Sgt. Presley e o clube dos corações solitários

Biografia bem legal esta “Elvis Presley e a Revolução do Rock”, do francês Sebastian Danchin. Centrada nos primeiros anos de carreira do Rei, ela é capaz de destruir parte do mito, para muito fã desavisado.

Em 1958, no Sul dos Estados Unidos, a popularidade e adoração por Elvis Presley rivalizava com a de Jesus Cristo. Nos últimos dois anos, um fenômeno sem precedentes na indústria cultural tinha dado sentido à vida de milhões de jovens e diluía resquícios da herança europeia nos rincões miseráveis de Estados como Georgia, Louisiana e Mississipi.

Desde a vitória na Guerra da Secessão, o Norte, rico e europeizado, determinava a moral e os costumes nacionais. Era uma elite puritana e ‘iluminista’, que desprezava e perseguia um representante do poor white trash (a gentalha branca), cujo abuso da sensualidade e da música negra, diziam, contaminava a juventude americana.

Pressionado pela mãe, que gostaria de vê-lo casado com uma namora local; boicotado por rádios e, sobretudo, vítima de parlamentares conservadores que empreendiam uma caçada frenética para reduzir sua influência, Elvis foi convencido pelo empresário a se apresentar ao serviço militar e vender uma imagem patriótica – até ser promovido a sargento.

“Elvis morreu no dia em que partiu para o exército”, disse, anos depois, o fã John Lennon, ele mesmo um oponente à notoriedade do filho de Deus. Foram 18 meses na Alemanha que bagunçaram para sempre sua carreira.

Ainda que no retorno o sucesso comercial tenha continuado, o vício em anfetaminas e a depressão do isolamento foram fatais.

Para os fãs, nada disso é novidade. Mas o que a biografia “Elvis Presley e a Revolução do Rock”, do francês Sebastian Danchin, acrescenta é a eclosão do cantor em um meio social segregado e os efeitos da administração maléfica e gananciosa do Coronel Parker (empresário), autorizada pela personalidade fraca do cantor.

Armas, hiperconsumismo e mulheres jovens 

Se estivesse vivo, Elvis teria chance enorme de ser garoto-propaganda de Donald Trump

Danchin revela a transfusão entre Elvis e a sociedade que o produziu, sem deixar de lado fraquezas, escolhas erradas e o mau-caratismo.

Desde a predileção por mulheres jovens; da megalomania consumista (que de uma só vez, comprou 14 limusines); do visual kitsch; da mania por armas e cavalos; até a débâcle à base de calmantes, estimulantes e emagrecedores, o calvário do Rei do Rock and Roll é narrado em consonância com o lado artístico. 

Para o lendário crítico Lester Bangs, o “pobre garoto sulista burro” foi testado como homem no Exército – e reprovado. Eram duas horas diárias em que bancava o motorista de caminhão, e todo o restante de ócio em um país estranho.

Isso meses após a morte da mãe, sua base emocional – o cantor dormia na cama com Gladys até os 19 anos.

O fim da relação quase incestuosa entre mãe e filho deu início a uma tortura psicológica que Elvis carregaria até seus últimos dias.

A candura, a boa educação e a generosidade transmitida por Gladys confrontou com a alienação do status de símbolo sexual milionário, criando um homem inseguro, dependente de várias pessoas e da química.

Com isso, o caminho para picaretas foi aberto, em especial para o Coronel Parker. Nascido na Holanda, com sérios problemas na imigração, Coronel via naquele jovem hillbilly (camponês pobre das colinas) o crédito ilimitado para manter seu vício em jogos.

Após o retorno da Alemanha, percebe-se que Presley, praticamente, só faria shows em Las Vegas, templo cafona da jogatina que sugava milhões de dólares do empresário.

Parker focou a carreira de Elvis no cinema, nos anos 1960, ávido pela grana de Hollywood. Mas ao ganhar rios de dinheiro e torná-lo famoso mundialmente, bloqueou a criatividade musical, agora restrita a especiais natalinos, gravações ao vivo ou baladas duvidosas.

Só no final da década, a primeira rebelião do cantor contra o empresário gerou o álbum “How great Thou Art”, um retorno às raízes country e rhythm and blues de enorme sucesso.

A candura e a boa educação transmitida pela mãe confrontou com o status de símbolo sexual

Revolução do rock

Os 42 anos vividos por Elvis são repassados com profundidade, na biografia escrita por Sebastian Danchin. Do compacto inicial, gravado ao custo de U$3,98, à morte trágica e homeopática, a trajetória do ídolo é narrada com riqueza de informações sociais, políticas e antropológicas do Deep South, da música e do establishment americano.

A bipolaridade do Rei impressionava até os mais próximos. Em ensaios e apresentações, a alegria era total (mesmo com inúmeras quedas e mal-estares sofridos).

Recluso em Graceland, um maníaco-depressivo infantil aprisionava um séquito de babões e esposas/acompanhantes em sua roleta russa farmacológica.

“Elvis Presley e a Revolução do Rock” emociona nos trechos que envolvem Gladys, a mãe alcoólatra, e nos capítulos finais, com o cantor de fraudas e transtornado – a comicidade aparece no episódio do encontro com o presidente Nixon.

Completamente chapado e com três armas na cintura, foge de casa e perambula pelo país desesperado para se encontrar com o governante e pedir a nomeação de delegado do Federal Bureau Narcotics, prometendo uma cruzada antidrogas no show business.

Exposto aos excessos da fama, Elvis ruiu na impotência sexual e na misoginia, na dependência química e no endividamento. A neurose de angústia acabou a comunhão com a música, mas aumentou o mito.

“O que pensarão de mim quando eu morrer?”, perguntava toda noite para suas parceiras, obrigadas, como sua mãe, a colocá-lo para dormir.

Se estivesse vivo, seria menor, com chance enorme de ser garoto-propaganda de Donald Trump. Já nos anos 1970, fez tudo para destruir o simbolismo que conquistou e, em parte, conseguiu.

Veríamos um balaio de “It´s now or never”, caça-níqueis dos fanáticos. Mas, ao morrer na desgraça, melancólico, solitário, representou como ninguém poucos a catarse rock and roll.

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