¿Sí se puede?

Este domingo, 20 de dezembro, é dia de eleições gerais na Espanha, país onde – de forma intermitente – vivi dois anos e meio e em que flutuam retalhos de minha juventude.

No momento em que escrevo, as pesquisas de boca de urna dão a vitória sem maioria parlamentar ao partido no poder, o direitista Partido Popular (PP), e o segundo lugar em número de votos, o que representaria a mais entusiasmante novidade na política europeia das últimas décadas, ao Podemos.

Se essa projeção se confirmar, pela primeira vez desde o fim do franquismo uma força política progressista surgida da auto-organização de cidadãs e cidadãos que tensiona – sem, porém, desestruturá-las ou superá-las plenamente – as formas clássicas da representação tem a oportunidade de romper com a carcomida bipolaridade partidária que vê alternar-se no poder, há décadas, o Partido Popular e seu histórico adversário-contracenante, o Partido Socialista Obrero Español (PSOE): dupla acomunada, pelos espanhóis críticos do sistema político vigente no país, sob a sigla PPSOE. O primeiro, uma direita neofranquista disfarçada de “centro-direita”, que nas últimas décadas hibridou sua herança histórica autoritária, censora e violenta com uma ideologia, um discurso e práticas políticas selvagemente neoliberais; o segundo, um partido “socialista” centralista e burocratizado que perdeu qualquer resquício de progressismo e está totalmente desconectado dos anseios das camadas populares, ambos responsáveis na última década pela reprodução e manutenção da ordem definida pelos mercados financeiros e materializada nas políticas de “austeridade” impostas ao país e à Europa inteira pela Troika Banco Central Europeu-Fundo Monetário Internacional-Comissão Europeia.

Amigas e amigos espanhóis e jornalistas, intelectuais e escritores do país ibérico que acompanho em redes sociais têm sentimentos diferentes a respeito do Podemos. Há quem defenda que represente uma efetiva renovação da maneira de conceber e praticar a política, tendo reformado a forma-partido a partir de um modelo assemblear regionalizado e “bairrizado” de tomada de decisões, a interconexão entre representantes e representados via redes digitais, etc. Há quem, em compensação, afirme que fez ressurgir os mecanismos clássicos – e apodrecidos – da representação com suas relações verticais, hierárquicas, etc. e que o espírito transformador do Movimento 15M de onde tinha emerso teria sido completamente reabsorvido pelo dispositivo do poder.

Seja como for, todas e todos concordam – com um maior ou menor grau de esperança e expectativa – que uma eventual vitória do Podemos representaria uma possibilidade de mudança (pequena ou grande, dependendo da visão de cada um/a sobre o fenômeno) na política, a economia, a sociedade e a cultura espanholas, assim como no cenário político europeu geral. De minha parte, torço para que assim seja. Aguardemos e observemos.

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