Silêncio do Tempo

Estou mudo agora.
Mudo, tudo fora.
Mudo, mundo dentro.
Não sei até quando a mudez será sempre.
Sei que a mudez,
às vezes,
é medo de gente,
medo do tempo,
uivos do vento.

Minha voz,
nem eu a ouço.
Forço-a como quem,
num pesadelo sem fim,
grita no escuro profundo,
buscando o rosto terno da mãe.

Ficarei assim, mudo,
enquanto tudo durar,
como algo que não se deve ver
nem acreditar.
Muito menos repetir,
com ato e voz.

Deixo de crer
e emudeço,
no tempo em que meu sonho
trava.

Quando o tempo abrir
e o arco-íris despontar,
quando um voo de pássaro
no céu,
uma vaga no mar,
uma folha seca de outono
cair sobre os meus olhos,
bailando, antes, lentamente,
no ar, dança/esperança,
então, não só os olhos abrirei.

Abrirei, lá, um sorriso,
o mais verdadeiro,
e minha voz, então, vibrará, forte,
entre milhões de outras,
nas únicas palavras,
aquelas que resisto dizer
agora.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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