Shakespeare e Cervantes – Bloom e a Angustia da Influencia

“A derrota de Dom Quixote é a derrota da fé num mundo sem fé”
Turgueniev

Caro Laurence,

Fico feliz com o seu retorno ao SP com um tema tão palpitante. Sem duvida nenhuma Shakespeare e Cervantes são os maiores escritores da literatura ocidental. Há muito se pensou que os dois faleceram no mesmo dia, 23 de abril de 1616. Por uma diferença nos calendários (justificativa em anexo) esse dia não é o mesmo. Será que Shakespeare leu o D. Quixote? Será que Harold Bloom, o criador da “Angustia da Influencia”, sabia do texto do grande escritor Turgueniev falando do mesmo assunto!

Leiamos o autor do Cânone Ocidental e o autor de Pais e Filhos

( … ) se o leitor me permite uma visão estritamente secular, Cervantes me parece o único rival possível de Shakespeare, na literatura de ficção produzida nos últimos quatro séculos. Dom Quixote é comparável a Hamlet, assim como Sancho Pança está à altura de Sir John Falstaff. Elogio maior que esse eu não poderia tecer. Contemporâneos perfeitos ( é possível que tenham morrido no mesmo dia ), Shakespeare, evidentemente leu Dom Quixote, mas é bastante improvável que Cervantes soubesse da existência de Shakespeare ( Bloom in “Como e porque ler” )

Leiamos, agora, trecho de uma conferencia pronunciada por Turgueniev em 1860.

A evocação evoca contente a imagem de dois poetas contemporâneos, que morreram no mesmo dia, o 26 de abril de 1616 ( sic) . É muito provável que Cervantes não soubesse nada de Shakespeare; mas o grande trágico, na sua casa de Stratford, para a qual se retirou três anos antes da sua morte, pode muito bem ter lido a célebre novela, que já havia sido traduzida ao inglês…. Que tema para um pintor que fosse ao mesmo tempo um pensador: Shakespeare lendo o Quixote! Turgueniev

Não sabemos se Bloom plagiou o texto do escritor Russo, divulgado muito antes. O texto do Turgueniev é mais preciso e elegante. O D. Quixote foi traduzido para o inglês logo após a sua publicação em 1605, e é possível que Shakespeare o conhecesse. Turgueniev, assim como Dostoievski, eram apaixonados pelo Quixote, como comprova as suas correspondências. È possível que Harold Bloom conhecesse a citação do Turgueniev. Como se vê, a Angustia da Influencia existe e Bloom pode ter sido traído por ela.

Shakespeare e Cervantes não faleceram no mesmo dia

Um motivo a mais para se escolher o dia 23 de abril como dia mundial do livro, é que nessa data também teria falecido William Shakespeare, em 1616. Nas biografias de Shakespeare, a data de sua morte é dada como tendo sido 23 de abril de 1616. A data coincidiria com a de falecimento de Cervantes se os calendários adotados pela Inglaterra e Espanha fossem os mesmos. Alguns países, como Portugal (Brasil) e Espanha, acataram o calendário Gregoriano quando de sua imposição no dia 5 de outubro ( calendário Juliano) e 15 de outubro de 1582 ( calendário Gregoriano), enquanto a Inglaterra só adotaria o novo calendário em 1752. Portanto, em 23 de abril de 1616, os calendários eram diferentes. Existe uma defasagem na contagem dos dias entre esses dois calendários, por isso a não coincidência. No calendário Gregoriano a data de falecimento de William Shakespeare é 03 de maio.

A reforma ao calendário Juliano, proposta no pontificado de Gregório XIII, deu origem ao calendário Gregoriano (ou Liliano). A reforma feita, sob a orientação do astrônomo Lélio em 1582, consistia de algumas mudanças, tais como: Fixar a data da Páscoa para que nunca acontecesse antes de 22 de março ou posterior a 25 de abril, omissão de 10 dias na contagem do mês de outubro de 1582 de modo a ajustar o equinócio de primavera com o dia 21 de março (hemisfério Norte), etc. O ano Juliano tem esse nome devido ao seu mentor Júlio César, com a participação do famoso astrólogo Sosígenes.

ANO JULIANO = 365, 25 dias (365 dias e 6 horas)

ANO GREGORIANO = 365, 2425 dias (365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos)

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Comments

There are 2 comments for this article
  1. Laurence Bittencourt 28 de Fevereiro de 2011 9:25

    Caro João, obrigado pelas suas palavras e grato ainda mais pela sua colaboração ao tema, que de fato, é palpitante.

    abç do amigo

    Laurence

  2. João da Mata
    João da Mata 2 de Março de 2011 15:07

    Reading made Don Quixote a gentleman. Believing what he read made him mad. — George Bernard Shaw

    Não compartilho dessa opinião do Shaw. Acreditar no que lia não fez D. Quixote um louco. O Quixote participa de um jogo assim como jogar faz parte da vida daqueles que acreditam num mundo melhor e mais ético.

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