Sobre a biografia de Brigitte Bardot

Título original: Biografia mostra Brigitte Bardot como vítima da própria celebridade

Por Luciano Trigo
MÁQUINA DE ESCREVER –  G 1

Ainda que não seja uma biografia detalhada, e que a jornalista francesa Marie-Dominique Lelièvre muitas vezes se deixe levar por digressões poéticas nem sempre felizes, “Brigitte Bardot” (Record, 322 pgs. R$ 35) faz um balanço competente da trajetória de um dos maiores símbolos sexuais da história do cinema, que completou 80 anos no dia 28 de setembro. É até difícil imaginar Brigitte octogenária, pois, como Marilyn Monroe, é uma atriz que associamos institivamente à juventude e à beleza. Não somente porque ficou famosa muito cedo, capa de revistas aos 15 anos e estrela do cinema aos 17, mistura de ninfeta com femme fatale, mas sobretudo porque, tendo começado a filmar antes mesmo de ter sua personalidade formada, de certa forma sua celebridade se vinculou desde sempre a uma certa imaturidade insolente, que se tornou uma marca registrada e um elemento estrutural de sua personalidade.

Nesse sentido, o livro de Lelièvre – também autora de biografias de outros personagens polêmicos da cultura francesa, como Françoise Sagan, Yves Saint-Laurent e Serge Gainsbourg – mostra de forma convincente como o clichê da boneca sensual e sedutora foi assimilado pela atriz a ponto de suas imagens pública e privada, suas vidas exterior e interior, se confundirem. Mas ainda, como esse clichê determinou também a vida amorosa da atriz, marcada por uma atitude predatória em relação aos homens, foi pautada por essa construção simbólica. A autora fornece uma extensa lista de maridos, amantes, casos e namorados de Brigitte – além de Roger Vadim, a lista inclui Jean-Louis Trintignant, Gilbert Bécaud, Sami Frey, Bob Zagury (o playboy marroquino que a trouxe para Búzios, em 1964), Gunter Sachs e Warren Beatty, entre dezenas de outros nomes.

É mais do que sugestivo, portanto, o trecho do livro em que, contando as peripécias das filmagens de “O Desprezo”, de Jean-Luc Godard, Lelièvre revela que a atriz resistiu fortemente a mudar seu penteado, como queria o diretor – como se diminuir o volume de seu cabelo diminuísse, também, sua personalidade.  Por incrível que pareça, a equação “gênio da Nouvelle Vague + estrela do cinema comercial” resultou em um filme genial, um dos melhores de Godard, ainda que a relação entre os dois tenha sido marcada por mal-entendidos.

“Toda renovação no cinema passa pela invenção de novos corpos”, afirmou o crítico Alain Bergala, comentando a mudança de representação do feminino no cinema, na época da Nouvelle Vague. Brigitte Bardot encarnava um tipo, uma novidade, um corpo novo para um novo cinema e para a moderna identidade da mulher que se desenhava nos anos 50 e 60. Brigitte era seu cabelo, seu gestual, sua maquiagem, seu comportamento mimado e voluntarioso, sua dicção arrastada e sexy: como que desprovida de uma vida interior, sem esses elementos ela não era nada. Sua existência dependia do espelho do olhar e da admiração dos outros – o que ajuda a entender o ostracismo auto-imposto na maturidade, quando Brigitte se recolheu e passou a dedicar sua vida à defesa dos animais.

Desde 1973, quando encerrou sua carreira, Brigitte vive reclusa num casarão em Saint-Tropez. Nas poucas ocasiões em que se manifestou publicamente, foi para dizer bobagens sobre gays e imigrantes, a ponto de ter sido processada mais de uma vez por incitar o preconceito racial. Também lançou um livro de memórias, “Iniciais B.B.”, uma das fontes de Lelièvre. Como afirma a jornalista, Brigitte se tornou uma vítima da própria fama, “o que a fechou no vazio vertiginoso de seu próprio reflexo”.

Quando, pouco mais que adolescente, apareceu nua em “E Deus criou a mulher”, de seu então marido Roger Vadim, em 1956, provocou o primeiro de muitos escândalos. Descrita como “a mulher mais livre do pós-guerra na França”, Brigitte chamou a atenção da intelectualidade francesa, a ponto de Simone de Beauvoir a definir como “uma locomotiva da história das mulheres”. De certa forma, ela foi a garota-propaganda involuntária e acidental de um mundo em transformação, marcado pela liberdade sexual e pela valorização da fama. Pagou seu preço: aos 15 anos tentou pela primeira vez cometer suicídio, ligando o gás e enfiando a cabeça dentro do forno. Tentaria se matar mais uma vez ao descobrir que estava grávida de seu filho Nicholas. Brigitte considerava a gravidez um castigo divino, e por isso não se tem notícia de fotografias suas que a mostrem barriguda. Quando Nicholas nasceu, foi entregue aos cuidados de uma babá. Após a separação, seria criado pelo pai, Jacques Charrier, o segundo dos quatro maridos oficiais da atriz.

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