Simoninha: a herança de Wilson Simonal de volta ao palco do RN

A história de Wilson Simonal foi do luxo nas décadas de 60 e 70, ao lixo pela década de 80 adiante após acusação de delação à Ditadura. O cantor de voz grave e suingada vendia mais discos no Brasil do que os Beatles. A capa da revista Fatos e Fotos de 2 de janeiro de 1970 estampava: “Pelé e Simonal: a festa dos dois reis”. Mas o regime militar ideológico prendeu o rei negro nos porões do ostracismo por intermináveis três décadas. E Simonal caiu no limbo até sua morte por câncer em 25 de junho de 2000.

E por que o resgate dessa história 16 anos depois? Quando Simoninha subiu ao palco montado na Estação das Artes Eliseu Ventania, para a primeira edição do Fest Bossa & Jazz em Mossoró, na última quarta-feira, um pouco dessa história me veio à cabeça. Simonal tem forte ligação com o povo potiguar. Seus últimos anos de vida foram agraciados com a amizade e ajuda de João Santana, então apenas um herdeiro do primeiro supermercado de Natal e que se transformaria no redentor da autoestima do rei.

Simoninha fez show apenas razoável. Difícil se empolgar com uma plateia pouco interessada, bem diferente do segundo dia do evento em Mossoró. Ainda assim, o caçula de Simonal mostrou a herança vocal do pai. E pensei: se Simonal estivesse vivo, que oportunidade seria estar no palco em dos principais festivais de jazz do Brasil. João Santana ainda produziu alguns shows e comerciais de TV com Simonal em Natal. Ajudou como pode. Mas o fim foi triste, consumido pelo câncer e ainda marcado pela pecha injusta da delação à polícia política.

Tentei algumas palavras com Simoninha depois do show para falar de música, do festival e, principalmente, da relação dele e do pai com Natal. A intenção era uma entrevista mais robusta, mas o cantor pareceu-me apressado. Ainda partiria naquele dia para Natal e de lá para Europa. Segue abaixo o resultado da brevíssima conversa:

PARTICIPAÇÃO NO FEST E BOSSA
Foi um encontro com músicos maravilhosos, um clima harmonioso. Já conhecia o festival. O Fest Bossa já tem nome e adorei o convite. Não sei ao certo como se deu. Conheço a Liz Rosa (ajuda na produção no evento). E essa coisa de vir para Mossoró possibilita levar a música para outros destinos. E num momento complicado como esse do Brasil, manter um festival desse nível é muito bom… Jazz, bossa e blues. Cultura é isso. A identidade do brasileiro é ser multicultural.

HERANÇA VISÍVEL DO PAI
É natural. Veio junto desde que nasci. E não só pela genética, mas pela admiração e carinho que tenho pela figura do meu pai. E não só dele. Tem o Tim Maia, o Jorge Bem. Gente que está na minha música de alguma forma.

LEI ROUANET
Acho que precisava se mexer na coisa da fiscalização. As leis de incentivo são algo natural na cultura. Já me utilizei dos recursos da lei, meu trabalho foi feito, prestei todas as contas e tem aquela regra de não poder usar de novo a lei depois de certo período. Então acho que é algo bom, mas precisa ter melhor fiscalização para que tudo seja feito direito. É um mecanismo que movimenta o segmento.

LIGAÇÃO COM NATAL
Venho a Natal desde pequeno. Conheço bem a cidade. Até recebi um Prêmio de música recentemente aqui (o Prêmio Hangar). Enfim, tenho uma ligação sentimental com a cidade.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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