Sob o céu de Natal

Por Mário Gerson
NA GAZETA DO OESTE

Com imagens profundas que revelam uma identificação geográfica, mas não tiram o ar universal de seu texto, Demétrio Vieira Diniz começa com ‘o pé direito’ num gênero movediço e mutável como o conto

Foi Arthur Schopenhauer quem sentenciou, certa vez, acerca dos dois tipos de escritores de sua época: “Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos, ou fizeram experiências; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem, só por dinheiro”. Esta pequena sentença está contida num volume simpático, lançado há pouco tempo pela L&PM, em formato de bolso, com o sugestivo título de A Arte de Escrever.

Válida até hoje para muitos autores, esta pequena reflexão do ser escritor me coloca, agora, diante de um livro que se encaixa na primeira opção destacada por Schopenhauer: o seu autor escreveu em função de um assunto e teve, ao mesmo tempo, algumas experiências que estão nas entrelinhadas dos contos que compõem o livro Sob o Céu de Natal.

Lançado no dia 15 de março, na capital do Estado, o livro de Demétrio possui imagens profundas que revelam uma identificação geográfica, mas não tiram o ar universal de seu texto, num gênero difícil, que exige, acima de tudo, uma prática de síntese rara, porque necessita, ao mesmo tempo, de condensação de imagens e força nas escolhas de suas cenas e na transmissão de pensamentos.

Com selo da Editora Sarau das Letras, o livro de Demétrio Vieira Diniz (115 páginas) é um agradável encontro não apenas com um poeta por trás das histórias, mas também com um escritor que maneja a palavra de forma consciente, mesmo quando centraliza alguns acontecimentos em seu território familiar ou em lugares onde alguns futuros leitores jamais tiveram. Apesar dessa característica memorial e geograficamente localizada entre Alexandria, Mumbaça, Mossoró e mesmo Natal, Demétrio consegue a rara proeza de universalizar seus textos e disseminá-los de maneira tal que o leitor se sente presente e confiante em sua narrativa poética e encadeada por uma fluidez impressionante – mesmo aquele que nunca presenciou um pai furioso com a lâmina de sua faca na garganta de um filho ou um político com cabelo lambido e calças de linho.

Em suas 17 histórias, Sob o Céu de Natal evidencia um importante momento na carreira literária de Demétrio Vieira Diniz, poeta reconhecido pelos ótimos trabalhos já publicados, como os livros Ferrovia, Passarás e Haveres. Este último pode ter sido a porta aberta por Demétrio para a sua incursão pelo gênero conto. Alinhando a história de suas vivências pelo interior e fatos contatos pelos seus antepassados, este livro é mais que um retrato de alguém que viveu ou ouviu, representa, em sua totalidade, um belo exercício de escrita e de consciência literária.

A história que intitula a obra, por exemplo, revela a beleza de imagens e dramas que Sob o Céu de Natal possui. Maria Eugênia, a centenária que resolve dar cabo a sua vida, é uma das melhores personagens do volume, não somente pelo drama porque passa durante a narrativa, mas também pela forma com que encara a dura realidade da existência, decidindo-se por acabar de vez com seu dilema. “(…) Concluiu com amargor que nenhum ser humano merecia viver 100 anos. Eram tantos os sobressaltos, as humilhações, os desencontros e desperdícios de amor, que aos 80 o rosto de uma pessoa já parecia uma maleta amassada, se puindo e amarrada com barbante para não destripar. Chamou uma das empregadas e pediu que lhe comprasse um revólver para o vigia da casa”. (Sob o Céu de Natal, p.114). À noite, no entanto, a empre gada da centenária Maria Eugênia escuta o estampido e nada mais pode fazer.

Sob o Céu de Natal deixa-nos com a certeza que a máxima do escritor Julio Cortázar estava correta: “Um conto é uma verdadeira máquina literária de criar interesse. (…) O romance vence sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute”. (Do texto “Reflexões sobre as antigas reflexões sobre o conto”, de Luiz Bras, publicado no jornal Rascunho).

Com os dramas interiores de suas personagens, vivendo dilemas existenciais, algumas vezes tão intensos que chegam, por exemplo, a transformar em viúva a mulher de um homem vivo, Demétrio Vieira Diniz inscreve-se na história do conto potiguar como uma revelação, ao retratar o seu interior, a linguagem de seus pares, resgatando, assim, palavras e expressões que estão hoje caindo no esquecimento, mas que remetem a um tempo recente.

Estas 17 histórias representam a chegada de um autor consciente e que resolveu colocar em prática o que um de seus personagens acabou fazendo: começou a fantasiar, tendo certeza que era melhor do que “ficar nas recordações”.

Publicado no jornal GAZETA DO OESTE, caderno Expressão, p.3, 1º de abril de 2012.

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