Smart curation: entre algoritmos e crítica

Frédéric-Martel
Francês Frédéric C. Martel é jornalista, escritor e pesquisador, com trabalhos importantes sobre cultura global, a história dos homossexuais na França desde 1968 e os negros da América; seus nove livros são fruto de estudos em filosofia, ciências sociais e direito

O livro Smart: o que você não sabe sobre a internet, do pesquisador Frédéric Martel complementa a tese antes apresentada no título Mainstream: a guerra global das mídias e da cultura.

Ambos tratam, basicamente, das mudanças tecnológicas e socioeconômicas em curso, que incidem na cultura midiática.

Lançados no Brasil pela editora Civilização Brasileira, eles apresentam reflexões sobre a cultura do entretenimento e pormenores dos negócios das indústrias criativas, como a profissionalização das artes e do lazer, em um mundo supostamente globalizado, mas determinado por territorialidades nos serviços culturais.

A questão terminológica, aspecto que Giorgio Agamben ressaltou ser fundamental na filosofia, como o “momento poético do pensamento”, é também relevante para compreensão das ideias de Martel.

A começar pela noção de “produtos” culturais derivados das mídias: livros, filmes, músicas, representantes maiores dessa espécie.

O pesquisador descreve a noção de “serviços” culturais, isto é, algo a que se tem acesso e não é exatamente possuído, tendo em vista que antes de a internet estabelecer novos modos de consumo por meio da tecnologia streaming e pacotes de assinatura, os produtos eram embalados em sua materialidade com valor de mercado e práticas diferenciadas.

Hoje, discos, DVD’s e livros impressos são objetos de fetiche – na verdade nunca deixaram de ser.

Entretanto, começaram a apontar seu lugar museológico.

Deixamos, portanto, um momento de consumo de bens culturais para a evolução industrial dos serviços culturais.

Frédéric Martel.Smart_o que você não sabe sobre a internetEsta terminologia dos “serviços” na cultura, ao invés de produtos, sugere algo tão abrangente que pode ir desde o processo de financiamento coletivo de artistas, passando pela venda de toques de música para smartphones, e contratos entre profissionais, até a entrega aparentemente ilimitada de fluxos e assinaturas do que anteriormente consumíamos como bens/produtos culturais.

O Download pago, ou apropriado por meios enviesados, faz tempo que alcançou seus limites, já é algo do passado.

Se o quarteto (1) leitor de arquivos, (2) modos de codificação, (3) plataformas de distribuição/armazenamento e a (4) venda propriamente dita foi revolucionário como invenção no terreno da música, hoje perdeu fôlego no mercado digital.

Mas tudo mudou, não apenas a estagnação de algo com valor de posse na cultura.

Vivemos à abundância do modelo rodízio, tudo o que se consegue consumir por um preço fixo, diante da oferta cultural.

Por isso, as ideias espertas de Martel são imprescindíveis para interessados no rumo da cultura e do mercado de entretenimento.

Além de ótimas sacadas, o professor e jornalista faz uma pesquisa de campo sobre a condição cultural geopolítica – minha reflexão aqui apenas esboça uma particularidade sobre o modo como nos aproximamos da oferta desses “produtos”.

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Frédéric pesquisou cinco anos, viajou por 30 países de cinco continentes e fez mais de 1.200 entrevistas com intelectuais, artistas e agentes culturais para escrever “Mainstream”, focado na guerra global das mídias (tema aprofundado em Smart); ele mostra como se produz um best seller, um hit da música pop ou um blockbuster do cinema

Tome-se como paradigma dessas mudanças culturais apresentadas pelo francês a expressão “Smart Curation”, para pensar na ideia de recomendação cultural, antes um predicado do meio jornalístico e agora em crise, acrescido pelo modelo dos algoritmos que a tudo determinam na internet.

Didaticamente, o termo smart refere-se aos programas que leem algoritmos (leiam os robôs do Google, somados ao curation) o princípio da apreciação e do comentário singular, termo historicamente constituído numa relação elitista para nomear o que entendemos por curadoria, que institucionalmente conserva ou valida e apresenta obras culturais e artísticas.

É pertinente relativizar a ideia do famigerado boca-a-boca, que sempre foi um interesse genuíno da recomendação não profissional, para alcançar a repercussão e consequente sucesso da obra diante de sua recepção.

Pois falar do que é realmente bom e agrada às pessoas, convenhamos, além de ser um ótimo cimento social para manter boas relações, é um deleite nos diálogos em qualquer lugar.

Neste momento, surge um misto de recomendação e algoritmos que estabelecem um grau zero para a crítica.

A ideia de avaliação profissional e recomendação de uma obra artística e entretenimento não desapareceu, embora conviva com a proliferação de opiniões que abalaram o modelo preponderante no século XX.

É fato: assim como a instituição do jornalismo foi abalada, por conseguinte os cadernos e suplementos da crítica cultural diminuíram ao ponto da quase extinção, dos próprios jornais, revistas e profissionais.

Apesar do reconhecimento de uma etapa de transição para o meio.

A crítica especializada favoreceu a educação estética de leitores, diletantes, profissionais e espectadores para o consumo cultural.

A história recente mostra que a crítica tornou-se mais amadora e menos considerável, porém, mais imediatista e curta em sua forma.

O diálogo aberto por essa atividade ensina o que ver de bom em um produto ruim e descobrir o que há de ruim em uma boa obra.

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Ilustração: Joey Guidone

O conceito de crítica tem sua especificidade: a sistematização do processo de apreciação/avaliação e um ato de criação subjetiva diante das obras.

Se qualquer indivíduo pode ser um crítico, o criticismo se tornou mais democrático? Mesmo sem institucionalização ou experiência profissional?

Por isso pensamos na proposta de “smart curation” apresentada por Martel em proveito da pluralidade de recomendações para a infinidade de gostos na internet regida pela matemática dos algoritmos mais do que pela noção profissional da crítica, que servia como um filtro.

Atualmente, em sua maioria, os filtros são determinados por máquinas que fazem triagens ao gosto dos indivíduos, prescrito por cliques e curtidas.

Com a percepção do indivíduo que consome aquilo que deseja, os produtos são formatados e oferecidos de forma pertinente à demanda atual.

O que prevalece como crítica em termos de escrita na atualidade é prescrição, com indicativos breves que mais parecem slogans publicitários.

Em contraponto à exceção cultural do mainstream, como um princípio da crítica de outrora, principalmente a parte que zela pelas obras que passam abaixo dos radares do senso comum, mesmo o estabelecido por meio dos cânones institucionalizados, temos agora a recomendação personalizada.

Fecha-se a bolha dos nichos culturais.

Essa batalha da guerra cultural de ofertas determinadas pelas recomendações programadas em vez da figura do já saudoso e pomposo crítico cultural está somente no começo.

Parece cada vez mais difícil para o público deparar-se com imprevistos e surpresas na oferta de cultura.

Vive-se o afã da não escolha, velhas dicotomias são repaginadas, erudito e popular, clássico e moderno, categorias estanques são reelaboradas sem julgamento pela recomendação customizada.

Ilustracão de capa: Victor Kerlow

Professor de comunicação social. Tenho maior interesse em cinema, cinefilia, crítica cultural, literatura e séries de tevê. Meus estudos são relacionados às convergências midiáticas, publicidade, artes e design. [ Ver todos os artigos ]

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