“Só sabe quem ‘conveve”

Ancoro no Bardallos. Yrahn Barreto é a atração da noite. Ele foi um dos vencedores do Prêmio Hangar deste ano. Contam-me depois. Bom cantor.  O bar de Lula Belmont tem promovido excelentes shows nas noites de sábado. Outro dia mesmo eu e Sérgio Vilar assistimos à apresentação de Caio Padilha. Não conhecia o trabalho de nenhum dos dois. Caio é filho do também cantor Almir Padilha. Pelo menos nessas duas vezes o público foi pequeno. Uma pena. O Bardallos é agradável e o preço é justo.

No dia da apresentação de Yrahn, eu encontro logo à entrada do bar um velho conhecido, cantor e compositor. Havia um tempão que não nos encontrávamos. Ele está puxando fogo. E reclama da vida sacrificada de artista. Da falta de apoio cultural. Diz que virou um sem teto. Que está “roendo”!

Já para o final do show Yrahn chama-o para uma canja. Ele toca umas três a quatro músicas. Estranha a guitarra de Yrahn. Que é meio esquisita mesmo. Sente alguma dificuldade para familiarizar-se com o instrumento e fala que “só sabe quem conveve”, (o erro é proposital). O comentário bem humorado parece ter menos a ver com a guitarra do que com sua aflitiva situação amorosa atual.

Eu lá no meu canto, encostado no balcão, fiquei pensando nessas coisas de “convevência”. Que já eram complicadas bem antes do sociólogo polonês Zygmunt Bauman criar sua teoria dos “amores líquidos” e levar muita gente a acreditar que as complicações nessa seara são recentes. Ora, a literatura registra esses dramas desde o princípio, veja o cú-de-burro que resultou a partir do triângulo amoroso Menelau-Helena-Páris.

Não disse ao velho amigo, mas deu vontade de dizer que convivência não é garantia de se conhecer ninguém. Paradoxalmente, às vezes só com o seu fim emergem certas facetas da personalidade, ou temperamento, da pessoa. Estranhei que o meu amigo, que já correu mundos e fundos e viveu tanta coisa, esperasse alguma gratidão ao fim da sua relação amorosa. Ele me conta que fazia tudo pela moça, chegou a dar-lhe 99%, (não sei como chegou a esse número), mas no final ela passou-lhe na cara o 1% que ele não pode ou quis atendê-la.

Comoveu-me sua ingenuidade, acreditar que em matéria de fim de caso exista, na maioria das situações, alguma forma de gratidão. Espero reencontrar meu amigo em breve, de preferência sóbrio, para saber o desfecho de sua “roedeira”. Se à ingratidão, “essa pantera”, juntou-se o ressentimento, esse Eresictão sem cabresto.

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