Sim: Steve Jobs era um gênio

Por Pedro Dória
O GLOBO

RIO – Foi ampla a cobertura da morte de Steve Jobs. Em toda imprensa, Jobs foi enterrado com pompa. Aí veio o rebate. Uma torrente de pessoas que, no fim das contas, dizia algo simples: “Eu só ouvia falar dele de tempos em tempos, quando lançava um produto novo; devia ser talentoso em algo, gênio é demais.” Steve Jobs talvez não fosse boa pessoa. Mas era gênio. Para entender o porquê é preciso voltar à história dos computadores pessoais e do Vale do Silício.

Invenções não são inevitáveis. Não estava escrito que a indústria da tecnologia, em meados dos anos 1970, se concentraria no problema de levar computadores às pessoas. Apenas uma década antes, tanto nas universidades quanto na indústria, a maior parte dos cérebros estava dedicada ao problema da inteligência artificial. Queriam computadores que pensavam, não computadores que ajudavam a pensar.

A contracultura nascida nos arredores de São Francisco, onde fica o Vale, abriu espaço para que um grupo de amadores pensassem em computadores que expandiam a consciência. Eram jovens, um quê hippies, muitos haviam bebido no laboratório de Douglas Engelbart na Universidade de Stanford. Era um pioneiro que só seria reconhecido anos depois. Jobs fazia parte desta turma. E estes jovens desenharam os primeiros computadores pessoais longe das gingantes da informática que existiam então, a começar pela IBM.

Também não estava escrito em canto algum que computadores pessoais serviriam a pessoas sem grande capacidade técnica. Foi aí que apareceu o primeiro indício do brilhantismo de Steve Jobs. Computadores eram vendidos como kits para montar em casa. O Apple II vinha numa caixa de plástico, era ligar na tomada e usar. Não era elementar. Mas não exigia chave de fenda ou ferro de solda.

Fácil? O Macintosh, primeiro computador que teve Jobs como pai do início ao fim do processo, lançado em 1984, foi o primeiro computador de grande público com mouse, janelas e ícones. Não foi invenção dele. Nasceu de uma visita feita ao PARC, laboratório de desenvolvimento da Xerox. Os cientistas de lá criaram a interface gráfica.

O que poucos contam desta história é que a direção da Xerox não acreditava no que os cientistas do PARC criavam. À época, o laboratório tinha um dos piores índices de troca de funcionários do Vale. Até 25% dos engenheiros deixavam a empresa todos os anos. Entre 1982 e 83, vários foram para a Apple. Lá, alguém acreditava em sua visão de futuro.

O rumo da indústria não era a interface gráfica. A Microsoft demorou a investir pesadamente em ícones e janelas, as primeiras duas versões do Windows eram uma piada. O Mac foi um fracasso: era caro e, mesmo assim, saía deficitário da fábrica. Construir cada unidade era mais caro ainda. Mesmo com poucos compradores, ele deixou algo evidente para o público. Não é preciso memorizar uma penca de comandos digitados para usar computador. Há um jeito mais fácil.

Pois é: nem quem inventou a interface gráfica acreditava nela. Quem usa Windows e acha tudo muito natural, hoje, deve esta a Steve Jobs. E a web foi inventada num Next, computador criado por Jobs. Assim como a web com imagens, que popularizou a internet, surgiu porque o mouse ficou comum.

Não estava escrito, tampouco, que ouviríamos música em players digitais. Existiam vários no mercado, nenhum vendia. Eram complicados de usar e armazenavam pouco. Brinquedo de nicho. Quem decidiu inventar um que se transformaria em aparelho de massas foi Jobs. E, quando lançou o iPod, a recepção na imprensa foi terrível. Ninguém achou que iria emplacar. A Apple parecia se distrair da missão principal, seus computadores. Quando Steve Jobs disse que o aparelho era revolucionário, pôs-se na conta do exagero de quem quer vender. Pois vendeu: incríveis 376 mil unidades no primeiro ano, 937 mil no segundo, 4,4 milhões no terceiro. E 22,5 milhões no quarto.

No Brasil, não temos a loja de músicas dentro do software iTunes, que alimenta iPods, iPhones e iPads. Nossa legislação é complicada demais. Mas esta loja tão simples faz parte do cotidiano de milhões de pessoas no mundo. Na virada do século, a música era distribuída em sistemas de pirataria. A venda de CDs continua a despencar ano após ano. Teríamos, hoje, uma indústria fonográfica aos frangalhos. Mas, não. Gravadoras, estúdios de cinema e TV, até nós da imprensa, temos um modelo de negócios nascente.

Smartphone era Blackberry. Tela pequena porque o espaço do teclado é necessário. Alguns modelos se mostravam mais grossos para que o teclado físico escorregasse para debaixo do monitor. Este objeto de vidro e metal com telas amplas e brilhantes, que são players de áudio e vídeo e que encontramos com várias marcas e sistemas, vieram a partir do iPhone. São também mais simples do que um Blackberry.

Quem passa o dia conectado à internet pelo Windows, ouve música num player Zune da Microsoft, fala ao telefone via celular Android e não tem um único aparelho com a Apple em casa deve sua dieta cotidiana de informação e comunicação a Steve Jobs. Sem sua visão particular de como computadores deveriam ser e de como deveríamos interagir com a rede, o mundo seria outro. Porque os caminhos da indústria, antes de sua intervenção em cada um destes momentos, era outro. Ele inventou o momento em que vivemos. E este momento é muito diferente de como o mundo era apenas dez anos atrás.

Steve Jobs era um tirano. Subordinados o confirmam em inúmeros depoimentos. Era zen budista. O estereótipo do Zen remete a um sujeito calmo, em transe. Mas esta estranha mistura japonesa do budismo indiano com o taoísmo chinês nada tem disso. A disciplina é dura, os mestres, impacientes com discípulos. Em seus últimos anos na Apple, o Vale vivia um boom. Salários crescentes, disputa por engenheiros. Apenas 3% dos funcionários da Apple a deixam por ano. É a menor média da região. Seu time acreditava em Steve Jobs.

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