Sexta- feira no Chambaril

Sexta-feira é dia. Chego boquinha da noite no bar Chambaril ali perto de Neópolis. Os amigos demoram e leio a Revista Continente multicultural, que acabo de receber via correio. No bar todos se conhecem. Chega um rapaz casado como uma equatoriana e cumprimenta a todos em cada mesa. De estranho só aquele homem sozinho, lendo. Aquilo chamava a atenção de todos. O rapaz inquieto com aquela cena vem na mesa conversar. Pergunta o que eu estava lendo e de onde eu era.

Já estava na segunda cerveja e com um caldo de mocotó para forrar. Os amigos ainda não haviam chegado. Entre um olhar na revista e as ouças atentas, gosto de ouvir conversas de bar. Presto atenção no tira-gosto mais solicitado: Bolinho de Bacalhau. Já sei. Logo que os amigos chegarem mando vir uma porção

De repente o bar entra em polvorosa. Uma discussão do rapaz com um outro que não o cumprimentou. E o rapaz calmo e alegre virou uma fera. Que não era cachorro para ser tratado daquela forma. Todos tentavam acalmá-lo. E nada. O rapaz mandou o ex-militar se retirar do recinto. E brabo. Todos ali se conheciam. Um rapaz forte ficou em pé e eu no meio sem tomar partido, lendo. O irmão do rapaz de boné disse que com ele era no tiro. Danou-se. O Garçon vem falar comigo e diz que nunca tinha acontecido aquilo. Para eu não me assustar e vir outras vezes.

Já estou pronto para sair, quando chega um amigo Acompanhado é diferente. Meu amigo conhece o bar e logo todos já me olham diferente – menos estranho. O irmão vem na nossa mesa e puxa conversa. Nessa quadra da noite chegam nossas amigas e o bar tem outro sabor e cor.

O irmão do rapaz tem 50 anos e é separado. Pergunta quais os bichos que gostam de areia. Digo Tatu. Ele insiste, quem mais: – mulher, responde. E sem que ninguém pergunte, ele justifica: Minha ex-mulher levou três terrenos que eu tinha.

Mudamos de mesa. Minha amiga não tem muita paciência. E ele com pouco tempo se deslocou para onde estávamos, trazendo garrafa, copo, olheiras e bafo. A conversa não estava muito animada. Morte e sepulturas perdidas. Retirada dos ossos para um outro local. E o cinquentão ouvindo. O pai tinha dito a ele para não beber só.

A conversa amenizou e ele ficando. Vez em quando interferia. Perguntou a profissão de cada um. Aí veio o carneiro, os bolinhos de carne de sol e bacalhau, deliciosos. Minha amiga gostou do garçon. A noite ficou com cara de sexta feira. O rapaz também veio na nossa mesa se desculpar e dizer que gostou muito de mim, lendo. Parecia alguém diferente.

O homem com quem ele discutiu foi embora. Ele disse é meu amigo. Amanhã- tenho certeza – seu filho vai vir na minha casa pedir desculpas. Sei não. Também não sei se voltarei naquele bar sozinho. Meu amigo gostou da equatoriana. E eu gostei da noite, apesar da discussão e da ameaça de bala.

Todos aqui têm mais de cinqüenta anos e isso não podia acontecer. A vida é muita curta, filosofava um dos habitues do bar. Um bar feito de caramanchões com bancos inteiros feitos de pau forte situado no meio de uma praça bem arborizada.

Moral da história: nunca deixe de apertar a mão ou cumprimentar uma pessoa, mesmo que seja sorridente e brincalhona.

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