So falta a trilha sonora

Por Pablo Capistrano
http://www.pablocapistrano.com.br/

Às vezes eu tenho aquela sensação desconcertante que Deus é uma espécie de diretor de cinema. É possível que Ele tenha conseguido um roteiro do universo (alguns suspeitam que esse tal roteiro tenha sido escrito pelo Cão, mas não existem evidências suficientes para comprovar a afirmativa) e juntado recursos financeiros no vazio eterno sem limites para construir essa estranha narrativa que é a vida de cada um.

Tenho apenas duas reclamações em relação ao diretor desse filme. Uma é que raramente a trilha sonora funciona (nos melhores e piores momentos da minha vida eu sempre sonhei com a música certa, caindo do céu como uma chuva do Caju no começo do verão). Outra é que a gente sempre morre no final, sem ter tempo de ver subir os créditos para saber quem faz parte da equipe de apoio, e o nome verdadeiro dos personagens com quem a gente contracena.

Tenho certeza que nesse fim de semana, todo brasileiro que tem uma TV dentro de casa, partilhou comigo dessa estranha metafísica cinematográfica. As imagens da “guerra do Rio” pareciam ter sido ensaiadas na consciência nacional nos dois filmes da série Tropa de Elite, dirigidos pelo José Padilha.

A imagem do Wagner Moura (o desde já eterno capitão nascimento) entrando no restaurante para conversar com o personagem do secretário de segurança do Rio (ou coisa que o valha) e sendo aplaudido de pé pelos clientes, em Tropa de Elite 2, parece ter servido de mote para a cobertura da imprensa nacional.

Os militares, depois de quase trinta anos do fim do regime de 1964, voltavam a ser vistos como heróis da pátria e da liberdade. Sem querer cortar a onda da euforia cívica com a chegada do capitão nascimento ao noticiário nacional talvez seja importante pontuar duas coisas.

Primeiro: as operações do Rio não podem ser lidas como um “combate ao tráfico de drogas”. Não se combate uma indústria apelando apenas para operações militares. O tráfico de cocaína tem ramificações que ligam diversos setores pesados da economia mundial. Fábricas de armas, indústrias químicas, bancos que dão sustentação ao sistema financeiro internacional, proprietários de terra. A cocaína movimenta um volume imenso de dinheiro e é uma piada pensar que se pode acabar com um negócio tão lucrativo com ações militares. Walter Maierovitch, no último Globo News Painel, citando uma edição do The Observer de 22/12/2009 apontou para o fato de a ONU ter reconhecido que o sistema interbancário não havia quebrado completamente na última crise global devido ao dinheiro da criminalidade internacional.

Dinheiro é um troço que não tem cheiro e convencer “os homens de bem” que indiretamente lucram com o tráfico a reduzir seus lucros em prol do “bem estar” e da “saúde social” é tão ingênuo quanto achar que um capitalista faz sapatos por amor aos pés da humanidade.

Mais há outro ponto importante: não podemos mais sustentar a ideia do traficante como um Robin Wood dos morros. Durante um bom tempo alguns exegetas das ciências humanas defenderam uma visão romântica do “soldado do morro” semelhante aquela que posicionou Lampião como um herói dos oprimidos que lutava contra o poder cruel dos oligarcas sertanejos. As relações entre o Cangaço e poder político dos coronéis, hoje está mais do que equacionada pelos especialistas.

Os traficantes cariocas não são adeptos de nenhuma ideologia política, não atuam em nome da religião, da comunidade ou de um princípio metafísico de justiça. Como muitos dos velhos cangaceiros dos sertões, eles mantém relações estreitas com o mesmo sistema econômico e político que supostamente os oprime. Não são “protetores” da comunidade nem defensores dos interesses dos moradores da favela.

Seu impulso não é substancialmente diferente do impulso daqueles que lotam os salões dos shopping centers nessa época de décimo terceiro. Consumir, ganhar dinheiro, reproduzir na favela um pedaço do calçadão de Copacabana. Ter sexo, dinheiro, poder, prestigio social. Eles são tediosamente iguais a qualquer consumidor mediano em seus objetivos (são diferentes justamente nos métodos que usam).

A despeito dos esforços das redes de televisão em me convencer que a vida é um filme eu não sei mais qual é o gênero da película que nós brasileiros fazemos parte. Talvez seja uma tragédia, uma comédia farsesca, um grande épico de aventura ou quem sabe, apenas um velho e surrado filme de guerra. Talvez, se as reportagens tivessem trilha sonora a gente pudesse descobrir qual é a desse diretor que criou esse mundo paralelo chamado Brasil.

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