Sobre a cultura na esquina selvagem da América do Sul

Reprodução do quadro “A resposta dos Cossacos ao sultão da Turquia”, de Ilya Repin

Por Conrado Carlos

Logo na introdução, Laurence Bittencourt Leite avisa que o primeiro motivo para lançar “Por que não o que é nosso?” é “[…] o desejo de perpetuar em livro o que já havia escrito antes sob forma de artigo de jornal, que ‘desaparece’ logo após sua publicação”.

Como Borges, que afirmava que os jornais nasciam para o esquecimento, ele sabe que em vinte quatro horas, aquelas ideias espraiadas com esmero (e vaidade) viram receptáculo de papita canina digerida ou acessório doméstico na limpeza de janelas.

Jornalista, psicólogo e professor universitário, Laurence (detalhe) reuniu artigos e ensaios publicados em periódicos natalenses. Temas diversos como teatro, música, literatura e política são discutidos com propriedade por quem, acima de tudo, é um apaixonado pela arte. No entanto, o leitmotiv da compilação é debater a inexpressiva representatividade cultural do Rio Grande do Norte em relação aos Estados vizinhos, e apresentar soluções para o atraso vigente – o incremento de crítica especializada e efetuação de políticas públicas.

Diderot, em “Dos autores e dos críticos”, advoga que o observador do trabalho artístico alheio é um solitário que habita o fundo de um vale cercado de colinas. Esse espaço é seu universo. Certo dia, ele vai até o cume de uma dessas colinas e vê que existe um território imenso e inexplorado, fora de seu alcance. Súbito, o discurso é alterado. Da arrogância, ele passa a dizer que não sabe de nada, que não viu nada. Ironia ou não, confirma que o censor mais severo de uma obra é o próprio autor – ninguém melhor do que ele conhece seus vícios secretos.

É desse ponto que Laurence questiona a cultura potiguar. Da simbiose, da interação, do confronto de ideias entre autores e ‘comentaristas’ deveria surgir o aprimoramento estético e a consequente aparição de novos valores. Mas a estreiteza de nossa ‘elite’; a inércia governamental; e o colunismo político e cultural que impera na mídia local bloqueia o pleno desenvolvimento da arte papa-jerimum. “Se o sistema moral está corrompido, é inegável que o gosto seja falso”, dizia Diderot.

Dividido em duas partes, “Por que não o que é nosso?” é prefaciado por Nei Leandro Castro. “[…] já pode ser considerado um livro de referência”. Se, na primeira metade, Zila Mamede e Eulício Farias de Lacerda coabitam com James Joyce e Hannah Arendt, a segunda enfoca a produção teatral norte-riograndense em consonância com Shakespeare e os gregos. Com erudição, firmeza e virulência, Laurence utiliza a Arte como campo fértil para contestar a insignificância nacional da pequena esquina pobre do Brasil. “O pieguismo do elogio fácil e gratuito tão comum”, denunciado por ele, é inevitável.

“Por que não o que é nosso?”

Autor: Laurence Bittencourt Leite

Editora: Sol

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Edjane Linhares 11 de maio de 2011 7:22

    Lembrete:

    Laurence lançará este livro hoje, dia 11 de maio, às 19 horas, na Siciliano do Midway.

    P.S.: Surgiram imprevistos. Não poderei comparecer. Bom lançamento.

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