Shakespeare em todos os motéis e bares

Por Raimundo Carrero
SUPLEMENTO PERNAMBUCO

“Quando me encontrava na metade do caminho de minha vida me vi perdido numa selva escura”
Dante

Não falo de Tarzan nem do Fantasma, nem da selva intrigante e intrigada, sombria, perigosa, cheia de bichos e de animais peçonhentos, cheia de armadilhas, mas desta outra selva, com muita coisa de Dante, igualmente intrigante e intrigada, perigosa, cheia de homens e mulheres, reis e rainhas, assassinos e assassinados, torturas e torturados, que se chama a Vida, povoada pela raça humana e do seu principal intérprete: Shakespeare, que morreu há 400 anos, em abril de 1616. São, portanto, mais 400 anos de vida. Sim, de vida, porque um artista não morre, perde o corpo, perde a forma física, deixa de representar, considerando que a vida é representação, mas permanece viva a sua alma, que é a sua obra, seu pensamento.

Todos os dias, todos os meses, todos os anos lemos novas traduções de Shakespeare, novas interpretações e novas montagens, como se ele estivesse vivo, novo e mais do que novo, renovado. Ora pop, ora tradicional, ora punk, ora religioso, ora materialista. Eis Shakespeare a todo instante. No tempo e para o tempo. Eterno. Toda as noites conversa com a plateia, conversa conosco. E o seu possível está nos jornais, nos blogues, nos sites, na televisão – “eus” na vida, na mais absoluta plenitude.

Por tudo isso é que o bardo inglês é chamado – Harold Bloom à frente – de “criador do humano”. Na sua obra, o homem está submetido aos conflitos de forma direta e imediata, sem restrições, sobretudo porque no palco as traições, as dores, as inimizades, as intrigas, os duelos se realizam de forma incisiva, corporificadas através de atores e atrizes diante dos olhos dos espectadores, sem mediação de narradores, ainda que eles não existam na contemporaneidade. É verdade que, em outros tempos, atores e atrizes assumiam papéis de narradores em substituição ao diretor e ao autor e até conversavam com a plateia, em reflexões e até em marcações de cena. Mas Shakespeare sempre foi direto e incisivo, com um texto de altíssima qualidade literária. De maneira que sempre influenciou muito os ficcionistas, em geral, e teatro não é literatura. É preciso destacar, porém, que a linguagem literária é muitíssimo diferente da linguagem teatral – que se aproxima muito do coloquial, pela sua natureza. Equívoco grave é tornar literária a linguagem teatral. Fica feia, ruim, artificial – sobretudo artificial.

Mesmo assim, quem não se lembra do monólogo de Hamlet, cujas primeiras palavras foram vulgarizadas, de tanto repetidas: “Ser ou não ser: eis a questão”. O cinema norte-americano repetiu-a até a exaustão, e os jornalistas panfletários e medíocres reescreviam em quase todos os artigos, para demonstrar algum tipo de erudição. E outra frase sua passou a ser repetida sempre pelos políticos e pelos colunistas políticos: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Suas frases, enfim, estão registradas em todos os lares – lar é uma coisa sempre muito feia -, em todos os motéis, em todos os bares, em todos os cadernos de adolescentes, em todos os livros, onde esteja se debatendo o ser humano. Por isso, não seria estranho dizer que Shakespeare tratou de tudo e de todos os temas e paixões. Nessa selva escura de sua obra o homem está sempre fraturado, em busca de unguentos e remédios, em meio a bruxas e feiticeiras, reis e sacerdotes.

Durante quase todo o século 20, Shakespeare era representado nos picadeiros dos teatros mambembes através da peça A Louca do Jardim, que é também uma versão popular e não menos mambembe de Otelo, que também tem sua outra versão erudita no clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Mas, afinal , quem é esse Shakespeare, que escreveu tanto e com tanto fervor? Um homem ou vários? Diretor, ator, teatrólogo? Mulher: esposa, irmã? Tudo bem, ele nasceu em Stratfort-Upon-Avon, em 23 de abril (morreu em outro 23 de abril), e imediatamente após a adolescência começou a escrever para o teatro, formou a sua própria companhia e passou a representar pela Inglaterra afora, em povoados, vilas e cidades. Depois de sua morte, os estudiosos duvidaram de que um homem, só um homem, pudesse exercer tantas atividades e em igual competência. Procuraram então discutir que não havia um só homem chamado Shakespeare, mas muitos. Outra linhagem de pesquisadores indicava que o autor das peças teatrais era, na verdade, uma irmã dele que trabalhava no grupo.

Uma coisa é definitiva – Shakespeare, homem, vários ou mulher, é alguém que vai além do gênio. Com uma força de trabalho imensa e com uma capacidade criadora além do humano.

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