Simulacros

Já perceberam que vivemos como se esperássemos algo extraordinário? Como se na hora do assalto a polícia vai fazer o seu trabalho e que ao sermos vítimas de qualquer crime a Justiça não falhará? Estamos sempre pensando no que faremos com o prêmio da Mega-Sena, mesmo sem nunca jogar, ou como nos comportaremos nos programas de auditório quando formos famosos. Quando pensamos assim, criamos uma hiper-realidade, um simulacro, um mundo paralelo onde as ações são criadas por nossas vontades e desejos.

A discussão sobre simulacro nos leva a Nietzsche e a sua “Vontade de Poder” que, de modo geral, sugere ao homem que se distancie da metafísica, e reconhecendo-se como parte desta matéria, tenha mais chances de domínio sobre o universo. Essa teoria se baseia em duas proposições: que o total de força que existe no universo é determinada, não infinita, e que o tempo é infinito e, antes deste momento, houve uma infinitude de tempo.

Simular um mundo paralelo que nos remeta à tranquilidade do nosso poder subjetivo não é ruim, o problema é quando usamos esse mecanismo como subterfúgio para não enfrentar a realidade. Geralmente, nos tornamos dependentes de uma simulação e, do nada, achamos que temos razão numa série de coisas.

Fugir desse fingimento não é apenas entender que não somos o centro do mundo, mas também lembrarmos que ninguém o é. Fazemos parte de um contexto e, teoricamente, temos os mesmos direitos dos outros. Por isso, agir com razão e racionalidade significa livrar-se dos arremedos que a mente cria para nos proteger de nossas fraquezas. Conhecer o mundo em que vivemos e os contratos que nos guiam não serve apenas para afastar nossos medos, mas, principalmente, para definir o tipo de sociedade na qual queremos estar inseridos.

É preciso nos dar conta que não vivemos numa ficção científica. Fendas não se abrirão para que delas saiam defensores e justiceiros, fama e verdade. O mundo é real e tão duro para nós quanto para o inseto que matamos sem perceber. Se não assumimos nossa guerra, seremos vencidos pelos piores guerreiros e nos manteremos na vala comum das estatísticas.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Regiane de Paiva 8 de dezembro de 2011 17:39

    Acredito que a nossa sociedade está submersa no simulacro de cada dia. Bem abordado pelo seu consciente literário. A racionalidade tem perdido suas forças, de fato, e isso tem nos levado a uma fraqueza generalizada. E quando vc fala de Nietzsche, percebo o quanto ele me é um mal necessário, rs.
    Simulacro: imagem, cópia, reprodução imperfeita. Sua abordagem sobre este tema é pertinente: ” o problema é quando usamos esse mecanismo como subterfúgio para não enfrentar a realidade”. Incluiria também: como subterfúgio para não enfrentarmos a nós mesmos. Triste constatação.
    Nas relações afetivas, o simulacro compõe a dose de infelicidade. Sempre que escuto essa palavra, querido, me recordo de um trecho do poema de Benedetti:

    “Mi táctica es ser franco
    Y saber que sos franca
    Y que no nos vendamos simulacros
    Para que entre los dos
    No haya telón ni abismos”

    Que essa seja a nossa estrofe e nossa rima! Bjs!

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