Sexo, guerras e contrição

Por Dorrit Harazim
O GLOBO

“A América vive numa espécie de nova era das trevas, em que a sociedade se orgulha de sua ignorância”, observou recentemente o californiano Marty Klein, autor do livro “Guerra ao Sexo”, a um entrevistador britânico. Klein se referia ao vitriólico debate em torno do planejamento familiar, que há meses injeta um tom quase medieval ã campanha eleitoral nos Estados Unidos. O embate mais recente colocou em campos opostos dois protagonistas inesperados e marginais à corrida presidencial.

Sandra Fluke é uma estudante de Direito da Universidade de Georgetown. Metodista de fé e democrata por opção política, a jovem de 30 anos há tempos milita a favor de um planejamento familiar acessível a todos. Semanas atrás, testemunhou perante uma comissão parlamentar do Congresso em defesa de uma instrução do governo Obama para que os planos de saúde cubram pílulas anticoncepcionais. Rush Limbaugh é o radialista mais popular do país, cujo programa de três horas diárias tem uma audiência média de 15 milhões de pessoas. Comparado a Limbaugh, o apresentador paulista José Luiz Datena tem verve poética e vocação para coroinha. Limbaugh, que costuma acertar na veia obscurantista de seus seguidores, desta vez errou a mão.

“O que devemos deduzir da universitária que defendeu no Congresso o custeio de anticoncepcionais pelos planos de saúde?”, tonitruou o radialista numa quarta-feira. “Basicamente, ela diz que merece ser reembolsada para fazer sexo. Isso faz dela o quê? Uma vadia, certo? Uma prostituta. Ela quer que você, eu e o contribuinte paguemos para ela fazer sexo. Isso nos torna o quê? Proxenetas…” No dia seguinte, empolgado com a polêmica que criou, pisou mais fundo, seguindo seu princípio de “atrair a maior audiência possível e mantê-la cativa pelo maior tempo possível para cobrar a tabela publicitária mais alta possível”:

“O mulherio parece que entrou em órbita! E olhem que eu nem indaguei se lésbicas precisam usar camisinha. Então lá vai uma para a senhorita Fluke e o resto das feminazistas: se tivermos de pagar para suas camisinhas e para vocês fazerem sexo, queremos algo em troca: que vocês postem os vídeos on-line para podermos assistir.”

Na sexta-feira, em meio a nova estocada (“Por que ela não encontra algum homem que banque as suas camisinhas?”), quatro anunciantes, de um total de nove, acharam prudente boicotar o programa. O presidente Barack Obama aproveitou para fazer gol. Telefonou da Casa Branca para a jovem de franjinha bem comportada e discurso sóbrio, e lhe disse, entre outros, que o sr. e sra. Fluke deveriam estar orgulhosos da filha. Só então o plantel de pré-candidatos republicanos saiu de um silêncio sepulcral. “Não são termos que eu usaria”, declarou o mórmon Mitt Romney, que por enquanto lidera a corrida. Rick Santorum, o fervoroso puritano de quem Romney não consegue se desvencilhar, não decepcionou. Queixo erguido, peito mais estufado pelas recentes vitórias parciais, desconversou: “Profissionais de entretenimento podem dizer absurdos”, disse apenas.

Sua posição a respeito de anticoncepcionais é clara, embora a construção verbal por vezes seja oblíqua: “Eles [os anticoncepcionais] permitem fazer coisas no âmbito da sexualidade contrárias a como as coisas deveriam ser.” O problema é que, segundo a mais recente pesquisa do instituto Guttmacher, de Washington, 99% mulheres americanas sexualmente ativas (e 98% das católicas) já usaram algum método contraceptivo.

Só no sábado Limbaugh avaliou melhor o estrago. “Peço desculpas sinceras à senhorita Fluke pela escolha de palavras insultuosas”, disse o radialista, que está em seu quarto casamento e teve um lote irregular de Viagra interceptado pela alfândega dos EUA quando retornava de uma viagem à República Dominicana. Por insinceras, não foram aceitas pela jovem e rapidamente esquecidas pelo seguidores do apresentador.

A atual fase de toxicidade da vida política e social americana revelou-se em dois outros pedidos de desculpa recentes — ambos feitos pelo atual ocupante da Casa Branca. O primeiro foi por carta endereçada ao presidente afegão Hamid Karzai, na qual Obama se desculpa pela queima acidental de exemplares do Alcorão. A profanação fora praticada por soldados americanos da base de Bagram, ao norte da capital Kabul, e sepultou de vez o que restava de confiança afegã.

Santorum logo taxou Obama de chorão, e qualificou o gesto de fraqueza desprezível. “Pedir desculpas por algo não intencional é algo que um presidente dos EUA nunca deveria fazer”, condenou. “Em breve será criado o Ministério das Desculpas, para dar conta de tantos pedidos de perdão.” Newt Gingrich considerou a carta um ultraje. E Mitt Romney não ficou atrás. “Esse pedido de desculpas está atravessado na garganta do povo americano”, disse o ex-governador de Massachusetts. Romney condena a política externa de Obama há tempos e não foi por acaso que o livro escrito por ele para a campanha eleitoral tem por título “Sem pedido de desculpas” .

No domingo 11 de março Obama teve de pedir desculpes novamente a Karzai. Por telefone, logo que foi informado da chacina de 16 civis afegãos praticada por um sargento americano. O militar teria saído à noite de sua base em Kandahar e assassinado metodicamente famílias inteiras de casa em casa.

“O difícil é se desculpar por algo que ocorreu quando você está no comando”, sustenta o pesquisador Stephen Hess, do Brookings Institute. “O truque é pedir desculpas por algo que o país fez quando você não estava no comando da nação.” Obama pode ter se mexido por um misto de princípios e pragmatismo. Afinal, a superposição de papéis (candidato à reeleição e comandante em chefe das Forças Armadas) nem sempre é harmônica. Mas para seus eleitores ele terá honrado a citação de James Monroe, 5, presidente a ocupar a Casa Branca (entre 1817 e 1825), que consta de todo livro escolar americano: “A honra nacional é a propriedade mais valiosa da nação.”

Uma cena ocorrida num dia gelado de dezembro de 1970 vem à memória. O então chanceler alemão Willy Brandt empreendia a histórica visita de reconciliação de seu país com os vizinhos do Leste europeu. Ao depositar flores no memorial aos insurgentes do Gueto de Varsóvia, na capital da Polônia, inesperadamente caiu de joelhos no asfalto sujo e molhado do local e assim permaneceu durante longos minutos. Explicou mais tarde que se ajoelhara em nome da Alemanha e precisou pedir perdão. A foto correu mundo como “Der Kniefall” , genuflexão, na tradução literal. Um ano depois Brandt recebeu o pPêmio Nobel da Paz

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