Sexto Capítulo da nova edição do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes

SEIS

OS ANTIGOS CONTAVAM DA PRIMEIRA LEVA DE desgraçados que a bubônica despachara pro outro mundo. Começou sua matança na Serra do Livramento e escorregou pelos casebres do quilombo vindo cair sobre Jericó. Uns ventos estranhos passaram a soprar daquelas bandas com uma frequência assustadora. O povo dizia que a desgraça costumava viajar montada nesses ventos, por vezes em redemunhos. E sempre que uma ventania cobria a cidade de pó e cisco, a feira parava de ponta a ponta, sacudia as lonas e as latadas, fazia o sinal-da-cruz e prosseguia normalmente, como se nenhuma ameaça a rondasse pelas cercanias. Data dessa época o desaparecimento da moeda. Aceitavam-se tudo como forma de pagamento, menos dinheiro. Por mais novas que fossem as notas, ninguém queria pegar em “couro de rato”, tal era o medo do contágio.

A feira prosperava a olhos vistos, ignorando a peste que matava ao largo, e matava a pau, muito próximo, já ao alcance dos sentidos. Paraíso do escambo, a feira tornara-se o acontecimento semanal mais importante da região, porque era o ponto de confluência dos desejos de quem trazia o refugo, as sobras do que possuía, para as negociatas da troca. Tinha de tudo, tudo o que se prestasse aos mais estapafúrdios quereres: dos produtos raros e finos dos estrangeiros à carcaça do preá, do frasco de cheiro francês ao São Severino de madeira, à banha de raposa, galamarte, tabaqueiro, água benta e óleo de fígado de caboré.

Depois que escurecia e os feirantes desarmavam suas latadas e tendas, o pátio da feira dava lugar ao pastoril do velho Tião Nazário. Mas o avanço da bubônica terminou por jogar água fria na fervura das meninas. A platéia foi minguando à medida que minguava também a feira. De nada adiantou Tião Nazário mandar as pastorinhas encurtarem os seus vestidos. O medo ancestral da peste era maior do que a tara dos feirantes, maior do que a secura de ver os troncos de coxas das dançarinas. Aquele teria sido o primeiro pastoril que apareceu pelo sertão, mas nunca caiu no agrado da igreja, porque as dançarinas — contam os mais velhos — faziam tudo o que o Tião Nazário mandava. Dizem que quando as primeiras redes com os mortos da bubônica se enfileiraram no rumo do cemitério, Tião Nazário, num derradeiro e cruel apelo, foi visto segurando as pastorinhas quase nuas que dançavam para uma corja de negociantes bêbados e irresponsáveis. Eles não se continham e corriam até o tablado e enfiavam “couros de ratos” dentro dos corpetes das meninas, numa flagrante falta de respeito e humanidade.

O desaparecimento dos ciganos deu-se também por esse tempo. Eles chegavam à feira ao amanhecer, chacoalhando em lombos de jumentos lerdos e em burras estropiadas. Vinham com suas aves, bodes, porcos, macacos, papagaios, meninos e cachorros. E armavam sua tenda numa rapidez impressionante, só o tempo das mulheres se vestirem de cartomantes, de madames da quiromancia. Os clientes vinham de mãos estiradas, mas nunca vazias. E o gajão que mais prendas trouxesse era o de mais futuro, de linha da vida mais bem definida, de vida sem embaraço.

Enquanto as ciganas cuidavam do destino das criaturas, os maridos ciganos fechavam negócios no setor dos animais. “Dou dois jumentos inteiros nessa burra canindé!”. “O cachorro vai no rolo?”. “Pra que eu quero esse boca-preta?”. “Aceito o papagaio”. “Faça isso comigo não, sou seu louro, meu patrão!” E lá vinha mais troca-troca, muitas vezes de coisas sem futuro, mas negócio era negócio, a roda da fortuna tinha mesmo que rodar. E ofereciam diapasão, moto-contínuo e rabeca, apito de chamar anjo, realejo, escapulário e até farpas que eles juravam ser da cruz de Cristo. Com os ciganos se foram os arrieiros, propagandistas, trapaceiros, pedintes, cegos de guia, arruaceiros, viventes que davam vida à feira do “traz carne e leva fumo”, a feira do “toma o meu jumento e me passa o bacurim”, a feira do “se me deres o periquito eu facilito o zebescuefe”.

Princeza, que por quase cem anos ficou conhecida como a Babel do troca-troca, perdeu o seu reinado no dia em que a presidente da Irmandade dos Pobres de São Vicente andou de rua em rua procurando em vão alguém com coragem para ir botar a vela na mão de um empestado solitário que agonizava em seu casebre, na entrada da cidade. Era a doença batendo a aldrava, anunciando-se. O medo era tão grande que os sepultamentos ocorriam sem ninguém para acompanhar. As poucas pessoas que resistiam em ficar, sequer abriam as portas para ver as redes e os caixões passando. As pedras do calçamento e as ruas vazias testemunharam grandes enterros, funerais memoráveis que desceram pela Rua dos Arapapacas em direção ao cemitério velho. De vez em quando um homem solitário – rompendo a morrinha do tempo e rasgando o ar pesado que empestava tudo – descia com um caixão na cabeça, porque faltara a solidariedade de outras mãos para segurar nas alças e fazer ao defunto o derradeiro favor do mundo.

E de defunto em defunto, Princeza foi enchendo seu cemitério. A cor preta passou a ser a cor das ruas, por conta das pessoas enlutadas, zanzando cabisbaixas. Em todas as lojas os estoques de fazendas sumiram das prateleiras. E muitas famílias só conseguiram botar luto porque mandaram tingir suas vestimentas. Por muitos e muitos anos, os lajedos da Moça Branca ficaram tisnados de preto, revelando para as gerações futuras os vestígios da peste. Era ali onde as mulheres estendiam os panos depois de retirá-los dos imensos caldeirões ferventes.

Os irmãos da Juventude Franciscana e os abnegados membros da Ordem de São Vicente, lombrigas de velórios e acompanhantes oficiais de enterros e procissões, jamais foram vistos seguindo algum defunto que se sabia enrabado pela bubônica. Durante muito tempo não se viu um turíbulo a deitar incenso. E que falta ficou fazendo o estalar das matracas da Irmandade. Quando a bubônica fez o seu primeiro defunto, era a doença entrando pela porta da frente e as pessoas saindo pelos fundos, depois de apanharem apenas o necessário, o que podiam carregar. E lá se iam todos para o desterro, como se fossem retirantes, refugiados de guerra civil, de revolução. Dizem que o velho Tião Nazário, na pressa de partir, chegou a abandonar sua esposa moribunda. E assim aconteceu com muitos, que sequer fecharam as portas. Não precisava.

A extinção da feira de troca foi, a rigor, a primeira grande baixa da cidade. Ela se acabou definitivamente no primeiro Domingo de Ramos do século XIX, por decreto dos próprios feirantes, que ficaram perplexos e apavorados quando viram aquela infinidade de ratos abandonando as casas para morrerem às rumas no meio da rua. Foi a partir desse momento que eles desarmaram suas barracas, pegaram seus refugos e nunca mais retornaram. Os ratos saltavam para as ruas já triscados da doença. Eles atendiam a um apelo do instinto, ao mesmo tempo em que mandavam um recado para os habitantes de Princeza. Era chegada a hora de todos deixarem suas casas, fecharem a cidade e sacudirem a chave no mato.

A partir de então, a capoeira foi tomando conta das estradas e se metendo pelas ruas. Um abandono tão filho-da-mãe desabou sobre Princeza, que um dia, muitos anos depois, o cachorro de um caçador acuou a cidade. O caçador correu e se deparou com as casas dentro do mato, a maioria já com os telhados no chão, porque o madeirame de há muito que estava no bucho dos cupins, cupins que desfilavam pelas calçadas com seus filhos às costas, abrindo novas filiais, povoando colônias e mais colônias, desfrutando da mais inteira liberdade proporcionada pelo abandono. Trepadeiras e até mandacarus e facheiros se viravam como podiam por sobre as paredes e por cima das cumeeiras. Dizem que o caçador subiu numa árvore e espiou ao longo da rua principal toda encapoeirada e não viu um pé de pessoa, não escutou um bater de sino, só o trilar dos grilos e a farra das cigarras. O homem devia estar meio areado, tresvariando de febre, porque passou bem uma hora gritando: “Ô de casa?”, “Tem alguém aí?”, “Quem pode mais do que Deus?” Ninguém falou. Nenhuma alma do outro mundo respondeu ao seu requerimento. Então ele pegou a espingarda e deu um tiro para o alto. O estampido rasgou o silêncio e assustou macacos e saguis por cima dos telhados e pelas copas das árvores. E sem saber mais o que fazer, botou o bornal a tiracolo, chamou o cachorro e correu até Patos das Espinharas para comunicar sua incrível descoberta às autoridades.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Danclads Andrade 11 de setembro de 2011 18:30

    Anchieta, eu assino o que você diz. Ô texto bom!!!!

  2. Anchieta Rolim 10 de setembro de 2011 19:17

    Eita cabra bom da peste, valeu!

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