Simpatia pela vida, familiaridade com a morte: a arte narrativa de Thomas Mann

Por Marcus Mazzari
BLOG DA COMPANHIA

Num discurso comemorativo de seus cinquenta anos, Thomas Mann (1875 — 1955) exprimiu o desejo de que a posteridade visse sua obra como “simpática à vida, embora sabendo da morte”. Com o novo projeto editorial que a Companhia das Letras dedica ao mestre de Lübeck, o leitor brasileiro ganha excelente oportunidade de incursionar por esse mundo épico profundamente marcado pela experiência da morte, mas que também pode ser colocado sob o emblema de uma intuição que se apresenta a Hans Castorp, o “singelo herói” de A montanha mágica (que ganhará nova edição em 2016), no capítulo “Neve”: “Em consideração à bondade e ao amor, o homem não deve conceder à morte nenhum poder sobre seus pensamentos”.

Thomas Mann despertou cedo para a literatura — “Quem nasceu para urtiga, começa logo a queimar”, diz uma personagem do Doutor Fausto ao jovem Adrian Leverkühn — e já aos catorze anos assinava uma carta atribuindo-se o epíteto “poeta lírico-dramático”. Cinco anos mais tarde vem o primeiro sucesso literário com uma novela de desilusão amorosa, cujo título Gefallen (“Decaída”) alude à “queda” de uma jovem atriz na prostituição. Dois anos depois surge outra extraordinária narrativa, “O pequeno senhor Friedmann”, e até o final da vida Mann produzirá dezenas de contos e novelas, incluindo-se obras-primas de excepcional nível, como A morte em Veneza e Tonio Kröger. De sua pena originaram-se também romances mais “leves”: Carlota em Weimar (1939), ficcionalização de um encontro tardio de Goethe com sua paixão de juventude, ou O eleito (1951), em que o próprio “espírito da narração” conta a história do papa Gregório, espécie de Édipo cristão que ascende à condição de santo.

Contudo, Thomas Mann entrou para a história da literatura mundial associado sobretudo a romances de larguíssimo fôlego épico, narrados com ironia e num tom para o qual ele mesmo cunhou a expressão “evocação sussurrante do imperfeito” (referência ao aspecto verbal do “era uma vez…”). Essa tendência impõe-se com seu primeiro romance, Os Buddenbrooks, obra tanto mais espantosa se considerarmos que foi elaborada entre os 22 e 25 anos de idade. Apoiando-se em larga escala na história da própria família, o jovem escritor narra ao longo de centenas de páginas, no espaço temporal de 1835 a 1877, a decadência de uma venerável casa burguesa no norte da Alemanha, a qual se extingue com a morte do menino Hanno, cujo temperamento musical vai enfraquecendo a vontade de viver até o ponto em que ele se deixa levar pelo tifo.

Foi com Os Buddenbrooks que a academia sueca fundamentou em 1929 a outorga do prêmio Nobel de literatura a Thomas Mann, num faux pas até hoje escandaloso, já que cinco anos antes viera a lume A montanha mágica, “romance gigantesco, fruto de muitos anos de luta com a forma e a ideia” — conforme assinalou Anatol Rosenfeld num de seus excelentes estudos sobre o escritor —, “uma das mais maravilhosas criações da literatura mundial do século XX, inesgotável em sua multiplicidade e impenetrável em sua profundidade”. No sanatório suíço de Davos, onde os ritmos da vida na “planície” e o próprio tempo ingressam em outra dimensão, Mann constrói o espaço mágico em que Hans Castorp, “filho enfermiço da vida”, passa sete anos (agosto de 1907 — agosto de 1914), articulando-se assim, nos sete capítulos do romance, a densa simbologia numérica que se repetirá na tetralogia José e seus irmãos, publicada entre 1933 e 1943.

Concluído esse ciclo em torno da história bíblica (projeto que já havia sido acalentado pelo próprio Goethe), tem início o trabalho do Doutor Fausto, monumental romance que se debruça sobre o período nacional-socialista na Alemanha e que o próprio autor chamou de “sua obra mais selvagem”. Por “selvagem” pode-se entender “demoníaco”, pois nessa ficção o diabo impõe presença num longo capítulo (XXV) que intensifica ao máximo a ousadia que presidiu à construção de sua perspectiva narrativa e dimensão temporal.

O derradeiro esforço artístico de Thomas Mann foi consagrado a um projeto iniciado ainda antes da Primeira Guerra e que a morte em 12 de agosto de 1955 o impediu de concluir: o romance picaresco As confissões do Impostor Felix Krull, que, a despeito de seu caráter fragmentário, é considerado por Anatol Rosenfeld uma obra-chave para a compreensão de toda a produção desse grande narrador de Lübeck, mas com raízes que remontam a Paraty, terra natal de sua mãe Julia da Silva Bruhns. E apenas catorze dias após a morte do escritor, o Rio de Janeiro prestava-lhe homenagem por meio de uma belíssima conferência proferida pelo jornalista Ernst Feder, refugiado do nazismo que se constituiu em eminente figura, ao lado de Rosenfeld e do tradutor Herbert Caro, na recepção desse prodigioso mundo épico no Brasil. “E assim Thomas Mann, em cuja obra a morte desempenha papel tão relevante, despediu-se de nós com um sorriso nos lábios”, observa Feder em alusão ao Felix Krull, “paródia ao romance de formação alemão que não poupa nem o próprio autor e nem sua arte narrativa — romance picaresco de uma leveza como não a conhecem a literatura alemã e mesmo a literatura espanhola”.

* * *

A MORTE EM VENEZA & TONIO KRÖGER
Sinopse: A morte em Veneza (1912), aqui na tradução de Herbert Caro, é uma das novelas exemplares da moderna literatura ocidental. A história do escritor Gustav von Aschenbach, que viaja a Veneza para descansar e lá se vê hipnotizado pela beleza do jovem polonês Tadzio, mais tarde daria origem ao notável filme homônimo do diretor italiano Luchino Visconti, de 1971. O volume traz ainda Tonio Kröger, narrativa de 1903 que Thomas Mann declarava ser uma de suas favoritas. A novela tem diversos traços autobiográficos e está centrada na relação entre artista e sociedade, um tema muito caro à obra de ficção do escritor, sobretudo nos primeiros trabalhos. A nova tradução é de Mario Luiz Frungillo.

DOUTOR FAUSTO
Sinopse: Último grande romance de Thomas Mann, Doutor Fausto foi publicado em 1947. O escritor fez uma releitura moderna da lenda de Fausto, na qual a Alemanha trava um pacto com o demônio — uma brilhante alegoria à ascensão do Terceiro Reich e à renúncia do país a sua própria humanidade. O protagonista é o compositor Adrian Leverkühn, um gênio isolado da cultura alemã, que cria uma música radicalmente nova e balança as estruturas da cena artística da época. Em troca de 24 anos de verve musical sem paralelo, ele entrega sua alma e a capacidade de amar as pessoas. Mann faz uma meditação profunda sobre a identidade alemã e as terríveis responsabilidades de um artista verdadeiro.

As novas edições de A morte em Veneza & Tonio Kröger e Doutor Fausto já estão nas livrarias.

* * * * *

Marcus Mazzari é professor de teoria literária na Universidade de São Paulo. Graduado em Letras e mestre em Língua e Literatura Alemã pela mesma universidade, apresentou sua tese de doutorado em Germanística pela Universidade Livre de Berlim e pós-doutorado na USP. Traduziu, entre outros, Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação (Editora 34/Duas Cidades, 2002), de Walter Benjamin, A história maravilhosa de Peter Schlemihl (Estação Liberdade, 2003), de Adelbert von Chamisso, e Selma, de Jutta Bauer (Cosac Naify, 2007). Além de vasta experiência como tradutor, é autor de Romance de formação em perspectiva histórica (Ateliê Editorial, 1999) e escreveu apresentação, comentários e notas para Fausto — uma tragédia, traduzido por Jenny Klabin Segall (Editora 34, 2004). É coordenador editorial da coleção Thomas Mann, publicada pela Companhia das Letras.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP