Severino Comunista de Caicó

Por Geomar Brito Medeiros

De quantas loucuras vi correndo soltas pelo mundo, embaladas pela zombaria de populares, a de Severino Comunista foi a de furor mais belo.

Seu desarranjo mental pode ser classificado como loucura amorosa, causada pelos encantos de Afrodite, a deusa do amor. E a afrodite de Severino fora ninguém menos que Elizabeth Alexandra Mary, atual monarca do Reino Unido da Grã-Bretanha.

Conheci Severino nos anos 70 de eu-menino: alto, ligeiramente corcunda, faces encovadas e nariz adunco. Tinha os olhos inquietos – duas bilas azuis boiando em claras sanguíneas. As roupas sobrando, estofando uma musculatura mirrada. No rosto, o horror da sua condição: acreditar-se destinatário de um amor e de uma fortuna dos quais nunca obteve o regalo de desfrutar.

Também pudera!

Quando o solteirão Severino emitiu os sinais de fraqueza nervosa, o mundo estava dividido em dois blocos: era a Guerra Fria. Dinarte Mariz, prócer seridoense, no papel de anticomunista por excelência. Na região, o adjetivo comunista, por força da pregação política, agregou novos conteúdos, só encontrando paralelo com o Bicho-papão. Era qualquer coisa que abarcava tudo o que fosse de ruim e negativo. Severino era ardoroso eleitor de Dinarte. Foi aí que alguém, avistando a contrariedade entre termos, cunhou a explosiva antítese: Severino Comunista – que logo se armou de cacete para nunca mais largar.

Para compor a régia trama, outro alguém foi aos Correios e postou uma carta: Da Rainha Elizabeth para Severino, meu Real Amor, com fotografia, juras eternas e a notícia do dote de 1 milhão de libras esterlinas depositado no Banco do Brasil. Por prova e amostra, a cédula inglesa de valor unitário grampeada à carta. A verba milionária custearia o enxoval e a viagem para as núpcias em terras de Inglaterra. No que deu? Severino “varreu a quenga” de vez, cresceu em importância e passou a envergar paletó – para nunca mais largar.

Assim, passou a ensaiar a sua odisséia vitalícia pelos gabinetes das autoridades caicoenses, na busca de assenhorear-se de seus haveres. Mas a maldade humana e a burocracia o impediam.

No gabinete da gerência do banco, exibiu a correspondência e cobrou o levantamento da fortuna.

– É verdade, o dinheiro passou por aqui. Mas… Já está no fórum. O juiz o requisitou – disse o gerente.

Instante mais estava o gerente ao telefone inteirando o juiz da situação que criara.

O magistrado, por sua vez, recebeu Severino em audiência:

– Acabei de despachar o fardo de dinheiro para a coletoria, onde as libras serão conferidas e o imposto recolhido.

Da coletoria Severino foi para a prefeitura, no encalço da riqueza. Da prefeitura, para a delegacia. Da delegacia…. E o rosário de autoridades se alongou, até Severino ir fechar seu primeiro giro ajoelhado na catedral, esgotado nas suas forças.

Ali confessou os pecados da ira e da ambição, recebeu a comunhão e recarregou as baterias.

O pároco, apiedado, até pensou em contar-lhe a verdade. Mas a mentira, de tanto ser repetida, já era uma verdade “severina”. Restou ao padre também impulsionar a roda da doidice, que embalou numa sucessão de giros que só tiveram paradeiro com o óbito.

E girando pelo mundo, Severino jamais vacilou na certeza de que um dia cruzaria o Atlântico. Mas enquanto a grande cruzada para a Inglaterra não chegava, errou pelos caminhos do sertão.

Duma feita, foi mimado por um fazendeiro com uma lasca de carne-de-sol assada. Encafuou-a na valise entre as muitas fotografias da rainha amada.

Era manhã de mormaço e poças d’água espelhando o céu.

O andarilho buscava Cruzeta quando a fome apertou. Atinou para a reserva guardada na valise. Esquecido de se prevenir com a prótese dentária e sob a pressão do estômago, forçou o bolo alimentar goela abaixo, antes de estar ao ponto.

Havia uma poça no meio do caminho quando Severino se engasgou.

O mundo escureceu.

Severino rodopiou sobre os calcanhares, largou seus pertences pelo caminho e tombou emborcado para dentro do espelho d’água.

Era um oceano demais pequeno para afogar tanta grandeza.

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