Sobre a crítica

T.C

Eu já tinha praticamente concluído um post sobre o meu desgosto com o filme “Não Se Pode Viver Sem Amor”, do diretor Jurge Dúran, em cartaz no Moviecom. Isso foi ontem (24). Mas interrompi o texto para me ocupar em outra coisa, com a intenção de concluí-lo hoje (25). Mas, desisti do intento.

Ao mesmo tempo senti vontade de falar sobre minha relação com a crítica depois dos comentários dos poetas Jarbas e Lívio acerca deste importante ofício.

Algumas pessoas se referem a um tempo em que escrevi sobre literatura em jornais locais e me instam a retomar aqueles textos. O poeta Demétrio, por exemplo, está sempre voltando a esse assunto e por mais que eu já tenha dito a ele que isso jamais irá acontecer, ele sempre que tem uma oportunidade retoma a questão.

Chegou um momento em minha trajetória como jornalista que passei a entender melhor o esforço do criador (escritor, artista plástico, diretor de cinema etc) e a me sentir incomodado em criticar esse trabalho. O que fiz com certa regularidade na Tribuna do Norte e depois no extinto Jornal de Natal entre 1988 e 1992, mais ou menos por aí.

Ao mesmo tempo também achava um saco ter de ler ou ver um filme até o final para comentá-lo. Havia perdido, em parte, a minha liberdade de leitor e expectador. Sempre fui um fruidor de arte hedônico e anárquico, desobediente às cartilhas ou modismos.

Somente a imprudência, uma enganosa auto-suficiência, beirando a arrogância e um inconsciente desejo de auto-afirmação, características juvenis e de quem se iniciava na carreira podem explicar minha curta – ainda bem – e aventureira passagem pela crítica.

Como não tinha interesse em fazer da crítica uma arma para atacar inimigos ou impor o medo, nem índole para a conflagração a aberta com os suscetíveis autores potiguares, que preferem a enxurrada de elogios falsos à uma única verdade, resolvi deixar que outros mais dispostos travassem esse combate.

Passados esses anos todos vejo que tomei a decisão acertada, não sinto a menor vontade de voltar a criticar nada. Tanto filme e tanto livro depois constato que foi uma das decisões profissionais mais acertadas que tomei na vida. Aqui e ali, quando sinto vontade, comento alguma coisa que me provocou prazer estético, sem maiores pretensões, só para não enferrujar os neurônios.

Os anos também me mostraram como são relativas e eivadas de idiossincrasias todas as apreciações críticas. Por mais bagagem e conhecimento que se tenha, sempre há variáveis graus de subjetividade embutidas nesse trabalho. Mas também inveja, amargura, mesquinharia e auto-projeção. Por isso, é necessário saber as verdadeiras (geralmente, bem disfarçadas) motivações do crítico.

No fundo, acho que essas subjetividades e idiossincrasias são determinantes na elaboração de um juízo crítico qualquer. Por isso, o que parece ruim e equivocado a um crítico a outro se apresenta bom e acertado. E aqui refiro-me a dois críticos com um mesmo grau de conhecimento do objeto artístico analisado.

Constato isso a toda hora. Ontem mesmo, fui no Google atrás de uma foto para o post sobre o filme “Não Se Pode Viver Sem Amor” e dei com um texto bem fundamentado, que elogiava e negava tudo o que eu tinha achado sobre o filme.

Acho que foi isso que detonou de vez a minha intenção de criticar o filme e também pensei, se não tenho coragem de criticar as obras locais, porque voltar minha artilharia contra os de fora? Não é justo.

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