Sobre a moral de mercado

Por Muniz Sodré
NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Noticiou-se com destaque a estréia da série “Oscar Freire 279” (foto), toda segunda-feira, às 23h30, no canal Multishow. O roteiro é bom, são bons os atores, além do tratamento apurado do assunto. “Apurado”, no caso, significa a busca de verossimilhança sem resvalar na pornografia. A intenção declarada dos realizadores é oferecer à audiência um aspecto pouco conhecido do universo da prostituição: garotas de programa bem educadas, algumas com domínio de línguas estrangeiras, que poderiam faturar ao redor de 40 mil reais por mês.

Em princípio, o assunto pertenceria à rubrica “show” ou “espetáculo”, que não costuma ser objeto de observação por parte deste Observatório. Mas interessa assinalar a progressiva entrada em cena da temática e de seu vocabulário no discurso jornalístico. Faz anos que os jornais abrem pequenos e grandes espaços para eventos ligados ao sindicato das prostitutas (existe até uma “liga nacional de prostitutas”), quando não à sua presidente e às suas reclamações. Mais recentemente, houve um noticiário bem-humorado sobre desfiles de modas por parte de jovens profissionais do ramo com o título de “Daspu”, evidente paródia do nome de famosa loja de luxo paulista.

Bons costumes

É de conhecimento geral que nenhuma repressão, nenhum pânico de contágio epidêmico, em época nenhuma, conseguiu sufocar o que alguns chamam de “a mais velha profissão do mundo”. Mas os velhos profissionais de imprensa ainda devem lembrar-se das restrições à simples menção da palavra “prostituta” num texto. As alternativas eram coisas como “mundana”, “mulher de vida fácil”, “mulher da vida” etc. Revistas semanais coloridas simplesmente contornavam o assunto, quando era o caso. Se a realidade saltava aos olhos, turvo ficava o olhar jornalístico.

O que agora acontece é, no entanto, a adoção da velha regra da neutralidade jornalística na abordagem desse temas, seja em filme, tevê, livro ou coluna de jornal. Abrigadas, quem sabe, sob o vasto leque dos direitos humanos (ponta de lança da transformação mundial de costumes), as antigas “mundanas” ingressam no livre mercado – agora, sim, cada vez mais livre – do sexo.

Quer falem várias línguas ou se valham apenas da única que têm, moças e moços parecem reencontrar-se todos e todas no estatuto de trabalhador(a) desse nicho terciário em ascensão. Frente a qualquer recusa moralista de assinar embaixo desse painel, o deus-mercado exibe o poder da sua teodicéia.

De fato, nenhuma grande razão moralista é capaz de dar conta do fenômeno. A história mundial da prostituição costuma associar essa prática na Antiguidade a ritos sagrados, especialmente os dedicados a Dioniso ou a Vênus. Na verdade, não se tratava extensivamente de prostituição, já que se fazia uma diferença entre as práticas vulgares e aquelas inscritas nos bons costumes dos círculos ricos e cultos. Na Grécia, vulgares eram as escravas que se prostituíam (as porné) em lugares conhecidos como porneion, enquanto recebiam outros qualificativos as hetairas, instruídas, bem mantidas e favorecidas por ricos e intelectuais. O espírito mercantilista fazia a diferença entre umas e outras.

Algoritmo social

Essa diferença de “classe” sempre se fez marcante ao longo dos séculos e se reedita agora aos olhos de roteiristas e realizadores de espetáculos cinematográficos e televisivos. Essa diferença abole as velhas conotações morais de sofrimento e desgraça pública por parte dos prostituídos e dá ensejo a um olhar neutro sobre o fenômeno. Confissões de uma garota de programa, de Steven Sorderberg, é um filme exemplar neste sentido. A série “Oscar Freire 279” envereda por essa trilha.

Nada indica que esse filão temático possa encorajar socialmente a prática em questão. Agora, por outro lado, considerando-se a crescente particularização dos interesses da representação parlamentar, nada também impede que, de uma hora para outra, seja dado o primeiro passo eleitoral para a formação de uma bancada desse gênero no Legislativo. É mesmo possível que, com o empurrão da mídia, a sociedade já esteja suficientemente madura para essa eventualidade.

Numa tecnodemocracia regida pela moralidade do mercado, o que conta mesmo é a correção do algoritmo com que se programa em aplicativos virtuais a forma social.

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[Muniz Sodré é jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro]

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