Simone de Beauvoir, a escrava

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Encontro, em algumas anotações que fiz para uma conferência sobre Simone de Beauvoir _ realizada em 2009 na Maison de France, no Rio _ uma frase de Simone que continua a me espantar. Diz ela: “Eu sei que não podemos jamais nos conhecer, mas apenas nos narrar”. É todo um conceito clássico de “ficção” que desaba. A ficção não se passa só nos livros, não é matéria exclusiva dos escritores, ou da literatura. Ao contrário: é condição fundamental do existir.

Avanço nas anotações sobre Simone de Beauvoir: “Sou em mesma a matéria de meus livros”, ela diz, sem qualquer ilusão a respeito do que os psicólogos chamam de “criatividade”. Sim: o escritor cria, mas é sempre a partir de si. Cria, mas com os braços amarrados. Tem a boca amordaçada. Escreve a partir de um vazio que encontra em si mesmo, como ouvi, há poucos dias, em uma palestra da Semana Literária do SESC, em Curitiba, de minha amiga Eliane Brum. Cada vez mais sábia, a Eliane.

A ficção é (ou tenta ser) o preenchimento de uma falta que todos carregamos, diz Eliane. Em consequência, o outro com que o escritor se relaciona enquanto escreve não está fora dele, mas vem de seu interior. Ao escrever, o escritor se torna outro, e só assim, precariamente, preenche esse vazio que, a rigor, continua ali, apenas encoberto. A proliferação frenética e sempre insuficiente dos pseudônimos de Fernando Pessoa é prova suficiente disso.

Contudo, não é “qualquer coisa” que podemos inventar para preencher o vazio que nos leva a escrever. Agora, em vez de Simone, ouço Jean-Paul Sartre: “O homem só pode escolher aquilo que o empurra”. Ainda é algo que lhe vem desde fora _ algo que vem e o oprime, o atiça, o faz andar (escrever). O escritor escreve, ou é escrito? A escrita é, na verdade, o acolhimento e a tranhsformação de uma pressão. Sua incorporação, como energia, ao corpo físico. Seu devorar, seu mastigar (Oswald). Escritores devoram _ e depois regurgitam em seus textos _ os monstros que o empurram.

É por isso que todo escritor está sempre aquém de seus projetos. Deseja

escreve isso; escreve aquilo. Busca uma coisa; encontra outra coisa. Nenhum escritor é dono de seu texto e é da aceitação dessa condição dolorosa que ele (se) escreve. Ou simplesmente se copia? A literatura, me lembra Simone, também se constrói, como um edifício, uma ponte, ou uma prótese. É ficção, ou literatura não é. Mas não como um projeto, ou uma carpintaria (essência), e sim como algo que se impõe (existência).

Derrota dos escritores “cheios de si”: quando feita para valer, a literatura é um ato, e não um manto, ou uma coroa. É, talvez, uma travessia. O escritor arrasta seu corpo através das palavras. Elas o marcam, elas o ferem. Todo plano (projeto) se torna, então, um fracasso: a travessia do deserto (do vazio de que nos fala Eliane) não tem garantia alguma. Se a literatura é um ato, mais que um ofício, isso acontece porque o escritor escreve, antes de tudo, com seu instinto. Não tem certeza de que faz a coisa certa. Não chega a realizar o que deseja realizar. Como um homem que deseja construir uma casa, mas cava um poço.

Daí, nos recorda Simone de Beauvoir, a angústia ser inerente ao ato da escrita. O escritor, ao escrever, fracassa. Mas é ao fracassar que ele escreve! Escrever, portanto, é submeter-se. A quem? A si. Mas este “si” não é o Eu. Este “si” o que é então? Resume Simone de Beavoir: “Escrever é seguir o ditado de uma espécie de ditafone que temos dentro da cabeça”.

Destino trágico, mas feliz, do escritor: tornar-se um copista de si. Nenhuma essência, nenhum misticismo, nenhuma relação com a verdade, ou a sinceridade: simplesmente tomar posse, seja do que for (seja do que se é) e fazer algo isso. Deixar entrar esse outro que nos empurra. Eis o destino do escritor: submeter-se. O que, na trilha dos pensamentos de Simone, se parece com uma escravidão.

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