Sob o Céu de Natal

TC

Após quatro livros de poesia, Demétrio Diniz lança no início do próximo ano o seu primeiro livro de contos, “Sob o Céu de Natal”.  Abaixo, publicamos o conto que dá título à obra. Nela, o autor enfoca ficcionalmente uma das figuras míticas de Natal nas décadas de 30 a 50, a viúva Machado. Nesse conto, Demétrio envereda por um universo diferente daquele já explorado em outros contos do livo (publicamos vários no SP), a vida na pequena cidade ou no meio rural, e parte para narrar acontecimentos passados na “grande cidade”.

Casarão na Cidade Alta, em Natal, onde viveu a “Viúva Machado”

Por Demétrio Diniz

Aos cem anos Maria Eugênia não aguentava mais descansar as costas na cadeira de palhinha almofadada. À tarde pedia que inclinassem a cama até a altura da janela, para que pudesse contemplar o crepúsculo do Potengi, a única distração que lhe restava.

Nessa idade era indiferente ao mundo e não tinha mais lugar para emoções. Assim, apesar do seu fervor católico de antigamente, não se comoveu com os sinos tocando o dia todo nas igrejas, no dia em que morreu o papa gordo e bonachão, e um vento de tristeza varreu a cidade. A ela só importava o mingau de maisena – que variavam com o de aveia e o de milho verde -, as tapinhas com a esponja de talco após o banho de chuveiro, e suas lembranças.

Com a cabeça na janela mirava a foz do rio, uma paisagem repetida e monótona. Tarde após tarde, com o zumbido de besouro, os catalinas amerrissavam no Potengi. Subiam e desciam no entardecer alaranjado, há mais de trinta anos, desde que inauguraram a linha, e o almirante Gago Coutinho aqui apareceu como herói, velhinho e de touca na cabeça. Tirando o estuário, sua vista recaía sobre os mangues, e ela imaginava a vida naqueles matos há duzentos anos, tão somente duas gerações e meia de velhos – as índias potiguaras carregando balaios de camarão e se acasalando a céu aberto.

Quando a noite caía, acompanhava os holofotes do quartel vasculhando as nuvens. Quinze anos já se passaram do final da guerra, e ainda assim continuavam a procurar por aviões inimigos. Natal vivia um clima nostálgico, para o qual concorriam os dias de uma neblina interminável. Metade da população, formada de americanos, tinha zarpado. E aqui ficaram burocratas e uns poucos bodegueiros, rememorando as noites de blecaute e o dia em que se prepararam para o ataque de aviões que teriam partido de Dakar.

Tanto nas horas em que esquadrinhava o céu turvo de nuvens, como nas tardes entediadas pelos catalinas, Maria Eugênia tentava obsessivamente descobrir de onde partira a infâmia que acabou com sua vida.

Logo depois que faleceu o marido, passou a vagar pelos largos cômodos do palacete, errando entre móveis e adornos comprados na Inglaterra. Ficara sem filhos, privada do bulício infantil que emprestaria sentido à sua vida. Se adivinhasse, teria se acautelado e assumido as meninas órfãs do asilo Padre João Maria. Um pedido seu e Manassés, na época, arcaria com os custos da casa de caridade. A falta de iniciativa e a má sorte a deixaram, aos setenta anos, solitária e órfã de filhos.

Procurou remediar a frustração chamando para dentro de casa meninos pobres do Passo da Pátria, atraídos por docinhos de caju e pelos anões de porcelana que sorriam nos jardins. Mas um dia esses deixaram de aparecer, passando temerosos à distância, dois ou três de mãos dadas para que um não se desagarrasse do outro. Demorou a entender aquele afastamento, até o dia em que, andando pelo mercado, um feirante escondido atrás de uma barraca de peixe gritou à sua passagem:

– Papa-figo.

Maria Eugênia não tinha doença, afora os naturais achaques da idade, e não quis acreditar no que escutava. Severina, a empregada de sua confiança, trouxe a notícia das ruas. Diziam que à noite a viúva de Manassés despachava dois homens a cavalo para os ermos dos Guarapes, de onde deveriam retornar com pelo menos uma criança dentro de um saco. Suas orelhas haviam crescido e, morfética, precisava comer o fígado dos meninos.

Por auto-sugestão foi ao espelho. As orelhas eram as mesmas de sempre, apenas um pouco emurchecidas pela velhice. Veio-lhe a lembrança dos tempos venturosos. Manassés adulado por onde passava, dono de quase todas as terras de Natal, do Alecrim aos Guarapes, passando por Pitimbu e Felipe Camarão, até as lonjuras de Macaíba.

– Bando de safados! – injuriou-se.

Na noite em que foram assistir a uma opereta, na reinauguração do Carlos Gomes, sentaram-se na frisa do meio, a convite do governador. O povo, nas poltronas, admirado, torcia o pescoço para vê-los. Na saída, um colunista da República comparou-os a Eugênia Câmara e Tobias Barreto, há muito desaparecidos. A comparação com o poeta só podia ser pelo porte físico de Manassés: moreno-claro, calvo e dono de um bigode cheio. Vendendo açúcar, azeite e bacalhau, o esposo não sabia ler nem mesmo as notas de importação dos produtos vindos de sua terra. E com relação a ela, certamente a referência fora por conta do seu nome e do jeito sério de dama portuguesa, adquirido na convivência com os poucos compatriotas de seu marido. Fora isso, não havia nada a comparar, era adulação pura. No mínimo o janota do periódico passaria na manhã seguinte para trocar na importadora uma nota promissória, sem data de vencimento.

A calúnia só podia ter vindo de quem morava por perto, de quem caminhava em seus jardins bonitos, de quem se servia de sua prataria inglesa e sabia das léguas e léguas de terras arroladas no inventário dos bens do marido. Aqueles burocratas aboletados em sinecuras, e que antes os cortejavam, não engoliam tanta riqueza na mão de uma mulher. Daí as aleivosias chegarem à boca do povo num passo ligeiro e manhoso, cortando caminho.

Maria Eugênia percebeu que se vivesse mais um século não descobriria o autor da maldade. A inveja tinha um cesto de disfarces e um cento de investidas, era inútil a sua obsessão em remontar o início de tudo. Desistiu das conjecturas que por mais de três décadas rondaram seu juízo, de modo circular e aborrecido, tal e qual os hidroaviões sobrevoavam o rio. E concluiu com amargor que nenhum ser humano merecia viver cem anos. Eram tantos os sobressaltos, as humilhações, os desencontros e desperdícios de amor, que aos oitenta o rosto de uma pessoa já parecia uma maleta amassada, se puindo e amarrada com barbante para não destripar. Chamou uma das empregadas e pediu que lhe comprasse um revólver para o vigia da casa.

À noite, lá pelas oito horas, Severina ouviu um estampido nos fundos do palacete. Correu em direção à janela onde deixara Maria Eugênia. Cuidava dela como de um bebê, com amor de mãe, mas nada pôde fazer, a não ser ajeitar-lhe o xale desarrumado na agonia da morte, e fechar os olhos ainda abertos, sem ter mais o que buscarem no céu de Natal.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Mário Gerson 21 de dezembro de 2011 17:07

    Conto excelente. De ótima qualidade. A narrativa – beirando o ar poético – impressiona pela fluidez com que o texto se desenvolve, num certo encantamento da escritura. É como se as palavras nos embalassem, numa narrativa cheia de informações subliminares. Esses apontamentos sobre o marido, as lembranças e as desilusões acentuadas no decorrer do texto, o tornam sublime. Acredito que este seu livro surpreenderá a inteligência literária deste Estado, tão necessitado de contistas, de contistas na melhor acepção da palavra. Contistas que narram com vigor e poesia, que tecem o caminho do texto como uma senda agradável. Você conseguiu isso neste conto. Nada mais posso dizer, senão que ele me surpreendeu. Surpreenderá, ainda, os demais. É no que creio. Parabéns pelo texto. Pela ideia. Pela roupagem e, principalmente, por este trecho: “A calúnia só podia ter vindo de quem morava por perto, de quem caminhava em seus jardins bonitos, de quem se servia de sua prataria inglesa e sabia das léguas e léguas de terras arroladas no inventário dos bens do marido. Aqueles burocratas aboletados em sinecuras, e que antes os cortejavam, não engoliam tanta riqueza na mão de uma mulher. Daí as aleivosias chegarem à boca do povo num passo ligeiro e manhoso, cortando caminho”.

  2. Jóis Alberto 19 de dezembro de 2011 21:18

    Boa narrativa, com personagens,, espaço e tempo bem estruturados, etc. O desfecho está bom, porém acho que tem qualquer coisa que poderia ser melhorado. Isso não me impede de afirmar, sem favor nenhum, que o autor, mais conhecido como poeta, também tem muito talento para a narrativa ficcional, no caso o conto.

  3. Carmen Vasconcelos 19 de dezembro de 2011 18:45

    Salve! Ótima notícia. Demétrio escreve poesia e prosa de excelente qualidade. Estou feliz com a publicação desse livro.

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