Sísifa Estética Cangaceira

Por Marcos Cavalcanti

Acabo de ver a peça “Sua Incelença – Ricardo III”, do Clowns de Shakespeare, que você comentou e recomendou aqui, caro Tácito. Assisti-a juntamente com uma multidão que foi ao largo da Igreja Matriz de Santa Rita de Cássia, neste 30 de novembro, dia em que a cidade completa 96 aniversários.

Para ser mais exato, infelizmente vi apenas parte dela, porque estava em outro evento digno de nota, que foi a terceira edição de um concurso de recital de poesia organizado pela Casa de Cultura – Palácio Inharé. Incumbiram-me de ser um dos jurados da mesa que avaliou a participação dos 19 concorrentes desta edição; entre eles, jovens de pouco mais de 12 anos e senhoras quase nonagenárias.

Fiquei muito feliz com o que vi e ouvi, principalmente porque a maior parte dos poemas declamados eram autorais e muitos dos participantes, alunos do projeto do Teatro Arte Viva, que se mostraram bons intérpretes. Guardadas as devidas proporções, foi inevitável não recordar dos d ois segundos lugares consecutivos que obtive na recitada do Recife, organizada pelos amigos poetas Ivan Marinho e Cida Pedrosa.

Voltando à peça, não pude deixar de observar que um dos personagens encarnava um cangaceiro, por sobrenome Jararaca (o primeiro nome me escapou da memória). O figurino de Jararaca estava como manda o figurino, acrescido de uma calça colorida que lhe dava o devido tom de Clowns. Na cabeça, um chapéu de couro ornado com três estrelas reluzentes. Era a estética do cangaço fincando pé e mostrando suas marcas, bem ali, na minha frente, como a me dizer: estou aqui, viva e bem presente num clássico inglês, na releitura de um dos mais importantes grupos teatrais do estado.

Claro que era só mais um exemplo dos tantos em que ela se insere cotidianamente, sobretudo no Nordeste brasileiro. Toda estética forte se refaz, se reproduz, se reinventa porque permanece para sempre no imaginário dos artistas, que a exemplo do Clowns, transforma em verdadeira poesia (destituída de qualquer suposta carga maléfica, ou assim percebida apenas por olhos malévolos ou anti-estéticos).

Outros elementos próprios de uma estética do sertão compõem não só o cenário da peça, como os lampiões a gás, armas de bambu, escudos de jucá, cabaças-cabeças, cartucheiras, sandálias de couro, mas também presentes na própria narrativa, com a linguagem erudita dialogando com a linguagem ou sotaque sertanejo. Bonito ouvir os agouros que prenunciam a morte de Henrique, seguida dos cantos de incelência.

O Clowns é um orgulho para todos nós e Santa Cruz, presenteada que foi com o espetáculo, agradece o fato de ter sido a primeira cidade, depois de Natal, a ver o magnífico trabalho, já destacado por você Tácito, deste grupo que é pura poesia em cena. Aplaudidos de pé.

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