O homem e o cavalo”, de Oswald de Andrade. É bom ler discussões sérias sobre sua obra.

  5. Marcos Silva
    Marcos Silva 28 de Março de 2014 10:26

    Lívio, receio que a literatura, hoje em dia, seja tratada com desprezo no mundo inteiro, exceto quando é mercadoria rentável. A função de quem preza a literatura é batalhar por sua análise e divulgação. Nosso SP contribui humildemente para isso.

  6. François Silvestre 28 de Março de 2014 11:49

    Lívio, recebo a contestação e faço dela minha autocrítica. Você tem razão. Assim também guarda razão a observação extensiva de Marcos Silva. É verdade. De todas as artes, a literatura é a que mais sofre com a pressa e preguiça da leitura. Vivemos os tempos da “cultura” em compota.

  7. Tácito Costa
    Tácito Costa 28 de Março de 2014 15:09

    François, Lívio e Marcos, acho que o desprezo é mais extensivo, não atinge apenas a literatura, mas todas as manifestações de arte que não são puramente comerciais, voltadas para o mercado ou meros “divertimentos”. A preguiça que sobra para a literatura etc não existe para se assistir combates de UFC. Pensei nisso porque recentemente teve um desses combates em Natal e a mídia dedicava todos os dias horas de audiência.

  8. Danclads Andrade
    Danclads Andrade 28 de Março de 2014 15:16

    A Literatura tem realmente sofrido um desprezo, como diz Lívio. Mas, Marcos tem razão ao afirmar que é nosso dever combater isto e incentivar e divulgar esta arte e o SP tem feito isto. A Literatura só interessa, mais uma vez assiste razão a Marcos, se for rentável. E no Brasil o nível de leitura é muito fraco. Daí, também, haver este menosprezo pelas letras.

  9. Marcel Lúcio 11 de Abril de 2014 7:44

    A análise de Adamires sobre a obra Os brutos é muito pertinente e se detém tanto a aspectos conteudísticos como a aspectos formais. Percebe os artifícios utilizados por Gomes para dinamizar a sua narrativa, como os capítulos curtos e o foco narrativo alternado entre a primeira e terceira pessoa.Quanto à discussão sobre a literatura na sociedade atual, acho que o nosso esforço deve ser no sentido de aproximar o texto literário da vida do leitor, mostrar que a literatura dialoga com as situações cotidianas e existenciais, retirar o texto literário do pedestal restrito aos “homens das letras”. Quando obtemos o prazer espontâneo na leitura e quando percebemos o poder da literatura não há mais volta, a literatura passa a fazer parte de nossa vida. Para encerrar, acho pertinente citar Todorov quando este diz que: “A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver”.

  10. Luma Carvalho 1 de Setembro de 2014 20:08

    Gostei, aliás sempre gosto, de ler sobre José, Seu Gomes, o bigodudo mais poético e autêntico do Seridó – José Bezerra Gomes. Lendo mais a respeito da Literatura do Rio Grande do Norte (Tarcísio Gurgel, Manoel Onofre JR, Constância Lima e Diva Cunha) fico cada vez mais certa da nossa capacidade criativa, inventiva. São tantos nomes já revelados e outros tantos a se revelar na prosa e na poesia. José Bezerra Gomes e toda sua obra é entre tantas outras tão representativas de nossa identidade, nossa tradição, nosso chão. “Morro” de felicidade e nostalgia de saber que por alguns lugares que ando, estou pisando o chão que ele pisou. Nem preciso dizer que sou apaixonada por José, não é? Adorei o texto da Adamires, muito bom. Muito boas as discussões todas aqui. E viva a Literatura do RN, do mundo!

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