Shosholoza

Por Arthur Dapieve
O GLOBO

Miriam Makeba não conseguira passar o som e hesitava antes de subir ao palco no Centro Internacional de Convenções da Cidade do Cabo. A produção até tentara esvaziar a sala, mas parte do público do show anterior não arredara a bunda dali com medo de não conseguir recuperar um dos 1.500 assentos. Era o meu caso.

Miriam Makeba não era apenas uma das maiores — talvez a maior — cantoras da África do Sul. Era também um símbolo da luta contra o racismo. Em 1960, o regime branco cancelara seu passaporte, impedindo-a de voltar de uma longa excursão para assistir ao funeral da mãe. Crime? Ter aparecido num documentário anti-apartheid.

Miriam Makeba não voltara a residir no país nem quando seu banimento fora suspenso, em 1990, e nem mesmo quando outro perseguido político, Nelson Mandela, havia sido eleito presidente, em 1994. Cada vez que ela retornava à África do Sul, portanto, havia uma comoção elétrica. Esta era uma dessas ocasiões, em abril de 2004.

Miriam Makeba demorava para aparecer, o que só multiplicava a ansiedade. Então, do fundo do auditório, uma voz masculina começou a entoar uma canção. Logo, todos os negros presentes — aproximadamente 75% da plateia, como na população — se juntaram num coro de pergunta e resposta. Eu estava sendo apresentado a “Shosholoza”.

Perguntei que música era aquela. Uma mulher branca explicou que a canção era um hino não oficial da África do Sul negra. Depois apurei que se tratava originalmente de um canto de trabalho dos mineiros da etnia Ndebele, do Zimbábue, submetidos a terríveis condições no país vizinho. “Shosholoza” quer dizer algo como “vá em frente”.

Escutar o auditório cantando à capela, espontaneamente, aquele brado de solidariedade, como se a sua voz coletiva se erguesse da própria terra, foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Diante daquilo, o show de Miriam Makeba foi quase anticlimático. A apresentação era parte do North Sea Jazz Festival, sediado na Holanda, mas que mantém filial na África do Sul. Se apresentavam naquela edição, entre outros, Cassandra Wilson, Al di Meola, Femi Kuti, Lou Donaldson e o nosso Azymuth, além de outra lenda sul-africana, o pianista Abdullah Ibrahim.

No “maior encontro da África”, comemoravam-se dez anos da eleição de Mandela à presidência e antecipava-se a iminente reeleição de seu sucessor, Thabo Mbeki, dali a dias. Mbeki renunciaria nove meses antes do final do mandato, em 2008, depois que seu próprio partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), retirou-lhe o apoio por abuso de poder. Makeba morreria também em 2008, aos 76 anos, do coração, na Itália, após um concerto em benefício do jornalista Roberto Saviano, autor de “Gomorra”.

Naquele momento, porém, tudo era festa na Cidade do Cabo. Eu viajara a convite do escritório de turismo sul-africano e da South African Airways, para cobrir o festival para o GLOBO e para o finado site NoMínimo (versão modesta e autoirônica do ainda mais finado NoPonto). Fazia parte do pacote um guia turístico à minha disposição nos três dias e meio de Cidade do Cabo. Para minha surpresa, era um argentino.

Depois de concluir o doutorado em Micropaleontologia em Londres, em 1976, Hugo Valicenti optara por um emprego no setor petrolífero da África do Sul. As opções eram ou retornar à Argentina dos militares ou vir trabalhar na Petrobras, de onde, temia, a Operação Condor poderia arrancá-lo. Instalado na Cidade do Cabo, jurara combater o apartheid. Adotara um garoto negro com problemas mentais. Servira como motorista ao CNA, que já criticava pesadamente, pelo hoje notório festim de corrupção. Ele me sacaneava, perguntando aos garçons se eu não era um negativo de Jacob Zuma.

Certa manhã chuvosa, impedidos de subir pelo teleférico até a Table Mountain, Hugo começou a inventar programas. Perguntou-me se eu topava ir a uma favela, Langa, conhecer um amigo músico dele. Calhou de eu conhecê-lo de nome: Dizu Plaatjies, fundador do grupo Amampondo, então em carreira solo. Ele estava na lista de CDs a comprar que eu levara. Conversamos sobre música sul-africana e brasileira na construção de alvenaria que Hugo chamava de “Casa Rosada”. Em Langa, cruzamos com meia-dúzia de procissões fúnebres. “Aids”, garantiu-me o guia, tristemente.

Algumas experiências são decisivas na vida. A viagem à África do Sul foi uma delas. Tudo me era estranho, mas ao mesmo tempo tudo me era familiar. Como escrevi na época, lá do outro lado do oceano eu enxerguei melhor o Brasil. Diante de um país que, com toda a simpatia do mundo, pelejava para esquecer e para fazer os visitantes esquecerem o apartheid, afinal entendi o quão nós somos racistas, de maneira diversa, “cordial”, mas ainda assim racistas — e entendi que é preciso lutar contra isso. Esta é minha dívida pessoal com a África do Sul de Nelson Mandela. “Shosholoza” veio-me imediatamente ao peito quando soube que ele não estava mais entre nós.

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